|
|
|
|
No Dia Em Que Eu Abri Uma Gravadora
|
|
|
|
|
|

Ontem de manhã quando acordei, olhei a vida e me espantei: minha gravadora Jóia Moderna chegava ao mercado. Mas afinal de contas por que eu tomei essa iniciativa tão inesperada e romântica ?
A criança que eu fui ouvindo e assistindo a esse enorme e, muitas vezes inexplorado, mundo de cantoras que existe nesse país, sempre me causou amor e dor: de um lado um orgulho irrestrito dessas vozes que me mostram diariamente que a música no Brasil é muito mais que um bando de três ou quatro que insistem em nos mostrar composições medíocres, dubiedades sexuais vulgares e talentos que enchem ginásios e teatros mas não dizem nada. Habitam também,aqui nesse nosso território, uma imensidão de mulheres que trazem consigo uma bagagem de boas intenções, uma musicalidade nata nas veias, uma emoção de mil watts e que o mercado insiste em desprezar e maltratar. Algumas desistiram depois de tanto suor e lágrimas, outras nem chegaram a nascer, diante de tanto descaso e necessidade de revelar apenas o efêmero. E foi assim que eu resolvi fazer justiça com as próprias mãos. Nasceu então a Jóia Moderna.
Há algum tempo que acompanho de perto o trabalho incansável e muito bem realizado do produtor Thiago Marques Luiz, um moleque de trinta anos que poderia muito bem estar aproveitando sua vida atrás do trio elétrico ou escutando no seu Ipod imbecilidades cuspidas pelas rádios de hoje e que teve a insana e maravilhosa decisão de viver de música no Brasil, iluminando vozes que ficaram para trás no passado de nossa história musical ou recriando antigos compositores como Ataulfo Alves e Adoniran Barbosa em sensacionais discos/tributos que sempre misturam a velha e a jovem guarda da MPB. Fomos nos aproximando por afinidades, desenvolvendo idéias em comum e chegamos à decisão de que, para realmente sacudirmos a mesmice, o jeito seria termos nosso próprio terreno para a execução de alguns sonhos. E aqui está a Jóia Moderna.
O primeiro fruto gerado dessa comunhão musical entre eu e Thiago é o tributo de quatorze vozes femininas interpretando Taiguara, o compositor das multidões no Brasil dos anos sessenta e setenta e o, esquecido ou quase desconhecido, artista que ele se tornou após esse período, nesse país que seguiu em frente e deixou para trás seus artistas geniais. Muitas vezes ligávamos para algumas cantoras e nos sentíamos dois idiotas insistentes, porque muitas não conheciam Taiguara e se mostravam confusas entre aceitar ou recusar o convite por insegurança ou por desconfiarem de não estarem gravando algo que lhes gerasse uma mídia imediata ( necessidade que muitas tem hoje em dia, escravas do sucesso de quinze minuto). Ao mesmo tempo , outras cantoras que presenciaram e sempre souberam da força das composições de Taiguara, mantinham em seus cofres fechados, uma antipatia afetiva com ele e se recusavam a cantar sua obra por motivos pessoais. E assim fomos enfrentando esses moinhos de impossibilidades e conseguimos fazer um disco de resultado, espero eu, emocionante e iluminador dessas canções que eu, ainda menino com minha mãe , aprendi a cantar e ouvir. Vozes emocionantes como Fafá de Belém , Claudette Soares e Evinha somadas a promessas de um novo mundo como Verônica Ferriani, Luciana Mello e Aretha fizeram desse disco um ato de criação e emoção.
Cida Moreira é cantora dos amores perdidos, das alegrias pouco comuns e das dores irreparáveis. Despreza em seu repertório doçuras fáceis e suavidades banais. E foi assim que escolhi essa voz para ser a companheira do meu quarto de adolescente, das minhas noites mais difíceis, dos meus dias ensolarados cheios de nuvens negras. Os discos de Cida Moreira são para pensar. Nem pense em lavar a louça e deixar sua voz ao fundo, você não terá sossego. Cida Moreira é para refletir. Depois de Cartola, trilhas de cinema, registros camerísticos e muitos mergulhos na obra de Tom Waits e Kurt Weill, ela retorna ao mercado com o álbum que carimba, definitivamente sua biografia musical: A Dama Indigna. Gravado em duas sessões ininterruptas de suor e lágrimas, Cida cantou o que quis e o que nem ousaríamos pedir. Aquele Chico Buarque que tanto queríamos ouvir em sua voz, está aqui. Uma Amy Winehouse que todos pediríamos de joelhos para ela interpretar, também aparece nesse disco. E entre essas duas citadas, um rio de emoções e seus afluentes: Caetano Veloso, Jards Macalé, David Bowie e George Gershwim. Tudo misturado e intenso como só Cida Moreira sabe cantar e viver.
Zezé Motta é uma atriz para a maioria dos brasileiros. Zezé Motta é uma cantora para os mais atentos. Zezé Motta é fundamental. Seu primeiro álbum solo é de 1978, uma jóia rara para quem o conheceu. Ali Zezé misturava com propriedade, nobreza e personalidade canções de Rita Lee, Moraes Moreira, Gilberto Gil e....Luiz Melodia que lhe deu seu primeiro grande sucesso, a balada Dores de Amores. Anos mais tarde, em seu terceiro disco, Zezé gravaria uma canção emblemática e cultuada chamada Sem Essa de....Jards Macalé. Então a idéia que eu e Thiago havíamos tido de Zezé gravar a obra de Macalé e Melodia, já era uma lâmpada acesa desde sempre na vida musical dessa voz potente e iluminada. E foi assim, que numa bela tarde de bons presságios, ligamos para Zezé e a convidamos para viver esse sonho de gravar um disco misturando a obra desses dois compositores que são malditos para muitos e geniais para quem gosta de boa música. Chamamos três jovens cabeludos e maravilhosos que criaram arranjos tropicalistas, abusados e inesperados para canções que sempre estiveram no inconsciente musical de Zezé e que ela toma coragem agora de gravar e jogar para o mundo. Salve a negra melodia de Zezé Motta !
A cantora Silvia Maria é uma aparição bissexta na música brasileira. Seu primeiro disco é de 1973, seu segundo registro é de 1980 e assim se passaram 30 anos sem eu ver seu rosto, sem ouvir sua voz. Até que um dia recebo um telefone do meu amigo e produtor Thiago Marques me convidando para o inevitável: um show de Silvia Maria num escondido e pequeno auditório dentro do estacionamento do Memorial da América Latina aqui em São Paulo chamado Sala dos Espelhos . Ali, sentado de frente para um minúsculo palco, assisti ao show que minha alma e meus ouvidos pediam há muito tempo. Ao final, feito uma criança mimada que não aceita recusas, convenci, em tom de fúria e emoção, Silvia Maria a gravar esse disco que se chama, não por acaso, Ave Rara. O cristal potente de sua voz e o repertório irrepreensível dessa intérprete vai levar você de volta para o antigo mundo das exigências, um tempo em que o público pedia boa música e recebia em troca relíquias musicais para toda a vida. Todos os compositores escolhidos por Silvia para estarem nesse disco são dignos dos nossos maiores aplausos: Milton Nascimento, Baden Powell, Eduardo Gudin e Vinicius de Moraes. Silvia Maria voltou. Dessa vez para sempre, se Deus quiser, como dizia aquele antigo samba-canção.
E aí estão meus quatro primeiros sonhos de menino chegando às lojas, corações e ouvidos do Brasil. E minha cabeça não para: imagino novos discos, relembro cantoras escondidas no escaninho do meu coração e fico atento aos novos talentos que não param de chegar. Porque o Brasil é um celeiro de cantoras. Um país feito de vozes que clamam por espaço e liberdade. A Jóia Moderna está aí para ser mais um espaço de manifestação para essas mulheres. Para essas insistentes sonhadoras que, como eu, ainda acreditam que essa terra, um dia, vai cumprir seu ideal.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Solta Na Vida
|
|
|
|
|
|

foto: Alexandre Moreira de Oliveira
Esse final de semana um coletivo de mulheres brasileiras chamado Fafá de Belém se apresenta no Auditório Ibirapuera. Uma cantora que que não pode, não quer e nunca será aquela que se possa enquadrar nesse ou naquele estilo. Uma intérprete longe dos modelos musicais óbvios que os críticos e o público adoram catalogar em suas resenhas e prateleiras. Fafá de Belém é o Brasil, irregular e sedutor como ele. Apaixonada e sem regras como só Fafá consegue ser. O que não tem governo nem nunca terá. O que não tem limite.
Ainda menino em Copacabana, entrei num supermercado Sendas perto da minha casa que vendia, junto com artigos de primeira necessidade, discos (!) e avistei pela primeira vez a imagem dessa mulher que, de tão forte, imediatamente me fez puxar a barra da calça do meu pai e pedir para ele comprar aquele LP prá mim. O álbum se chamava Banho de Cheiro e mostrava uma Fafá esbanjando sensualidade na capa e dentro um repertório de arrasar que misturava Sueli Costa e seus compositores prediletos do Pará, Paulo Andre e Ruy Barata. Ali em 1978, Fafá já estava com algum caminho andado, pois aquele era seu terceiro disco e o Brasil já havia entendido sua liberdade mas nem sempre aceitado suas ousadias. Tinha gente na rua que atacava, tinha crítico que derrubava seus sucessos, tinha bicha que era maluca por ela, tinha intelectual querendo casar com aquele furacão. Silêncio e indiferença, nunca. E assim Fafá atravessou esses trinta e cinco anos de carreira: cantou para o Papa, subiu nos palanques das Diretas Já, levou o Hino Nacional para o universo pop, levantou a bandeira dos sertanejos, foi a intérprete maliciosa e brejeira de Milton Nascimento e Fernando Brandt, atriz de novelas e a última das moicanas a cantar o amor derramado sem medo de ser feliz. Uma brasileira.
Ontem entrei no Auditório Ibirapuera sabendo de tudo isso, querendo todos esses erros e acertos, e como sempre, encontrei mais. Aquele palco nunca mais será o mesmo depois da apresentação desse bicho solto e furioso chamado Fafá de Belém. Um circo onde ela é o o mágico, a domadora e a trapezista sem rede de proteção e nós, como sempre, a sua platéia. Durante o show ficamos tomados por sentimentos quase infantis de risos e lágrimas porque tudo é tão verdadeiro e contrastante com esses tempos de hoje de completa mentira, que só mesmo se despindo das nossas maturidades para podemos aceitar essa pororoca de sensações emanadas por Fafá. Ali esteve a índia amazônica (Pauapixuna), a mulher da vida dos botequins desse país (Sob Medida), a brasileira indignada que luta por um país justo (Aprendizes da Esperança) e a menina que ela nunca deixou de ser e que um dia deixou a sua Belém do Pará (Pode Entrar). O repertório apresentado, um painel biográfico dessa cantora tão intensa e verdadeira, atinge no meio do coração de qualquer um que passe pelo Auditório do Ibirapuera esse final de semana, sim, porque Fafá nunca quis pouco e tem vitalidade e emoção para enfrentar essa maratona de quase três horas durante três dias de show. Eu espero você lá, porque vou aplaudir Fafá de Belém mais uma vez. E mais uma vez. E sempre. Um orgulho nacional.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Meus Melhores Discos de 2010
|
|
|
|
|
|
Marcelo Jeneci - Feito Pra Acabar
Esse garoto vai longe. Compositor inspirado, músico talentoso, fez esse primeiro disco que nāo pára de tocar nas boas casas do ramo e nos melhores lares brasileiros. Jeneci afinou o coro dos contentes.
Tulipa Ruiz - Efêmera
A dona do som mais paulistano e urbano da temporada, invadiu todas as praias jovens do Brasil. Todo mundo pergunta por ela, todo mundo quer saber porque, onde e quando Tulipa Ruiz. Totalmente nova, inesperada e sedutora. Não viva sem ela.
Thiago Pethit - Berlim, Texas
Foi o meu cantor preferido esse ano. Seu disco embalou meus passados, presentes e futuros amores. A paisagem vista da minha bicicleta ficou mais bonita, meus dias foram mais felizes. A musica de Thiago Pethit não tem pretensões Só as melhores intenções.
Silvia Machete - Extravaganza
Quando tudo parecia calmo, quando todos já conheciam seus bambolês e malemolências, Silvia Machete fez ainda melhor esse ano. Um maravilhoso disco autoral, cheio de barulinhos bons e músicas fundamentais. Tropicalista, carnavalesca e muito romântica. Eu votei nela para presidente.
Moska - Muito Pouco
Dono de uma discografia que nem sempre me emociona, Moska acerta em cheio nesses dois discos : romântico na dose certa, interessante na medida exata. Eu fiquei viciado nessas cançōes esse ano. Procure por elas. Você não vai se arrepender
Vanessa da Mata - Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias
Teve gente que não gostou. Eu adorei. Vanessa da Mata sabe o que faz quando o assunto é letra de música. Inteligente, bem humorada, brejeira e matreira, Vanessa ainda é (quase dez anos depois) a maior promessa musical desse pais
Arnaldo Antunes- Ao Vivo Lá Em Casa
Dessa vez Arnaldo Antunes se superou. Alem de ser o dono do melhor repertório pop desse ano, ainda gravou esse DVD no quintal de sua casa com uma banda nota mil e dois convidados de ouro: Erasmo e Jorge Ben, misturando intimidade com emoção Imperdivel e insuperável.
Alcione - O Samba Raro
Eu sei que a Alcione está de disco novo mas não teve jeito: essa coletânea foi seu melhor lançamento esse ano. Cheia de raridades que confirmam a excelência da Marrom, esse disco deveria ganhar todos os prêmios. Gravações que não deixam dúvida sobre o talento dessa sambista que tem o jazz correndo nas veias.
Pato Fu – Música de Brinquedo
Essa turma não tem jeito mesmo. Idéias musicais de primeira, sempre. Quando fazer disco infantil já estava ficando chato e repetitivo, a dupla Fernanda Takai e John Ulhoa mostraram que, também nesse assunto, são os melhores. As crianças do Brasil merecem e agradecem.
Nina Becker – Azul e Vermelho
Essa menina não saiu do meu Ipod esse ano. Dois discos complementares em tudo: emoção inteligência e sofisticação. Agora em 2011 vou começar a ouvir tudo de novo.
Miranda Kassin e Andre Frateschi – Hits do Underground
Até meus amigos mais caretas adoraram. André e Miranda pegaram aqueles sucessos que nunca saíram do escuro e iluminaram essas canções com bom humor, vozes deliciosas e arranjos sensacionais. O produtor do disco Plínio Profeta também está de parabéns.
Emilio Santiago – Só Danço samba
Esse é um negão de tirar o chapéu. Nesse disco inspirado ele volta com tudo: suingue, repertório inteligente e a aquela voz de ouro que o Brasil adora aplaudir.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Chame o Ladrão ! Chame o Ladrão !
|
|
|
|
|
|

Discos fora de catálogo. Tão necessários para um bom colecionador que se preze. Desprezíveis ou uma incógnita para consumidores de médio porte. É claro, que desde criança, me encaixo na primeira opção, a categoria dos desesperados pelos arquivos mortos das gravadoras.
E de repente o mar se abriu e dele surgiram dedicados pesquisadores que conseguiram penetrar nas salas esquecidas das grandes gravadoras e dali extraíram pérolas do nosso cancioneiro que até então não tinham chegado ao mercado em forma de CD, o tal som digital. E durante um tempo foi só alegria: a obra de Gil chegou inteira aos nossos ouvidos, discos de Maria Alcina e Olivia Byington voltaram a habitar nossos Ipods e os reis e rainhas do rádio como Cauby Peixoto e Dalva de Oliveira reapareceram para novas gerações. Mas de um tempo prá cá o negócio anda bagunçado. A tal droga malhada que Cazuza já citava em 1988. Os primeiros discos de Tim Maia, tão desejados e esperados, vieram com defeitos graves como pedaços de letras subtraídas(procure pela faixa Lamento do álbum de 1972 e comece a chorar). A caixa preta de Itamar Assumpção chegou às lojas com todos os discos inutilizados pela cola dos encartes que vazaram, sendo recolhida logo em seguida. A obra de Caetano Veloso, separada em vários volumes, apresenta diferença de masterização de uma para a outra. E para completar, alguns LP’s raros estão sendo passados para CD de forma mentirosa, ou seja: não direto das masters que o geraram mas de vinis empoeirados e cheios de chiados que causam a mesma sensação de escutar aquela vitrola do tempo da vovó. Assim não dá.
Claro, que também como um bom colecionador, muitas vezes o desejo de ter esses discos é maior do que ouví-los novamente com calma, então muitas vezes eles passam direto das lojas para as imensas prateleiras daqui de casa e ficam por lá muito tempo sem sequer terem sidos retirados os sacos plásticos que os envolvem. Essa semana resolvi dar de presente para alguns amigos um Ipod cheio de boas recordações musicais e fui em busca de alguns discos históricos no meu armário. algumas raridades que eu supunha estarem em ótimo estado por terem sido recentemente compradas e qual não foi o meu espanto e indignação quando reparei que a maioria apresentava esses defeitos e picaretagens que citei no parágrafo acima incluindo a também novíssima caixa com os primeiros discos de Gal Costa que estão todos com o mesmo volume e masterização daqueles que eu joguei no lixo pensando que estavam defasados.
Portanto fique atento e forte: verifique, se possível, todos esses falsos relançamentos antes de comprar, bote a boca no mundo, divulgue essas falcatruas para os seus amigos que muitas vezes tem pouca grana e passam um bom tempo juntando dinheiro para comprarem esses projetos mentirosos. De todos esses pesquisadores que pilotam esses projetos, Rodrigo Faour é o mais cuidadoso em todos os quesitos: encartes com textos explicativos, masterização cuidadosa e belos trabalhos gráficos. Quando estiver para comprar um relançamento procure pelo nome dele na ficha técnica. É sinônimo de qualidade e segurança. Fique de olho e viva a música brasileira.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
A Meta De Uma Seta No Alvo
|
|
|
|
|
|

Da primeira vez eu perdi o vôo para o Rio. Da segunda, tive que assistir no meio de uma platéia barulhenta e desatenta aqui em São Paulo. Mas finalmente nesse domingo eu fiz justiça com as próprias mãos: fui até o Sesc Pinheiros assistir ao show Muito Pouco de Paulinho Moska. Um registro emocionante desses dois discos que, decididamente, estão na lista dos meus preferidos de 2011. Tendo como cenário projeções que misturam fotografias e ilustrações além de uma banda potente que afirma todas as intenções das letras e melodias, Moska chega agora ao seu melhor momento, uma síntese musical coerente e definitiva. E o público agradece. Diante de uma multidão que lotou os dois dias da temporada, ele manteve todos os olhares atentos , todos os ouvidos abertos, comprovando a força desse repertório e minha teoria de que quando Moska ajusta o foco, é o rei das canções.
Paulinho é um compulsivo. Eu que desfruto de sua farta amizade e companhia, assisto a uma cabeça pensante 24 horas por dia. Moska quer fotografar. Moska quer compor. Moska quer levar para a televisão suas idéias. E quer cantar. Tudo muito bem. Tudo repleto de emoções transbordantes. E essa maratona incansável, é claro, pode resultar muitas vezes em alguns desperdícios e momentos desinteressantes. Tem artista que é assim, no excesso encontra o seu melhor. Alguns ficam anos burilando idéias para chegar a um resultado satisfatório como Caymmi e João Gilberto. Moska é de outra turma . Gosta de uma rotina intensa de sensações . E o meu desejo por sua composição, devido a essa grande demanda de material, oscilava: aplaudia de pé muitas vezes e me calava em outras tantas.
Quando o projeto Muito Pouco chegou às lojas, meu coração disparou. Já tinha ouvido alguns rascunhos de voz e violão em sua casa no Rio que me alegraram muito e causaram expectativas até o lançamento. Ao dar o play na primeira faixa minhas certezas se confirmaram: Moska tinha feito os dois discos mais certeiros e preciosos de sua carreira. Parceiros de ouro como Kevin Johansen e Chico César (Saudade e Waiting For The Sun To Shine) e as faixas assinadas somente por ele (Semicoisas e Provavelmente Você) avalizaram meus argumentos. O tal momento pleno que acontece algumas vezes na vida de um artista (ou nunca) e que, sabiamente, Moska está sabendo desfrutar, chega agora. Então vamos aproveitar. O público de ontem no Sesc por exemplo, celebrou com inteligência e sensibilidade, sem pedir para o cantor repetir canções surradas de seu repertório e aplaudiu com força e com vontade as tantas inéditas enfileiradas no roteiro. Ao final pediram mais e ganharam a bela interpretação de Só Nos Resta Viver de Ângela Rô Rô que levou o próprio Moska às lagrimas. Eu estava lá e fui muito feliz. Aliás quando é mesmo o próximo show ?
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Feito Para Ouvir
|
|
|
|
|
|

No balanço de perdas e danos, prazeres e surpresas, o ano musical brasileiro de 2010 chega ao fim. E não resta a menor dúvida que São Paulo ganhou disparado em todos os quesitos: novos talentos, melhores discos, shows antológicos. E já não era sem tempo. O povo daqui vive sempre à margem dos aplausos e consagrações (muitas vezes injustos e gratuitos) para o som que vem da Bahia, Recife e Rio de Janeiro, as tais três cidades que estão sempre em primeiro lugar no gosto do público. E para encerrar essa década com chave de ouro, acaba de chegar aqui em casa, Feito Para Acabar o álbum de estréia de Marcelo Jeneci. Definitivo, arrasador e genial.
Marcelo Jeneci é um talento das antigas. Aquele que já nasce predestinado a viver de música. Desde menino incentivado por seu pai, ele pegou na sanfona e dela fez seu alimento vital, geral e irrestrito. E logo uma sequência de artistas de primeira começaram a incentivar esse menino prodígio: Dominguinhos abençou, Chico César abraçou e Vanessa da Mata virou uma de suas primeiras parceiras. Era inevitável. Seu carisma transbordava no palco quando acompanhava qualquer um desses artistas. Quietinho no seu canto mas arrebatador ao tocar seu instrumento, quem estava comigo na platéia sempre me perguntava pelo nome daquele músico que estava no palco. E foi ali, em muitos camarins, que trocamos as primeiras palavras e descobri um garoto atento, apaixonado e disposto a chegar lá. E chegou. Feito Para Acabar deveria ser o disco do ano aqui em casa, mas seria cometer uma injustiça com tantos outros que habitaram o meu Ipod nesses doze meses. Mas uma coisa é certa: o álbum cumpriu todas as expectativas que não foram poucas, desde que Jeneci começou a mandar suas primeiras demos e experiências musicais para o meu email. Ali já apareciam claramente suas intenções de ser o rei das belas melodias (somente a canção Felicidade em parceria com Chico César já valeria você correr até a loja mais próxima) e um parceiro de letristas super inspirados como Arnaldo Antunes e José Miguel Wisnik. Outra coisa linda de se ver e ouvir é a transformação do surrado e perigoso estilo sertanejo em música pop moderna (Prá Sonhar). Tudo isso não poderia ser de outro jeito na vida de Jeneci: Roberto Carlos é sua via preferencial. Das canções do maior ídolo do Brasil chegam as suas idéias e influências. Além disso, assim como Roberto e Odair José (outro romântico assumido e também sua fonte de inspiração), ele não tem medo de arranjos populares e de refrões pegajosos no melhor sentido.
Marcelo Jeneci tem voz frágil mas identidade precisa. Um tímido típico sem solução. Junto com ele, nesse disco de primeira viagem, uma menina de timbre delicioso chamada Laura Lavieri divide os vocais e tem a doçura necessária para fazer dessas canções os hits desse verão, que já está chegando e tomando conta das nossas cabeças, provocando desejos maiores, beijos intermináveis e outras alegrias. Sem Marcelo Jeneci e sua poesia musical, nada disso irá acontecer. Então ......
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Genipapo Absoluto
|
|
|
|
|
|

Ontem uma grande amiga carioca passou pela cidade e me intimou: vamos ao show de Maria Gadu e Caetano Veloso. Eu sei que a ordem dos fatores está alterada, que o nome de um maiores compositores desse país deveria estar na frente dessa jovem cantora mas o Brasil é o país do imediato e ontem o que eu vi na porta do Via Funchal foi uma multidão excitada para ver apenas essa menina cantar os sucessos que a TV Globo e as rádios fizeram emplacar em nossos ouvidos. Por isso minha insistência em não ir. Maria Gadu pode até ter seu valor, o futuro dirá sua importância e quando seu primeiro sucesso Shimbalaiê tomou conta de tudo e todos, eu cometi a imprudência (espero que no melhor sentido) de fazer um remix que foi campeão de downloads e até hoje enche as pistas de dança por onde passo. Mas decididamente ela não é uma cantora aqui de casa. Já Caetano Veloso é o compositor dos meus sentimentos desde menino, o pai e a mãe do meu Ipod.
E lá dentro não havia espaço para nada mais: espremidos em cadeiras praticamente empilhadas umas em cima das outras, a turba enfurecida esperava a hora de abrirem-se as cortinas e surgir sua nova musa . E isso aconteceu. Na frente de uma gigantesca bola de luz, os dois adentraram o recinto para uma batalha musical que, é claro, foi vencida por Caetano. Eu sei que estou sendo radical, que na arte não existem vencedores ou perdedores mas ontem foi nítida a disputa. De um lado, uma platéia unânime em gritos e aplausos para Maria Gadu. De dentro para fora, Caetano Veloso confirmava para todos que é um gigante em forma de compositor e intérprete. A chave desse embate está na frase que Caetano comete no meio do show : “Aos 24 anos, idade de Maria Gadu, eu estava fazendo Alegria, Alegria. Nessa hora o placar mudou e aquela menina que estava dividindo o palco com ele, passou a fazer parte da platéia e ser mais uma a reverenciar o grande mestre.
No primeiro bloco do show, Caetano dá a benção em duo com seu clássico pop Beleza Pura para, em seguida, Maria Gadu enfileirar seus sucessos radiofônicos debaixo de gritos histéricos. Aqueles mesmos que já ouvimos quando Ana Carolina surgiu, quando Maria Rita apareceu, quando Ivete Sangalo sobe num trio elétrico. Uma excitação passageira nesse país de cantoras. Um público que desloca sua emoção sempre para a promessa do momento e depois esquece quando surge outra novidade no mercado. Gadu no palco parece segura e pouco surpresa com tudo aquilo, visto que, nesse pouco mais de um ano, teve uma ascendência meteórica e já encheu as gigantescas casas de espetáculos uma centena de vezes nesse período. E tudo vai bem, tudo vai mal até Caetano voltar ao palco. A diferença das canções apresentadas pelos dois denota a carência de maturidade e necessidade das composições de Gadu perante o eterno da obra de Caetano. Assim como sua parceira de cena, ele apenas apresenta músicas para cantar alto e letras manjadas mas a diferença está na genialidade da obra, porque Caetano Veloso não é matéria de escola (o que deveria ) mas essa lição todos sabemos de cor. De Noite na Cama, Odeio Você e até as surradas Leãozinho e Odara, me fizeram várias vezes levantar da cadeira e aplaudir de pé, compartilhando a histeria que agora mudava de posição e estava direcionada somente para ele.
Não tem jeito. Um dia esse país fez música para o infinito. Canções para ficarem na história de nossas vidas. Hoje a insistência em compor letras efêmeras e refrões pegajosos, destruíram o sonho de um país musical gigante. Mas vamos em frente. Eu prefiro ficar prá trás.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Baticum de Amor
|
|
|
|
|
|

Carlinhos Brown acaba de lançar dois discos. Eu só ouço um. Diminuto já nasce disco de cabeceira aqui em casa. O preferido do meu Ipod. O despudor romântico desse álbum me conquistou.
O homem dos mil tambores, o rei da levada baiana, o cantor dos turbantes e abadás já vem falando de amor desde sempre em suas canções apenas ouvidos desatentos não confirmaram essa tendência no trabalho de Brown. Marisa Monte foi a primeira a sinalizar essa intenção romântica quando começou a apresentar músicas desse baiano totalmente fora do contexto que o trouxeram para o mercado. Agora ele joga para o mundo dois discos opostos que se atraem: Adobró e Diminuto. O primeiro é a confirmação do absoluto poder de Brown para levantar as massas, de criar letras absurdas e fazer todo o povo do Brasil cantar junto com ele. Um hitmaker de mão cheia que eu adoro. Além disso, Carlinhos gosta de música eletrônica e sabe fazer bom uso dela, quando mistura os sons da Bahia com batidão de boate. Portanto Adobró é o obvio ululante do bem: música para dançar de primeira qualidade. Já em Diminuto ele faz o que poucos conhecem em sua própria voz, em seus próprios discos: canções para embalar corações apaixonados. E como sempre, bem longe de preconceito de estilos, Carlinhos Brown experimenta todas as possibilidades. Coloca o surrado pagode romântico para conviver com o clássico bolero. Mistura o samba de raiz com o suingue do reggae. Além disso, traz para perto em participações especiais, uma turma que vale quanto pesa: Chico Buarque (Mãos Denhas) Arnaldo Antunes (Vi, Voou), Paralamas do Sucesso (Verdade, Uma Ilusão) e os produtores especialíssimos Beto Villares, Liminha e Alê Siqueira. E se dá bem em todas. E seduz todo mundo.
Logo no início de todo o ano, os trios elétricos baianos e as escolas de samba cariocas enchem as rádios de hits efêmeros e irresistíveis. Dentro desse mercado Carlinhos Brown é insuperável colocando todo mundo prá dançar na avenida, nos terreiros e nos bares da vida. Mas nesse janeiro e fevereiro de 2011 tem mais: você também vai poder namorar ao som de Diminuto, dedicar esse disco pro seu amor, porque o lado romântico de Brown está com tudo nesse verão. Eu já sei namorar. E você ?
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Coração Paulista
|
|
|
|
|
|

E de repente o meu amor me disse: vamos comemorar o nosso primeiro mês de namoro no restaurante do Terraço Itália ? E foi aí que a minha ficha caiu. Eu nunca tinha visitado esse cartão postal da cidade de São Paulo. E foi indescritivel. Debaixo de um céu estrelado e de frente para um mundo de prédios iluminados, nós celebramos o nosso encontro.
São Paulo é minha cidade natal. Não porque eu nasci nela, mas pela decisão de viver aqui mesmo antes de trazer minha bagagem definitiva. Minha certidão de nascimento só não foi outorgada num cartório da Praça da Sé porque a cegonha se enganou. Desde a adolescência que eu juntava meus trocados, pegava um ónibus e passava meus finais de semana na paulicéia desvairada. Eu me sentia moderno, cosmopolita, e voltava para o Rio de Janeiro contando minhas vantagens: passei pelo Madame Satã, comi no restaurante do Masp, comprei discos na Baratos Afins. E apesar de estar usando somente verbos no passado, minha paixão por São Paulo é sempre atual. A cidade se renova em propostas culturais, lugares inusitados, restaurantes deliciosos e livrarias sedutoras. E tem os meninos e as meninas da cidade. A juventude paulistana frequenta a noite como quem sabe, que durante o dia, as horas são exclusivas para o trabalho e estudo. E não tem barzinho vazio. E as discotecas explodem. E as ruas entopem de carros como se não houvesse amanhã. E eu faço parte de tudo isso e adoro.
Todas essas minhas certezas e lembranças foram iluminadas ontem quando o relógio bateu meia–noite e eu estava no quadragésimo primeiro andar do prédio mais emblemático da cidade, o Edifício Itália. Dali eu avistei minha avenida preferida chamada Paulista, todas as Marginais e suas luzes, o imenso relógio digital do Conjunto Nacional e os ilustres moradores do Copan em seus apartamentos. Lá dentro, o restaurante cercado de vidro por todos os lados, tem o charme de um bistrô francês: garçons educados e atentos, comida sofisticada na dose certa e pessoas interessantes em volta. Um pianista tocando lindas canções levou minha mente para outros tempos dessa cidade quando, nesse mesmo restaurante, no reveillon de 1967, Chico Buarque e MPB-4 fizeram o show da virada para o público ali presente. Que tempo bom que não volta nunca mais.
E foi assim que peguei meu amor pela mão e fomos para a varanda contemplar, em silêncio, a vida dessa grande metrópole passar lá embaixo. Eu adorei e quero voltar. Eu amo São Paulo e aqui quero ficar. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Canto Bandido
|
|
|
|
|
|

Esse não é o primeiro texto sobre Cida Moreira aqui nesse site. E nem será o ultimo. Essa cantora atriz que tomou meus ouvidos no comeco dos anos 90 no meu pequeno apartamento em Copacabana, continua insuperável em sua proposta de ser pessoal e intransferível na música que faz.
Faz pouco tempo que Cida se transformou em amiga e confidente e foi com surpresa que ouviu meus relatos de que ja a seguia em silêncio por vários bares e palcos de teatro por onde se apresentou. Eu sou assim. Evito intimidades com quem me emociona. Me recolho ao lugar de admirador oculto, porque o lado pessoal de um artista às vezes é um risco que eu não quero correr. Mas Cida Moreira não teve jeito e me instalei feito um posseiro dentro do seu coração. E foi assim que ontem entrei num delicioso lugar escondido e charmoso aqui em São Paulo com cara de pub argentino chamado Casa de Francisca, e vi essa mulher carregar todos ali presentes para as melhores emoções que a música pode causar em ouvidos mais atentos. Sentado ao pé do seu piano, porque lugar para sentar já não havia de tão lotado de seus seguidores, eu fiquei silencioso ouvindo um repertório que misturou Tom Waits e Chico Buarque com sabedoria, delicadeza e atrocidade. Sim, porque Cida Moreira interpreta as cancões que escolhe para cantar com a fúria dos definitivos. Entre as músicas, sua palavra forte, seus pensamentos sobre o mundo de ontem, hoje e sempre tinha cara de livro sábio, e eu, seu mais aplicado aluno sempre atento e forte.
E hoje é domingo. Depois de tanta informação e emoção é hora de descansar. Por isso Cida Moreira no meu Ipod para confirmar o que vi e ouvi nesse sábado. Ou serão falsas as cancões ? |
|
|
|
|
|
|
|
|
Direto no Coração
|
|
|
|
|
|

Ontem eu fui ao cinema e não vi filme algum. Só chorei. Só ri. Só me emocionei. O documentário Rio Sonata sobre a cantora Nana Caymmi é a confirmação de sua importância nas minhas memórias afetivas. No inventário da música popular brasileira.
Foi ainda menino, no ano de 1980, que atravessei a rua onde eu morava no bairro de Copacabana e entrei num teatro para ver Nana Caymmi cantar. E nunca mais sua voz saiu dos meus ouvidos. Na porta comprei seu álbum Mudança dos Ventos e o forte impacto nunca mais se desfez. Todas essas lembranças foram iluminadas ontem durante o filme dirigido com sensibilidade pelo francês Georges Gachot. Durante a projeção Nana apresenta o império de suas verdades aliado à sua genialidade musical. Logo numa das primeiras canções apresentadas, a antológica Medo de Amar de Vinicius de Moraes, a platéia foi tomada por uma emoção absurda e minhas lágrimas começaram a descer. Mesmo quando, em alguns momentos, Nana parece não estar em seus melhores dias ao ensaiar displicentemente uma canção em estúdio, sua emoção invade a tela. Não tem jeito: mesmo rejeitando, muitas vezes, esse posto de diva, Nana Caymmi é a senhora soberana da canção brasileira.
E ela pode tudo: mistura a pop romântica Na Rua, Na Chuva , Na Fazenda com Dorival Caymmi e tudo faz sentido através do fio condutor que é a sua emoção de intérprete. Nana passeia pelas ruas do Rio de janeiro, sua terra natal, e seus olhos ao contemplar uma cidade longe de suas lembranças de menina , dizem tudo. Sentimentos em carne viva que se misturam ao olhar estrangeiro do diretor sobre as belezas naturais da eterna cidade maravilhosa. O encontro no camarim com Bethânia e Miúcha é de uma espontaneidade essencial para se entender a admiração mútua entre essas três mulheres. Copos de uísque nas mãos, risadas e muita música, fazem dessa cena o melhor momento do filme. Junto com os momentos captados no tempo presente, o filme também mostra imagens poderosas de arquivo como Nana defendendo a canção Bom Dia com o seu então marido Gilberto Gil no Festival da Canção e o encontro emocionado com Tom Jobim no palco ao cantar Sem Você e Só Louco. Jogando carta informalmente com algumas amigas em casa, ela própria confessa o que todos ali naquela sala escura gostariam de escutar : “eu adoro me ouvir cantar”, e eu juro ter ouvido todos ao meu redor gritarem: “Eu também ! Eu também !
E mais eu não conto. Uma noite com Nana Caymmi vale mais que mil filmes. Por isso, ontem eu não fui ao cinema.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Um Confeito Com Sabor Concentrado
|
|
|
|
|
|

Tem tanta gente boa nesse fértil chão musical paulista de 2010, que eu tenho algumas paixões que estão merecendo um texto aqui e que eu acabo adiando e esqueço de escrever essas mal traçadas linhas. É o caso de Tulipa Ruiz. Mas ontem quando recebi pelo twitter um link de sua participação no programa Som Brasil em homenagem ao Marcos Valle, eu não pensei duas vezes e aqui estou sentado de frente para o meu computador para falar que Tulipa é uma graça de cantora, uma inteligência musical que merece o melhor lugar nos ipods dos brasileiros. O histrionismo de Maria Alcina misturado à sutileza de Ná Ozzetti. Um suingue brasileiro numa proposta mundial. A herança musical brasileira dos anos 70 e 80 e o som do futuro irmanados em total harmonia dentro de sua juventude e vitalidade.
Minha primeira vez com Tulipa foi dentro do seu My Space, onde alguns rascunhos competentes começaram a aparecer e me chamaram a atenção. Depois eu encontrava com ela sempre que ia até o Studio SP. E Tulipa nunca estava só: sempre rodeada de amigos e músicos, ela é amor da cabeça aos pés, uma carinha de gente feliz que só podia resultar nesse disco ensolarado chamado Efêmera que desde que foi lançado não saiu mais da minha vitrolinha. E toda vez que passo numa loja não resisto: compro sempre um para dar para algum amigo desavisado que ainda não conhece o som de Tulipa. Deve ser por isso que sua primeira tiragem de discos esgotou rápido. A tal corrente prá frente de admiradores e amigos que levam sua música pro mundo.
Mas o que é que Tulipa tem ? Uma particularidade na composição, um forte sotaque paulista sedutor que apaga nossos preconceitos encardidos de que só o fraseado carioca cabe na música brasileira, é dona de uma das capas mais charmosas da nova MPB e tem um som livre exportação. Amigos gringos que recebem seu disco enviados por mim, ficam logo impressionados e querem saber tudo, e eu não escondo nada: mando links de YouTube e conto novidades tais como o show de lançamento de seu disco no Auditório Ibirapuera em que ela disse a que veio, momento antológico que o tempo vai confirmar sua importância. Até ônibus fretado vindo de sua terra natal teve na porta. Uma mistura perfeita de festa íntima com celebração para todos.
Então estamos conversados. Tulipa Ruiz é um “dream come true”. Uma promessa nada efêmera. Uma nova cantora. Uma diferença essencial. Corre lá.
Delícias de Tulipa:
1) Só Sei Dançar Com Você
2) Às Vezes
3) Aqui
4) Brocal Dourado
5) Black is Beautiful
6) Com Mais de 30
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Tarde Demais Para Esquecer
|
|
|
|
|
|

Ontem numa sala de espelhos encontrei uma cantora de mil faces. Seu nome é Silvia Maria. Olhei para o palco e vi uma grande artista nascer. Mas como, se essa cantora já está no mercado desde os anos 60 ? Coisas do Brasil.
Artista injustiçado é o que não falta no mundo. Pessoas que nasceram predestinadas ao palco e que o destino impediu que isso acontecesse. E os motivos podem ser muitos: casamentos possessivos, empresários fajutos que prometem tudo e nada cumprem ou a desilusão com a selva das artes, levando essas possíveis grandes estrelas de volta para os seus lares. Silvia Maria é uma cantora que o Brasil não viu acontecer por algum desses motivos.
A primeira vez que ouvi seu canto, ele tomou meus ouvidos e coração. Uma atitude política e uma voz, que de tão feroz, parecia que nunca iria alcançar aquela nota que em seguida explodia em emoção. Numa manhã do extinto programa TV Mulher em 1980, Silvia Maria invadiu a tela da minha televisão de criança e nunca mais me deixou em paz. Naquele momento ela lançava (ainda) seu segundo disco de forma independente chamado Coragem (outro nome não poderia ter). E como se faz para comprar um disco feito fora do esquema de uma grande gravadora naquela época ? Tive que cumprir uma peregrinação por todas as lojas do Rio de Janeiro, subir e descer de ônibus até encontrá-lo. E foi um susto. Dos melhores. O tal LP Coragem trazia um repertório bem longe do usual naquele momento da nossa música já tomado por teclados eletrônicos e músicas bregas. Silvia misturava Baden Powell com Claudio Nucci e Milton Nascimento com o poeta Manuel Bandeira. Seu canto agressivo saltava do vinil e tomava quase forma física naquele pequeno apartamento em Copacabana onde eu morava com meus pais.
Depois Silvia Maria sumiu da minha vitrola. Quando fui escrever meu livro sobre os discos que formaram o meu gosto pela música brasileira, corri para a internet e nada havia ali: um silêncio absoluto sobre sua carreira. Escrevi um texto às cegas e continuei sem saber seu paradeiro. Até ontem à noite quando peguei um táxi fui até o Memorial da América Latina e entrei na tal sala de espelhos e vi Silvia Maria arrebatar uma pequena mas totalmente hipnotizada platéia. Aquela senhora bem comportada que entrou no palco virou uma mulher encarnada por mil espíritos musicais que a tomaram a cada interpretação. Ali naquele pequeno palco, Silvia Maria chorou, riu e se emocionou levando todos nós a explodir em aplausos frenéticos a cada final de canção. Uma cantora do tempo da indignação, do tempo em que fazer música no Brasil era coisa séria e não era prá qualquer um e claro, que compor uma canção era coisa sagrada, e a mídia corria atrás de coisa boa. Uma bela história que esse país começou a contar e a força da grana acabou por destruir. Mas isso não fica assim. Hoje à tarde eu vou encontrar Silvia Maria e, como dois cavaleiros dispostos a enfrentar terríveis moinhos, vamos juntar as forças de dois apaixonados e vamos produzir um disco. Para você conhecer Silvia Maria. Para eu ter certeza que música no Brasil é coisa séria. Ainda.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Devassa Lasciva Diluída em Esplendor
|
|
|
|
|
|

E se o romantismo de Dolores Duran marcasse um encontro com a sensualidade de Jane Birkin ? E se a irreverência social de Pagu desse um beijo na malemolência de Carmen Miranda ? Tudo isso eu juro que vi acontecer ontem no SESC Pompéia no show de Nina Becker, a tal menina do Rio que tomou meu coração e meus ouvidos esse mês com os fundamentais álbuns Azul e Vermelho.
Eu gosto de correr riscos. Quanto mais me apaixono por um disco mais o medo me assalta quando o show resultante dele vai acontecer. E agora ? Toda a magia daquelas músicas que povoam o meu Ipod chegarão ao palco com a mesma maravilha e eficiência ? Será que aquela cantora vai complementar em cena as riquezas que aconteceram no momento mágico da gravação ? São os eternos doces mistérios da vida.
Mas ontem sentado na platéia do show de Nina Becker, somente os bons presságios se confirmaram. Nina deitou e rolou literalmente. A bordo de canções de sua autoria e achados do passado com Estrada do Sol de Jobim e Dolores e Vida de uma extinta banda dos anos oitenta chamada Obina Schock , ela confirmou sua chegada firme ao mercado. E no seu repertório cabe tudo: a melancolia contemporânea de Nuno Ramos e Rômulo Froés, o samba atômico e brejeiro de Jorge Mautner, a poesia musical certeira de Moreno Veloso e até uma chanson francesa de Serge Gainsbourg. Sempre cuidadosa com sua imagem, o seu figurino também era delicioso e funcional: um terninho preto e charmosas sandálias de dedo que ajudavam a confirmar o tom tropical romântico do repertório apresentado.
E depois de um certo tempo, como ela mesmo disse, as pequenas doses de vinho começaram a fazer efeito e a alegria tomou conta de seu ser e transbordou para a platéia. Envolta em plumas turquesas, ela atravessou o palco e ganhou a platéia levando todos ao delírio quando, com o auxílio luxuoso de uma espectadora, subiu nas cadeiras e pôs todo mundo prá dançar. Dedicou música para o seu amor, xingou gente canalha que lhe roubou, acenou para o iluminador e mandou beijos para os amigos. Tudo isso sem perder de vista as intenções das canções do roteiro. Sua experiência como integrante da carnavalesca Orquestra Imperial, deixou sua performance no palco cheia de vitalidade sem perder o divino conteúdo. Uma beleza de se ver.
No bis depois de tantas jóias apresentadas, Nina ainda revelou uma bela música inédita e saiu do palco flutuando de felicidade. E nós fomos para a casa com vontade de quero mais. Vontade essa que eu vou matar ainda hoje quando Nina sobe novamente no palco do Sesc Pompéia prá ser feliz e fazer gente feliz. E que tudo mais vá pro inferno. Te espero lá.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Liberdade Igualdade Fraternidade
|
|
|
|
|
|

Pós aniversário. Dia das crianças. Frio em São Paulo. Feriado. É muita informação para um pobre mortal como eu. E o pior: a possibilidade de um novo romance batendo em minha porta. Ou isso seria o melhor ? Foi assim nesse perturbado liquidificador de emoções que peguei minha bolsa e fui para o Sesc Pinheiros ver a peça Música Para Cortar os Pulsos. E melhorei. E piorei. E me emocionei. E aplaudi de pé.
Rafael Gomes o diretor e autor do texto é um pequeno grande homem, e assim como eu, um apaixonado pelas artes e capaz de todos os sacrifícios por ela. O que a agenda não nos permite ver, nos enche de tristeza e as coisas que amamos voltamos várias vezes para rever e passamos meses comentando. E o melhor de tudo é que Rafael consegue fazer desse amontoado de informações e emoções culturais, um farto material genial para a sua própria arte, sendo ele um delicado diretor de vídeos, filmes e peças de teatro. Mas afinal do se que se trata esse espetáculo que eu estou aqui intimando você a ver ?
Fala de amor. Agora tenho certeza que te convenci. Quem não quer amor ? Quem consegue viver sem amor ? O que é o amor ? Onde vai dar ? Por que nos deixa assim ? A narrativa é uma colagem de discursos amorosos entremeados por letras de canções que vão de Caetano Veloso a Zezé Di Camargo. Emocionadas confissões de três adolescentes que servem para todas as idades porque quando a gente ama vira bobo da corte, vira frágil, vira criança. Além da dramaturgia segura de Rafael , e das interpretações precisas de Kauê Telloli, Mayara Constantino e Victor Mendes o espetáculo tem uma cenografia de arrepiar e uma trilha sonora que deve estar fazendo falta no seu Ipod.
Rafael Gomes tira proveito de tudo em cena: explora as paredes brancas do fundo do teatro, transforma três microfones em holofotes e os tablados de madeira viram objetos imaginários de cena. Além disso, ele extrai dos atores toda a emoção que transborda para nós na platéia. Várias vezes eles foram aplaudidos em cena aberta e na minha fileira tinha gente de todas as idades que reagiam com força ao texto e a movimentação.
Então é isso. Escrevo essas palavras ainda no calor do que acabei de assistir. Porque amor não se explica, amor é uma manifestação quente de emoções. Por isso esse texto. Por isso a gente se encontra lá na porta do teatro essa semana quando, mais uma vez, eu estarei junto com o Rafael, os atores e você fazendo a mesma pergunta: mas afinal o que é o amor ?
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Uma Menina Me Ensinou Quase Tudo Que Eu Sei
|
|
|
|
|
|

E Vanessa da Mata voltou. Cedo demais ? Talvez . Na hora certa ? Com certeza. Sua poesia infalível e potente está de volta em canções feitas sob medida para as rádios e os corações brasileiros.
Vanessa da Mata gosta de me castigar. Não entrega o seu ouro antes da hora prá mim. Me deixa em ânsias de amar até a hora em que, inevitavelmente, terá que mostrar o seu disco novo. Antes desse momento tão esperado, ela faz silêncio absoluto e manda códigos cifrados pelo celular que eu tenho que adivinhar para ganhar alguma pista de uma canção inédita. E com esse Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias não foi diferente. Só hoje, faltando 24 horas para o disco chegar às lojas, foi que ela me ligou e disse: vem, que eu sei que você tem vontade, que eu sei que você tem saudades de mim. E eu fui. E apesar desse repertório ainda soar desconhecido aos meus ouvidos aflitos, eu já tenho certeza do que vou dizer a seguir: o melhor disco de Vanessa da Mata chegou ao mercado.
Vanessa da Mata gosta de me ver chorar. De alegria, quando a música é de festa como Meu Aniversário e Vê Se Fica Bem. De saudade ou vontade de ter alguém do lado quando a música é de amor (As Palavras e Te Amo). Vanessa gosta do meu olhar de criança pedindo bis quando o disco acaba. Quer ouvir minhas palavras confirmando a admiração que tenho por sua música cheia de um carisma tão particular, de uma musicalidade intuitiva que me comove. E eu faço tudo que ela me pede.
Na capa aparecem imagens que decifram seu modo de ser tão cheio de vida e desejo pelas coisas do mundo: tem crianças pulando de alegria, tem belas luzes percorrendo o seu corpo, tem mato verde. Toda a sua personalidade digitalizada no encarte. Vanessa veio ao mundo predestinada a ser feliz e cantar e se você duvida, procure por esse seu quinto álbum que novamente traz o elementar e essencial Kassin na produção, os teclados lunáticos e mágicos de Donatinho, Gustavo Ruiz arrasando nos violões e guitarras, o instigado Catatau e o já classico parceiro Marcelo Jeneci
E tem os segredos de Vanessa escondidos em seus cadernos que ela enfim revela quando lança um novo trabalho. Cadernos cheios de rascunhos de canções que iremos passar o ano cantando nos bares, boates e praças do Brasil porque Vanessa da Mata é uma cantora popular, graças a Deus. Todo mundo gosta dela. Os meninos querem seu sexo, as meninas querem sua beleza , os gays querem seus vestidos. E ela é de todos nós. Vanessa quer o abraço do povo, fica feita moça do interior em dia de noivado quando eu lhe dou noticias populares sobre suas músicas. Quer saber quem falou, quem cantou, quem dançou. Uma criança feliz em apresentação de fim de ano na escola.
Coisa boa para um DJ é poder ter Vanessa da Mata na pista de dança. Ela celebra seus remixes, ela quer dançar. E não escolhe dia para isso. Às vezes me liga em plena segunda-feira perguntando onde tem festa e sempre me convence a tirar o pijama e andar pela cidade em busca de celebração como se fosse um sábado à noite. E não é que ela consegue ? Quando dou por mim estou com ela bailando até o sol raiar em dia de trabalho pesado.
Agora preciso descansar. Um dia com Vanessa da Mata cansa. É muita alegria. É muito delírio tropical. Mas antes vou ouvir Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias de novo. De novo. De novo.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Ando Jururu
|
|
|
|
|
|

Ando com saudades da Rita Lee. Sua última notícia musical relevante foi o álbum Balacobaco de 2003 onde ela recuperava o oxigênio perdido nos trabalhos anteriores e voltava ao posto de maior roqueira que esse país já conheceu. Ando triste com a Rita Lee. Suas mensagens no twitter estão me deprimido tanto que se tornou inevitável esse texto.
É claro que o que você vai ler daqui prá frente irá oscilar entre o amor e o desprezo. Rita Lee ocupa lugar de honra no altar das cantoras da minha vida. Fui uma criança descabelada presente em todos os ginásios por onde seus shows antológicos passaram. Estive atento esses anos todos à sua genialidade como compositora, sua simplicidade definitiva na hora de falar de amor e a sua ironia ácida, tão necessária, ao comentar as porcarias do Brasil. Mas agora diante de uma platéia que nem sempre é a sua, porque a internet não é a nossa casa e nem sempre somos lidos por nossos admiradores, os pontos de vista de Rita Lee estão pesando no meu computador. Eu não sigo o seu twitter mas não consigo escapar dos comentários maldosos expostos em todos os jornais, nas rodas de amigos, na rua, na chuva e na fazenda.
Esse mundo chapa branca que vivemos, cheios de elogios e puxa-saquismos, também me cansa. É preciso botar a boca no mundo. Mas argumentos preconceituosos contra bairros de periferia, frases gratuitas e agressivas contra times de futebol e seus torcedores, é pior que ficar mudo e vendido ao sistema. Ando preparando um texto sobre Elis Regina que me foi encomendado e de novo me impressionei com a força de seu discurso. Uma mulher sem meias-verdades que colocava seus pensamentos muitas vezes na frente de seu ofício de cantora mas nunca de forma gratuita e leviana, sempre forçando os brasileiros a caírem na real, a saberem o seu lugar e onde estavam pisando. A música de Rita Lee também sempre foi esse grito de alerta. Debochadas, leves e soltas, suas canções sempre trouxeram como subtexto convites para refletir, ficar atento e forte. Então por que escolher a rede de intrigas que é a internet para colocar seus pensamentos em voz alta ? Por que usar um lugar perfeito para ser mal interpretado e virar alvo de ameaças e outros dissabores, quando existe o palco que, segundo Maria Bethânia, é a maior tribuna que um artista pode ter para se manifestar ?
Mas afinal o que é Twitter e Facebook ? Dois lugares para você mandar beijos cibernéticos para os seus amores, indicar atividades culturais que você considera importantes, colocar uma foto engraçada ou genial, postar um vídeo que, todos que seguem você, vão adorar e comentar, enfim prazeres suaves da vida. Um diário moderno. Eu tenho as duas ferramentas e adoro. O Facebook da cantora Olivia Byington, por exemplo, é um dos meus preferidos: leve, indignado e romântico na dose certa, um exemplo a seguir.
Quando comecei a receber essas tristes notícias sobre as mensagens de Rita, fui em busca de seu twitter. E não entendi nada. Só tinha comentários desconexos, alguns agressivos, outros cheios de códigos cifrados com cara de piada interna. Saí correndo. E juro para você, meu leitor, que eu queria estar correndo sim, mas na direção oposta. Ir de encontro a um disco onde Rita abrisse seu baú de inéditas para em seguida ficar na fila de um show onde eu pudesse celebrar essas novidades bem longe dos eternos hits que não precisam mais serem repetidos. Uma mulher à frente do seu tempo arrombando a festa outra vez era tudo que eu queria. Mas até agora nada. E eu não canso de esperar.
Enfim, esse texto é só pra dizer e diz: Rita Lee, eu te amo. Por isso esse pote até aqui de mágoa.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Uma Noite no Museu
|
|
|
|
|
|

E foi assim. Quando dei por mim, estava no Metropolitan Museum tocando samba, funk e outras levadas. Esse ato de completa delinquência aconteceu essa semana durante o Brazil Foundation Gala Benefit que acontece todo o ano na cidade de Nova York. Mas como eu fui parar ali ?
A Big Apple é minha segunda cidade. Uma frase pretensiosa que tem um fundo de verdade. Todo o ano carrego minha mente e meu coração para a cidade que nunca dorme. Beijo os pés da Estátua da Liberdade e atravessso a ponte do Brooklin em busca dos eternos embalos de sábado à noite. E foi numa dessa visitas que eu conheci a Brazil Foundation, organização não-governamental de cooperação internacional comandada por uma extraordinária senhora chamada Leona Folman que resolveu abraçar as causas do nosso país e levantar fundos para as comunidades mais carentes. Levado pelas mãos da modelo Luciana Curtis em 2007, eu fui chamado para ser o DJ desse jantar beneficente que acontece todo o ano em Manhattan. Cheguei tímido e sem grandes esperanças de levar o povo para a pista e para a minha surpresa encontrei uma platéia quente e apaixonada pela música brasileira. E nunca mais deixei de participar dessa comemoração fraterna e fundamental.
Mas de repente tudo mudou. Nessa edição de 23 de setembro de 2010 o homenageado seria o visionário publicitário Nizan Guanaes que, com sua atitude corajosa e seu carisma incontestável, resolveu levar o evento para dentro do museu mais importante do mundo. E ninguém duvidou. E todos compareceram. De Gisele Bundchen a Vik Muniz. E as doações não pararam de acontecer. De Madonna a Oskar Metsavath. Depoimentos importantes como os de Dilma Rousseff e Paulo Coelho atestavam a importância da fundação. E Nizan no comando absoluto da festa. Baiano sem vergonha, no melhor sentido, ninguém resistiu ao seu charme e o valor total arrecadado na noite chegou ao céu com diamantes. Mas onde estou eu no meio disso tudo ?
Assim como quem não quer nada, peguei meu táxi e subi os degraus do Metropolitan com uma calma sertaneja. Mas quando atravessei o grande Salão Egípcio e vi onde estava montado o equipamento de som, minhas pernas tremeram. Em meio a esculturas valiosas e milhares de mesas onde se viam as pessoas mais poderosas do mundo, eu seria a atração musical da noite.
O que eu vou tocar ? O que as pessoas querem ouvir ? Essas duas perguntas me perseguem eternamente. E por causa delas minha mente entra em paranóia e minhas mãos sentem frio mesmo no maior calor do mundo. Pode ser uma festa íntima para dez pessoas ou dentro do Maracanã. Meu desespero só termina quando a primeira música toma conta do ambiente e uma luz se acende dentro da cabine de som. E na noite dessa quinta-feira não foi diferente. Apos Nizan anunciar o maior valor ja recebido ate hoje pela Brazil Foundation e se retirar do palco, ouvi uma voz que me disse: "Zé Pedro, agora é com você". 7,6,5,4,3,2,1.... e lá se foi o homem conquistar o mundo, como diria Gilberto Gil. Imediatamente as pessoas se dirigiram para o meio do salão e o negócio pegou fogo. Foi uma hora apenas e quem precisou de mais ? Nesse curto espaco de tempo misturei música prá pular brasileira com pop music. Lady Ga Ga encontrou Beth Carvalho e Black Eyed Peas virou Olodum. Um carnaval musical sem medo de ser feliz.
E foi assim. Todos foram embora de sapato na mão e eu no mais completo êxtase do dever cumprido. Lá fora a cidade corria seu curso natural e as luzes não paravam de piscar. No noite em que eu toquei Alcione no Metropolitan Museum.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Pão e Poesia
|
|
|
|
|
|

Esse final de semana eu cometi a deliciosa loucura de me apresentar em três capitais em menos de 48 horas. Curitiba, Fortaleza e São Paulo. Muitos aviões, infinitas esperas. E dentro da mochila o livro que sacudiu a minha emoção nesses dois dias de viagem: Uma História à Margem, a biografia do poeta e agitador cultural Chacal. Quem é ele ? Para a minha geração um deus beatnik que, durante os anos 80, percorria os bares do Rio de Janeiro declamando, em alto e bom som, sua poesia feroz. Para os mais atentos, Chacal é atemporal. Esteve presente nos lisérgicos anos 60, nos políticos anos 70 e nos conformados anos 90. Em todas essas décadas ele inventou moda, quebrou as barreiras do previsto e lutou com todas as armas contra o esquecimento da poética no Brasil.
Chacal tem a vitalidade de um animal em fúria. Passou por alguns acidentes quase fatais, e sobreviveu a todos. Sofreu todas as pressões emocionais de uma ditadura infame e conseguiu manter-se de pé. Uma história de vida de dar orgulho em qualquer brasileiro. Quando adolescente, descobriu os Rolling Stones, todas as drogas do mundo e a força das palavras. Com esses elementos criou sua eterna plataforma de exposição: levar para todos os palcos, todas as casas, todas as ruas, a sua poesia vital.
Chacal descreve em sua biografia um furacão de sentimentos: suas lutas diárias contra o esquecimento, suas reações diante das transformações mundiais, os altos e baixos de um poeta no país do carnaval. Um relato em carne, osso e coração. Pelas páginas do livro passamos perto do Tropicalismo, esbarramos no Asdrubal Trouxe o Trombone, entramos no Circo Voador, ouvimos a Blitz, e vamos até o CEP 20.000, que revolucionou a juventude carioca e levou a poesia para as massas. Além disso, Chacal conta histórias vivias em mundos tão distintos como Nova York, Guadalajara, o Parque Laje e o Teatro Munipal de São Paulo. No meio disso tudo dois filhos, muitas mulheres e sempre pouca grana. Rico de idéias, Chacal não sossega um minuto. Quando pensam que sua energia vai desmoronar, novos projetos entram em ebuliçāo e olha ele aí de novo.
Com tudo que descrevi até aqui, você pode pensar que o livro é uma grande viagem pelos caminhos de um outsider. Muito pelo contrário. Todas as experiências vividas até a última dose por Chacal se transformaram numa forte lucidez de pensamentos. Seu olhar inesperado sobre a vida, vale mais que qualquer palestra de cabala e outros minutos de sabedoria. Meu twitter essa semana está repleto de suas idéias. E assim será durante um bom tempo até eu terminar de ler (pela segunda vez) essa biografia que se mistura com a nossa vida de brasileiro.
Chacal é um retrato 3x4 do Brasil. Um eterno Dom Quixote. Um Rei da Vela. Um poeta. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Ôrra Meu !
|
|
|
|
|
|

E se o underground coubesse inteiro num só disco ? E se apenas duas vozes dessem conta de iluminar todo o submundo da música ? Essas duas perguntas me foram respondidas hoje quando recebi o álbum Hits do Underground de Miranda Kassin e André Frateschi. Esses dois roqueiros da noite paulistana resolveram se apropriar (no melhor sentido) do repertório de algumas bandas brasileiras importantes da cena indie e que ainda são pouco conhecidas da grande massa. E aí eu fiquei pensando. Por que tanta gente talentosa fica de fora do gráfico do mercado fonográfico, como diria a musa dos independentes Karina Buhr ? Não importa. O Baixo Augusta e os computadores em rede estão aí para se vingar desse descaso. Tem público para todos. Tem música boa chegando aos ouvidos do mundo sem pedir licença aos gigantes.
Miranda e André resolveram fazer justiça com suas próprias vozes e fizeram dessa compilação uma questão de honra, iluminando canções que já estão na boca da turma alternativa há bastante tempo. Mas afinal quem são eles ? André Frateschi é um delirante ator (você ainda não viu O Inverno da Luz Vermelha ?) e adora um cover, David Bowie e Tom Waits são sempre lembrados em seus shows com muita propriedade. Miranda Kassin também gosta de celebrar grandes clássicos e tem em Amy Winehouse a sua fonte de inspiração. Juntos nesse disco eles misturam vários mitos da juventude transviada atual: Vanguart, Curumin, Mombojó, Cérebro Eletrônico e Wander Wildner que aparecem em letras contagiantes encaixadas em melodias matreiras. Um pouco de rock, um pitada de folk, uma levada de blues e um grande produtor chamado Plinio Profeta e tá pronta a receita para você ouvir um suculento repertório levado ao forno por esses dois opostos que se atraem.
André e Miranda fazem parte do underground musical de São Paulo. Um celeiro de potencialidades que não deve caber somente num lugar chamado Studio SP, berço esplêndido dessa molecada genial. Essa turma precisa tomar o poder, ocupado hoje nas paradas de sucesso, por bandas da ralé e roqueiros de merda. Agora só falta você colaborar. Tira o pé do chão.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
À Palo Seco
|
|
|
|
|
|

Célia faz 40 anos de carreira. Uma grande cantora. Uma imensa trajetória. O que significa isso no país do efêmero ? No mundo dos eternos 15 minutos de fama ? Vamos tentar pensar juntos?
Célia é do tempo da delicadeza e da música de qualidade. Surgiu para nós brasileiros na década de 70 já fazendo o barulho das grandes potências. Chegou misturando uma ainda novata Joyce e um veterano Sinval Silva que havia composto Adeus Batucada, lá nos primórdios, para Carmen Miranda e que Célia soube se apropriar e tornar o primeiro grande sucesso de sua carreira.
Célia é de São Paulo. Vive em São Paulo. O que isso significa ? Muitas vezes esquecimento pelas outras capitais desse mundo grande chamado Brasil. Mas ela não tá nem aí. Nunca deixou de figurar nas listas das grandes divas, nada a impediu de fazer espetáculos antológicos pelos Becos e Igrejinhas da cidade. E toda essa força se sustenta por uma jóia que o tempo se encarrega de deixar cada vez melhor: sua voz. Uma mulher que carrega na garganta a eterna juventude. Além disso, Célia traz a inquietude das grandes artistas: quer sempre se renovar, está de olho nos novos compositores que não param de surgir, sabe ler o livro de ouro da MPB que nunca deixou de ser escrito por belas canções.
E foi assim que eu a conheci: um gigante adormecido à espera de grandes mudanças. E eu não resisti. Peguei um táxi e bati na sua porta com uma sacola cheia de canções que estavam desesperadas para serem gravadas por aquela voz. Ela aceitou minhas propostas e fez melhor: pegou as tais músicas sugeridas, escolheu os melhores músicos, e transformou tudo nesse disco que chega hoje às lojas e tem o nome óbvio de O Lado Oculto das Canções. Porque outro título não poderia ser. Quem colocaria, na mesma fervura, compositores populares como Peninha e Biafra misturados à grandes mestres como Baden Powell e Vinicius de Moraes ? Quem pensaria em canções inesperadas de Zeca Baleiro e Ângela Rô Rô ? Quem lembraria de uma canção quase inédita de Adriana Calcanhotto e confirmaria a qualidade de um samba feito por Benito Di Paula ? No encarte ela me agradece por algumas dessas idéias e pelo nome dado ao disco. Mas eu não lembro de nada. Apenas como um vidente, tive a certeza que tudo isso iria acontecer porque Célia vem há 40 anos confirmando esses meus pressentimentos, revelando a música popular brasileira, iluminando os cantinhos escuros cheio de canções importantes que o povo esquece no meio de tanta poeira formada de letras pobres e melodias desnecessárias que não param de chegar aos nossos ouvidos hoje em dia. Esse seu novo álbum é um oásis no meio do deserto da imbecilidade de algumas gravadoras, do descaso das rádios com a boa música, da burrice de certas cantoras. A única esperança que nos resta está nas suas mãos agora: vá até a loja mais próxima e compre O Lado Oculto das Canções. Célia não está nessa estrada há tanto tempo à toa. Ela fez por merecer e espera a nossa confirmação agora. Já comprou ?
|
|
|
|
|
|
|
|
|
A Grande Família
|
|
|
|
|
|

Eu pertenço a uma família chamada Casé. Patricia é minha irmã, Regina é uma referência e Virginia um gentil afeto. O pai dessas meninas se chama Geraldo Casé, uma espécie de fundador da televisão brasileira, logo, também poderia ser meu pai, visto que sou fruto de uma geração obsessiva por esse assunto. Estevão Ciavatta, marido de Regina, assim como eu, tem adoração e respeito por essa grande árvore cheia de frutos riquíssimos de criatividade e paixão. E decidiu ir mais além: procurou pelo pai de todos e encontrou Ademar Casé, um pioneiro do rádio no Brasil que, vindo de Pernambuco, tomou o país de assalto com seu talento empreendedor.
Um belo dia em sua casa, Estevão recebe um grande baú que ao ser aberto revela a biografia desse genial inventor de uma clássico chamado Programa Casé que tinha em seu elenco apenas Noel Rosa e Carmen Miranda para início de conversa. Depois veio Dorival Caymmi, Silvio Caldas e tantos outros nomes que deram a partida nesse orgulho musical que somos hoje e que desfrutamos pelo mundo. Ademar Casé era um visionário, um persistente lutador em busca de vitória, desde que, ainda muito jovem, embarcou num velho navio e aportou na cidade do Rio de Janeiro, onde começou a vender os tais aparelhos de rádio Philips de porta em porta. A partir desse primeiro sucesso de vendas, não parou mais: criou os primeiros jingles comerciais, foi um pioneiro em novelas, e chegou aos primórdios da televisão sendo respeitado por todos.
O filme de Estevão Ciavatta além de trazer à tona a vida desse imponente brasileiro, nos revela imagens de um país ainda cheio de vontade de ser feliz, de superar as barreiras e tornar-se uma terra orgulhosa de seus tesouros. Imagens que hoje em dia, em tempos de eleições, quando por uma ironia do destino parecemos sempre mais desanimados, nos fazem querer voltar no tempo para pelo menos resgatarmos uma palavra chamada esperança. São cenas dos carnavais de rua onde todos eram livres para brincar, pequenos closes em olhares ingênuos que o nosso povo ainda tinha ao andar pelas ruas do centro da cidade, um ponto zero que deveríamos resgatar pela menos em sonho.
Para quem, como eu, é um admirador do trabalho de Regina Casé, o filme também é uma forte pista para desvendarmos a alma dessa atriz tão brasileira e interessada pelas nossas raízes. Regina não se cansa de mudar de idéias, inventar novos programas, virar muitas mesas e sempre ser genial. Ao lado de seu companheiro de vida e obra, Estevão, ela apareceu ontem, na frente da grande tela branca antes do filme começar, para falar de sua emoção ao ver a história de seu avó chegar aos cinemas de todo o Brasil. Emoção que compartilhamos com ela ao final do filme, quando todos aplaudimos mais que uma estréia, mais que uma obra: o reconhecimento da força de um homem chamado Ademar Casé. Que poderia ser o meu avô. Mas não é. Ou é ?
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Um Nome de Mulher
|
|
|
|
|
|

Ontem eu fui ao teatro. Ao cinema. Assisti a um show. Ainda não sei ao certo, mas com certeza minha cabeça ainda não parou de pensar no espetáculo Inverno da Luz Vermelha, uma explosão de sentimentos de forte impacto visual em cartaz no Teatro Faap aqui em São Paulo. Mas não dá pra começar a escrever sem citar a força geradora desse projeto: Monique Gardenberg.
Monique provoca o Brasil com boas idéias desde sempre. Nasceu em Salvador passou pelo porto de Santos e desembarcou no Rio de Janeiro onde começou gerar idéias e acontecimentos nas faculdades por onde passou. Depois colaborou com Marina Lima e Djavan nos primeiros passos fundamentais de suas trajetórias. Produziu espetáculos de Gerald Thomas no momento em que suas peças começaram a dar o que falar. Em 1982, tira de nós o enraizado sentimento de terceiro mundo e cria, com sua irmã Silvia, o Free Jazz Festival que agita o mercado de artistas estrangeiros no país que até então recebia pouquíssimas visitas musicais vindas de fora. E essa história não acaba aqui.
Monique Gardenberg é cineasta. E das boas. Chegou ao mercado com o enigmático Jenipapo onde, também inovadora, montou um elenco que misturava atores estrangeiros e nacionais. Lançou Cleo Pires para o mundo no filme Benjamin e colocou o bando de teatro da Bahia no seu devido lugar ao fazer enorme sucesso com Ó, Pai, Ó um blockbuster imediato que depois virou minissérie de televisão.
Monique também participou como diretora de shows históricos com importâncias diferenciadas. Com Ana Carolina criou Estampado e arrastou multidões. Com Marina Lima inventou Primórdios que se tornou um clássico para quem viu, e com Caetano Veloso dirigiu o DVD antológico Prenda Minha. Mas chega de Wikipédia e vamos às emoções.
De todas as informações que eu enumerei acima para você compartilhar comigo esse olhar de paixão pelo trabalho de Monique, seu exercício como diretora de teatro é o que mais me toca. As cinco ou seis horas que passei dentro de uma sala como Os Sete Afluentes do Rio Ota ainda estão vivos na minha mente. Aliás 10 horas, porque no dia seguinte eu voltei ao teatro para confirmar, para sempre, o que eu havia aplaudido de pé na noite anterior. Monique sabe ser contemporânea e emocionante ao mesmo tempo. Não quer fazer arte sem tocar o coração do espectador. Escolhe cenário, atores e trilha sonora com o cuidado de uma apaixonada pelo que faz. E nós ali na platéia respondemos com sentimentos de êxtase: risos, lágrimas e aplausos frenéticos no final.
E foi isso que se deu na noite de ontem com Inverno da Luz Vermelha: um texto essencial, três atores diferentes entre si tanto no ato de interpretar quanto no carisma em cena, um cenário funcional e ao mesmo tempo impactante aos olhos da platéia e uma trilha sonora de arrasar os corações.
Monique Gardenberg sabe ser generosa e doce quando dirige. Compartilhei de seus suaves toques quando participei do DVD de Ana Carolina e fiz um número musical no primeiro show de Preta Gil no Canecão. Monique é quase silenciosa em seus comandos e com essa atitude elegante ela faz o que quer de nós e sempre somos obedientes ao seu sonho. Nesse Inverno da Luz Vermelha ela transforma Marjorie Estiano numa grande atriz, cheia de sutilezas e modernidade, afastando sua imagem televisiva dos espectadores, como eu, sentados ali ontem no teatro. André Frateschi , ator e cantor, está na medida certa entre o histrionismo e a depressão de seu personagem e Rafael Primot, que até então eu não conhecia, é um ator de não se esquecer em seu minimalismo pronto prá explodir a qualquer momento dentro da narrativa.
Não quero esquecer os parceiros de Monique nessa empreitada: Daniela Thomas com sua impressionante moldura de cena, Maneco Quinderé que ilumina com sofisticação as sutilezas do texto, o figurino moderno sem parecer pretensioso de Cássio Brasil e minha querida amiga Michele Matalon (que um dia me deu de presente conhecer Monique de perto) na co-direção desse espetáculo.
Acho que nunca escrevi um texto tão longo aqui. Mas para Monique Gardenberg que tem me ofertado tantas emoções com sua sensiblidade, acho até pouco. São tantos anos vivendo de sua arte e aplaudindo sua força que eu gostaria de continuar mais um pouco. Quem sabe amanhã ?
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Samba da Volta
|
|
|
|
|
|

A voz de Emilio Santiago é uma jóia negra brasileira. A partir dessa inevitável constatação, podemos começar nossa conversa. Dono de um repertório que nem sempre mereceu o brilho de seu canto, Emilio, em tempos de falência de mercado, retoma a qualidade em sua carreira discográfica.
Crooner das noites cariocas no início de sua carreira, ele passou pelo programa Flávio Cavalcanti e deixou sua marca de grande intérprete. Em seguida, caiu somente em boas mãos: João Donato, Durval Ferreira e Roberto Menescal ( ainda em ótima forma e com boas idéias). Gravou sucessos alheios inesperados e inéditas com muita categoria. Mas um dia, nos sempre fatídicos anos 80 (um verdadeiro cemitério para os medalhões da MPB que se viram perdidos com a chegada do rock e dos teclados eletrônicos) Emilio começou a ser o porta-voz de canções excessivamente óbvias e repletas de arranjos previsíveis. E foi aí, nesse momento, que seus discos estouraram de vender e a grande popularidade chegou . Estou falando das assustadoras Aquarelas Brasileiras que acentuaram de forma grosseira e sem imaginação o que Emilio já vinha fazendo, suavemente e com inteligência, nos seus discos anteriores durante toda a década de 70. Ao final dessa infindável e tosca enciclopédia da MPB, a carreira de Emilio ficou sem norte e sem força.
Mas ao contrário de tudo e de todos, sua música nunca saiu daqui de casa. Os meus ouvidos suportaram firmes esses anos de chumbo. E as boas novas finalmente voltaram. Depois de tentar (ou de tentarem por ele) todas as formas de retornar ao período de grandes vendagens e repercussão, Emilio trocou de barco e voltou a nadar contra a corrente. E se deu bem. Seu disco cantando João Donato de 2003, por exemplo, já nasceu clássico. Parecia que Emilio nunca havia se distanciado do piano suingado e essencial de Donato. E o repertório, misturando inéditas e conhecidas do arranjador e compositor, é um exemplo de disco de ouro na minha prateleira. Em 2007 saiu outro álbum fundamental De Um Jeito Diferente onde Emilio prosseguia com a inteligência e sofisticação de outrora, misturando Mart’nália e Carlos Lyra como só ele sabe fazer. E agora em 2010, dono de seu próprio selo, Emilio retorna ao tempo dos bailes com Só Danço Samba, uma homenagem explicita ao maestro Ed Lincoln, seu primeiro patrão musical.
E os móveis daqui de casa saíram do lugar. Não dá prá ficar parado. É contagiante e pega da primeira a ultima faixa. A voz de Emilio parece deslizar dentro dessas canções feitas sob medida para ele. Mesmo que algumas já tenham sido gravadas milhões de vezes e pelos mais diversos intérpretes, a gente nem nota. Emilio sabe ser dono o definitivo delas. Mesmo que seu publico ainda procure por Saigon em cervejarias , e que seus discos fundamentais da primeira fase insistam em ficar fora de catálogo, ainda assim não tem prá ninguém. Emilio está de volta à boa forma musical em dois tempos: homenageando o passado da música brasileira e celebrando o futuro de sua carreira, que com certeza agora, tem todas as possibilidades para um nobre e belo recomeço. Emílio Santiago é dez. Nota dez.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Hoje Eu Vou Mudar
|
|
|
|
|
|

Essa semana, Vanusa apareceu novamente de forma patética e constrangedora nas telas dos computadores . Uma pena para um brasileiro como eu, que viu essa cantora brilhar nos palcos e nos rádios do Brasil, principalmente nos anos 70, quando se firmou como grande intérprete das novidades daquele período como Belchior e Luiz Melodia (Paralelas e Congênito) e reinventou-se como compositora de sucessos (Mudanças). Pesquisadores da história da MPB e apaixonados pelo seu trabalho, ficaram de luto quando Vanusa, mais uma vez, foi filmada por uma câmera amadora e de forma trôpega, começou a errar a letra da canção que estava interpretando no palco.
Tudo é de chorar. Uma platéia atônita sabendo de cor e tentando acompanhar o que ela própria jamais deveria esquecer. Remédios ? Depressão ? Simples distração ? Não importa. Por favor Aretha e Rafael, seus filhos desatentos, tirem Vanusa de cena e a levem para os melhores cuidados que conseguirem.
Vanusa surgiu na Jovem Guarda e foi devorada pela geração da minha mãe que tinha todos os seus discos, que logo caíram nas minhas mãos de criança já ávida por música. A famosa franja loira caindo no rosto e as interpretações agressivas me empolgaram tanto, que uma vez, diante de uma loja de discos e no meio da rua, eu, com meus pequenos 5 anos, comecei a dançar e cantar Prá Nunca Mais Chorar na frente de todos e ganhei meu primeiro aplauso. Mas foi em 1973, com uma canção de sua autoria chamada Manhãs de Setembro que ela fez a passagem perfeita para a fase mais interessante de sua carreira. Casada com outro grande intérprete e compositor chamado Antonio Marcos (você conhece Como Vai Você ?) ela tomou o país de assalto e entrou para o altar das grandes cantoras do país. Corajosa em suas escolhas, no início dos anos 80 ela também passou a ser a porta-voz do feminismo compondo e cantando os problemas da mulher brasileira que ali começava a dar seus primeiros passos mais maduros apoiados por programas como TV Mulher que tinha Marta Suplicy entrando pela casa dos telespectadores, logo de manhã, falando de pênis e vagina sem censura.
Nos anos 90 a imagem de Vanusa foi desaparecendo da mente de seus ouvintes. E como por aqui não param de nascer novas cantoras, ela foi esquecida por seus veteranos admiradores ou ficou desconhecida pelas novas gerações. Até esse momento, quando sua imagem voltou a ser divulgada pelo youtube , ferramenta fundamental para o sucesso de um artista, mas que também sabe derrubar o mito quando ele vacila. Beyoncé leva um escorregão no palco, tá lá. Zeca Camargo bocejou no Fantástico, não tem perdão. E Vanusa errando a letra do Hino Nacional é prá explodir de rir. Ou chorar, que foi a reação que eu e alguns amigos, que sabemos de sua importância, tivemos ao ver aquela imagem deprimente.
O mundo mudou. É preciso estar atento e forte. Nos tempos de Dalva de Oliveira e Edith Piaf, as máquinas de filmar não estavam na mão do grande público. Sorte dessas grandes senhoras da canção, porque senão teríamos visto imagens piores porque além de grandes cantoras elas também tiveram uma vida cheia de escândalos e constrangimentos. Apenas não existia ali o poder visual que a mídia de hoje em dia tem.
Vanusa talvez não tenha percebido a mudança dos tempos e, descuidada, tenha ido para o palco como era normal nos tempos em que começou sua carreira: despreparada emocionalmente mas certa de seu talento. Maysa e Judy Garland viveram assim. Iam para o palco sabendo que se algo desse errado, uma letra esquecida ou um tombo ocasional, o público esqueceria logo por respeito a uma grande obra. Infelizmente o sonho acabou. Vacilou, dançou. Escreveu não leu o pau comeu. Antigos ditados que ainda estão valendo quando o tema é constrangimento. E Vanusa foi vítima desse acaso. E Vanusa é uma grande cantora brasileira.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
A Cura
|
|
|
|
|
|

Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite. E o milagre da música de Lulu Santos aconteceu novamente. Diante de uma platéia lotada e exaltada diante de seu ídolo, ele trouxe o calor do verão para uma fria noite paulista.
Os sucessos, com cara de domínio público, levantaram o barro do chão e colocaram todo mundo pra dançar. E aquela canção de amor que está em algum disco do Lulu que a gente nunca lembra direito, também esteve ali no palco. Mas nada soa requentado, é tudo novo de novo nesse Acústico II, "a missão", como Lulu mesmo brincou ontem durante o show. O cenário é lindo e os músicos estão afiadíssimos, com destaque para o baixista Jorge Ailton, que acaba de lançar um disco sensacional chamado O Ano 1 (procure por ele) e uma menina mulher da pele preta cheia de carisma nos vocais chamada Andrea Negreiros que causou furor na platéia com seu carisma.
As modificações que Lulu imprime aos seus clássicos nessa temporada, tornam-se necessárias e de forma alguma derrubam os arranjos originais. Pelo contrário: todas ficam ainda melhores, como é o caso de Tudo Azul transformada num baião arretado e o novo hit radiofônico Baby de Babylon que vira uma new bossa irresistível. Para iniciados em sua obra, Lulu Santos traz novos estímulos para as preferidas aqui de casa: o samba-rock Brumário do álbum PopSambalanço e Outras Levadas de 1989 que volta ainda mais contagiante e Vale de Lágrimas, balada certeira do disco Letra & Música de 2005 que vira um tango imponente.
Para a turma ligada nas populares, Lulu não deixa ninguém na mão: vai de Tudo Bem a Sereia. De Assim Caminha a Humanidade a Toda Forma de Amor. E o povo não resiste. Bem antes do fim, eles invadem a frente do palco para sentir de perto essa força que nunca seca chamada Lulu Santos. E eu vendo minha vida passar através dessas canções. Nem cantando nem alegre. Somente as emoções.
Ao final do show misturado à multidão e de frente para o rei, eu tive a sensação que Lulu falou meu nome no meio da canção Auto-Estima. Ou será que eu quis escutar ? No camarim dei aquele abraço, declarei meu amor e quando saí na porta do teatro, o frio já tinha deixado São Paulo. Pelo menos para quem, como eu, sentiu o calor da música de Lulu Santos no corpo, na alma e no coração nesse sábado à noite.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Aconteceu Perto Da Minha Casa
|
|
|
|
|
|

Hoje eu fui a pé até a casa do Arnaldo Antunes que é na mesma rua que a minha. Calma. Eu não sou amigo íntimo do Arnaldo nem costumo freqüentar sua residência, mas nessa segunda-feira eu recebi um convite irrecusável: passar a tarde vendo o show Iê Iê Iê ser gravado lá em DVD. E foi no quintal do meu vizinho que eu passei umas das tardes mais inesquecíveis da minha vida, que eu acredito ficará também, para sempre, na memória de todos que estiveram ali e que contarão para os seus filhos, daqui a alguns anos, que viveram essa sensacional experiência.
E dentro da casa do Arnaldo tinha de tudo: em cima do telhado, as câmeras, pelo chão, fios e microfones. E era de todos: de Marina Lima a Tunga. De Andre Midani a Wanderléa. Na cozinha a quituteira Neka Menna Barreto servia delicias orgânicas. Pelas paredes livros e quadros geniais para serem apreciados. Uma festa de arromba. E a ansiedade de começar logo nem existiu, porque eram tantos amigos para abraçar, tantas pessoas para rever, tanta alegria para celebrar, que de repente já estava na hora de correr pros fundos da casa e assistir ao show.
De pé, num chão coberto de pedrinhas, e debaixo de um céu aceso de luzinhas, vimos Arnaldo Antunes aparecer no palco, lá no alto, numa espécie de terraço. E assim ficamos durante quase duas horas: de cabeça erguida e olhos bem abertos desfrutando daquele repertório que misturou as canções do disco, algumas inéditas, Odair José, Adoniran Barbosa e um clássico do samba (Vou Festejar) em ritmo alucinado de rock"n"roll que levou a galera ao delírio. Não bastasse tudo isso, Erasmo Carlos e Jorge Ben deram uma passadinha para dar uma canja.
Para nós aqui embaixo, era sensacional ver Arnaldo com sua banda mais que perfeita e um mar de camisetas penduradas num varal como cenário. Eram tal e qual bandeiras agitadas, como diria Orestes Barbosa. E o tempo em São Paulo também ajudou: uma leve brisa de inverno não deixava nossos corpos tremerem de frio. Se bem que isso nunca iria acontecer, porque a cada acorde novo no palco, o povo na pista ia até o chão. Uma autêntica festa na laje.
Arnaldo está em sua melhor fase. Além disso, agregou novamente em torno de si, uma galera jovem que é viciada nas letras desse disco, foi o que eu pude comprovar durante o show, com todos cantando todas. Meninos e meninas com menos de vinte e mais de dez, se acabando na platéia. Talvez nem saibam que um dia existiu um grupo de rock chamado Titãs. Para eles Arnaldo nasceu ontem.
Agora volto a pé prá minha casa com a sensação do dever cumprido, longe da caretice e da depressão que costumam assombrar uma segunda-feira. Tudo porque eu tenho um vizinho chamado Arnaldo Antunes. Você não tem ?
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Meu Segredo E Minha Revelação
|
|
|
|
|
|
 
Você tem um disco de cabeceira ? Aquele que quando você vai dormir embala seus sonhos ? Aquele que quando você acorda entra imediatamente nos seus ouvidos enquanto você toma aquele banho para voltar à vida?Aquele que vai ser a trilha do seu novo romance ou vai fazer você chorar o dia inteiro lembrando daquele amor que não tem mais volta ? Pois os dois primeiros discos de Nina Becker são a razão do meu viver nesse momento. Um é Azul. O outro é Vermelho. Cores que simbolizam a liberdade e a fraternidade pela ótica do cineasta Krzysztof Kieslowski. As canções de Nina falam desses sentimentos e muitos outros. De atmosfera lisérgica, os dois álbuns me fizeram levitar e partir dessa prá uma muito melhor (e depois voltar, é claro).
Minha primeira vez com Nina Becker ? Foi no Rio de Janeiro numa noite no clube Ballroom com a Orquestra Imperial. O que eu senti ? Nada. Passou batido aquele show pelos meus ouvidos. Nada me impressionou. Minha excitação nasceu quando Nina apresentou sua coleção como estilista no Fashion Rio e ofertou, para poucos e bons, um maxi-single com as canções da trilha do desfile cantadas por ela. Aí a coisa virou vício. Fui atrás de informações suas e encontrei minha amiga Thalma de Freitas que me deu toda a ficha por ser sua parceira de corpo e voz dentro da Orquestra Imperial. Mas isso faz muito tempo. Nina não teve pressa. Suas escolhas e seu talento para a música tiveram um tempo ideal para maturar suas composições. Bons exemplos aparecem nas minhas prediletas desses dois álbuns: Medo (linda!), Ela Adora (definitiva!), Não Tema (essencial!), Tropical Poliéster (deliciosa!), Madrugada Branca (poderosa!) e Toc Toc (Rubinho Jacobina!).
Claro que beleza também conta nessas horas: Nina é uma deusa. Seus olhos, seu rosto, seu corpo, tudo que não me deixa em paz. Sem esquecer as lindas indumentárias que veste e os gestos suaves no palco.
Nina Becker veio para ficar. Uma frase batida que ainda causa efeito nessa hora em que, novamente, meu Ipod começa a tocar seus dois discos que também deveriam estar no seu player. Ou já estão ?
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Sou Uma Criança E Entendo Tudo
|
|
|
|
|
|

O Pato Fu nasceu na Terra do Nunca. Nunca fizeram música vagabunda. Nunca fizeram discos recheados de intenções levianas. Nunca se recusaram a ser geniais. O resultado explícito dessas minhas divagações chega agora ao mercado: Música de Brinquedo, um álbum criado por adultos que se recusam a crescer e destinado a crianças que já possuam a capacidade do saber querer. Fernanda Takai e John Ulhoa, discípulos de Peter Pan no melhor sentido, fizeram um disco que já nasce clássico. Instrumentos de brinquedo, filhos correndo pelo estúdio e registrando seus vocais cheios de alegria, e músicas que fazem parte do nosso inconsciente coletivo, aquelas que esquecemos na loucura dos dias, e que quando tocam, nos remetem aos melhores momentos das nossas vidas. Quer exemplos? A Primavera de Tim Maia, A Sonifera Ilha dos Titãs, A Ovelha Negra da Rita Lee. Só por essas citadas aqui, o projeto já valeria, mas tem muito mais que eu não conto porque você deveria fazer como eu, colocar o disco na vitrola (oops ! no cd player) e deixar o Pato Fu contar a história do começo ao fim. O projeto gráfico também é uma graça cheio de cores e figuras em alto-relevo e dentro do encarte as fotos dos instrumentos infantis que fizeram os arranjos. E
tem de tudo: flauta, xilofone, escaleta, tecladinho-calculadora e bichinhos de pelúcia. Uma sinfonia de peraltices e travessuras que nas mãos do Pato Fu viram alta tecnologia sem perder a magia dos tempos que não voltam mais.
O Brasil tem se preocupado com a herança musical de nossos pupilos: Adriana Calcanhotto leva seu Partimpim para multidões, a Palavra Cantada de Sandra Peres e Paulo Tatit faz música infantil moderna e Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra e Taciana Barros trouxeram ao mundo recentemente o mais belo projeto chamado Pequeno Cidadão, show e disco que emocionaram. A minha geração também teve seus grandes momentos com a Arca de Noé de Vinícius, Os Saltimbancos de Chico Buarque e o disco de ninar gente grande feito por Nara Leão em 1975. Mas apesar de termos estudado nessas grandes escolas, nem sempre nós, os alunos, demos os melhores exemplos para as gerações futuras. Chafurdamos em muita porcaria que envergonharam esses nossos professores. Mas o mundo gira, o tempo roda. Quem sabe agora Fernanda Takai e John Ulhoa não terão sorte maior e gerarão frutos melhores. Enquanto espero minha idade avançada chegar para poder sentar ao sol e ver outros netinhos brincarem de música, ouço esse bem-vindo Música de Brinquedo e deixo essas canções escolhidas pelo Pato Fu iluminarem minhas melhores lembranças. Corra pras lojas.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Eu Vi A Mulher Preparando Outra Pessoa
|
|
|
|
|
|

Ana Carolina está de férias. Nem tanto. A intérprete de outros autores está de volta mas a compositora que arrasta multidões ainda se encontra presente. Essa foi a sensação que o show Ensaio de Cores deixou aqui em São Paulo nesse final de semana (com sessão extra!).
Seu público continua o mesmo apaixonado e assustador de sempre,fotografando tudo e todos, trocando números de mesa para ficarem mais na frente de seu ídolo e gritando em desespero a cada movimento de Ana no palco. Um amigo meu,marinheiro de primeira viagem,confessou ter ficado até com medo na parte final do show quando mulheres em fúria pulam por cima das mesas e derrubam qualquer coisa que as impeça de chegar perto de sua musa no palco.
Ana Carolina, desde o show Nove, vem experimentando novas possibilidades positivas em seu trabalho: seu cabelo esta mais calmo, sua maquiagem menos carregada, e sua voz apesar de escolher sempre os tons mais agressivos também encontra uma certa paz. Nesse show ela mandou embora do palco sua enorme banda e ficou com três músicos, três mulheres, três companheiras talentosas:Délia Fischer (piano), Gretel Paganini (violoncelo) e Lan Lan (percussão). E surpreende. A primeira parte do show é de uma vitalidade e criatividade que há muito não se via em seu trabalho. Ana resgata canções de outros compositores que a traduzem no melhor sentido, parecendo para desavisados, que são canções de sua autoria. Rai das Cores, de Caetano Veloso, abre com propriedade o espetáculo numa explosão de imagens projetadas no fundo do palco. Em seguida aparece a primeira inédita: As Telas e Elas onde Ana justifica o assunto do show misturando nomes de grandes pintores com, o sempre recorrente em sua obra, discurso amoroso. Em seguida canta a melhor música do roteiro: Todas Elas Juntas Num Só Ser de Lenine e Carlos Rennó, um rosário de musas e seus adoradores. De Ana Julia do Los Hermanos à Bárbara de Chico Buarque. De Marina Morena de Caymmi à Iracema de Adoniran Barbosa. Canção de métrica gigante e genial que Ana se apropria de forma definitiva levantando a platéia em êxtase . Em seguida retoma Alguém Me Disse, bolero brega da era do rádio, que ela regravou em seu primeiro disco. Uma boa lembrança.
Quatro momentos ainda mais brilhantes valem o show: a força que Ana imprime ao surrado clássico Azul de Djavan tocando um baixo elétrico cheio de bossa roqueira, recriando a harmonia e trazendo novos ares fundamentais para a canção. A homenagem à sua conterrânea de Juiz de Fora, a compositora Sueli Costa, ao sentar numa roda cercada por suas parceiras de palco e cantar a bela Violão parceria com Paulo Cesar Pinheiro. O medley de fundamento tropicalista que mistura Feriado de Chico Cesar, O Amor é um Rock de Tom Zé e Entre Tapas e Beijos de Leandro e Leonardo, mostrando aos detratores de seu trabalho como compositora, que breguice e safadeza também são temas recorrentes na ala dos compositores ditos de elite, e que o Brasil recebe de ouvidos abertos todas essa manifestações. E pra encerrar esse primeiro bloco, outra inédita, dessa vez junto com Edu Krieger, o ótimo samba Pra Tomar Três que lembra a ginga contagiante de Linha de Passe de João Bosco e Aldir Blanc.
E depois ? Nada. Ou tudo para quem é seu fã incondicional. Seus sucessos passados em revista em forma de canção única ou combinados em pout-pourri temático unindo dois ou três hits. Letras maliciosas, temas de amor, força estranha e o seu carisma avassalador imperando sobre tudo isso. Mas aí já era tarde demais: o primeiro bloco já tinha tomado conta da minha cabeça e confirmado para mim (e espero que para mais alguns), que se Ana Carolina quiser dar um tempo como compositora e se desfazer de todos os aparatos de uma grande estrela, ainda assim é uma grande artista, tomada de um carisma absurdo e uma intérprete de outros compositores necessária à grande MPB. Que venham outros show de Ana Carolina assim.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
A Loucura É O Sol Que Não Deixa O Juízo Apodrecer
|
|
|
|
|
|

Nesse mundo de hoje, cheio de medo do ridículo e cada vez mais exposto a isso, Sílvia Machete é um bálsamo de pura essência. A verdadeira seguidora fiel dos preceitos do tropicalismo. Em seu liquidificador musical passa de tudo: romantismo, breguice, alto luxo musical e um visual impregnado de boas idéias. Foi na casa de um ex-amigo (sim, isso existe, ainda bem) que ouvi pela primeira vez Silvia e seus experimentos. Na capa vestida de melindrosa tropical, Silvia já avisava: “música safada para corações apaixonados”. E era um festival de surpresas do bem: Hervê Cordovil, Sérgio Sampaio, Guns and Roses, maxixe, samba e rock, uma loucura ! Depois, numa noite de pouquíssimos interessados mas com o visionário Nélson Motta na platéia e o diretor Roberto de Oliveira filmando tudo, eu vi Silvia Machete finalmente ao vivo num bar aqui em São Paulo. Ali no palco a coisa crescia: jogava um bambolê na cintura e acendia um cigarro que estava escondido no sutiã. Rodopiava num trapézio e ficava de cabeça prá baixo. Escolhia alguém na platéia para chupar o dedão do seu pé. Só faltou cantar Babalu em grego, como diziam as antigas bichas. Quando saiu do palco já era outra: uma menina tímida de fala mansa e rostinho angelical, quase não reconheci . Sua música vive desse contraste: a suavidade abraça a devassidão.
Depois, esse meu primeiro susto virou coletivo, o Brasil conheceu Silvia Machete e se divertiu com suas estripulias. E eu fiquei com medo. Aqui no país do carnaval tudo vira alegoria, tudo vira carimbo definitivo que não sai mais do passaporte do artista. E se Silvia ficasse conhecida como mico de circo e sua música permanecesse desconhecida? Um arrepio que só saiu da minha espinha hoje enquanto ouço seu novo álbum chamado (não por acaso) Extravaganza. Sua inquietude musical está de pé. Sua voz elegante e cool, um delicioso contraste com sua loucura em cena, está cada vez melhor. E o repertório continua na medida certa entre o passado, o presente e o futuro: Tem Itamar Assumpção, Jorge Mautner, Erasmo Carlos em parceria com ela própria, cocares , miçangas e tangas.
Silvia Machete continua fazendo o que quer e surpreendendo. Não tem a pressa das cantoras que querem a consagração imediata fazendo música vagabunda. Sabe que hoje em dia tem gosto pra tudo, tem público para todos e a assim turma de adoradores de Silvia Machete não pára de crescer. E você ?
|
|
|
|
|
|
|
|
|
A gente estancou de repente ou foi o mundo que cresceu ?
|
|
|
|
|
|

Eu vejo a vida melhor no passado. Essa é a sensação que eu tive ao assistir o filme Uma Noite em 67 ontem no cinema. Meu coração se encheu de orgulho e levantou minha auto-estima de brasileiro. A produção de documentários no Brasil anda fazendo justiça , escolhendo temas e personagens que foram determinantes na nossa vida cultural. Há pouco tempo minha vida mudou com Dzi Croquettes, outro filme fundamental, e agora esse tributo aos grandes festivais de música da TV Record nos anos sessenta.
Falando em filmes produzidos por aqui, nossa cinebiografia já passou por tudo: chanchadas, pornochanchadas, cinema novo, cinema de retomada e tantas outras tentativas de encontrarmos nossa própria linguagem na grande tela. Claro que nesse excesso de experiências tivemos erros e acertos, filmes inesquecíveis e películas de se jogar no lixo. O que sempre deixou boas lembranças foram as trilhas sonoras compostas por nossos melhores compositores. Não dá para esquecer O Que Será feita para o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos. A canção Pecado Original de Caetano Veloso quando toca no meu Ipod faz imediatamente surgir em 3D, na minha frente, a imagem de Sônia Braga em Dama do Lotação. Sérgio Ricardo deixou forte lembrança com A Noite do Espantalho. Alías, ele e seu violão arremessado à platéia com fúria, é o principal personagem de Uma Noite em 67. O público que estava ontem na sala de exibição comigo, parecia estar assistindo ao vivo aquele festival que mudou a história da nossa música. A cada cena que aparecia todo mundo fazia comentários em voz alta e quase aplaudia as imagens que mostravam Gilberto Gil cantando Domingo no Parque com um pânico de iniciante disfarçado, Roberto Carlos meio envergonhado defendendo um samba chamado Maria Carnaval e Cinzas e Edu Lobo tirando o primeiro lugar com a música Ponteio com um sorriso de orgulho nos lábios.
Os festivais da canção nos anos sessenta mudaram a nossa cara de brasileiro. Por essas músicas, nossas reações ufanistas e sentimentais se inflamaram: o povo vaiou, o povo aplaudiu, o povo se emocionou. O filme mostra tudo isso. Tem jurado confessando seus pecados como Nélson Motta e Sérgio Cabral. Tem compositor justificando seus atos violentos como Sérgio Ricardo. Tem Caetano e Gil explicando que daquele festival sairam as primeiras idéias tropicalistas que depois tomaram o mundo através do som e do comportamento desses dois baianos. Tem entrevistas nos bastidores mostrando esses ídolos, hoje em dia inacessíveis, dando mole prá qualquer microfone que passasse por eles. Enfim vá para o cinema assistir um retrato fiel da nossa música num tempo bem distante desse que agora vivemos, onde assistimos a um outro festival sem mercado fonográfico, onde todos querem ser compositores e poucos conseguem, onde todos querem ser cantores e quase nenhum entra prá história. Mas houve um dia, em 1967, que essa terra cumpriu o seu ideal.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Essa Tal Criatura
|
|
|
|
|
|

Ontem o Sesc Pinheiros, aqui em São Paulo, apresentou um emocionante tributo ao compositor Candeia que morreu em 1978 e deixou uma obra importante imortalizada, principalmente, pela sambista Clara Nunes. Vários artistas passaram pelo palco mas uma presença levantou a platéia e justifica esse meu texto: Leci Brandão. Que cantora. Que compositora. Que mulher fundamental.
Minha primeira vez com Leci foi no Festival Abertura da TV Globo em 1975, quando disputa de música em televisão já era assunto vencido. Mesmo assim o samba Antes Que Eu Volte A Ser Nada de sua autoria me impressionou e não saiu da minha vitrola naquele ano.
Como toda sambista que se preza (por uma ironia ou não), Leci Brandão veio de uma família humilde e teve vários empregos burocráticos até chegar ao palco do Programa Flávio Cavalcanti e ser classificada no quadro A Grande Chance já como compositora . Em 1972 ela passa a fazer parte da Ala dos Compositores da Mangueira, quando é descoberta por Sérgio Cabral que a leva para fazer um show na Boate Pujol com Roberto Ribeiro e Dona Ivone Lara, gravando nesse época seu primeiro compacto simples. E vai tudo muito bem, obrigado, até que sua alma de mulher negra, indignada e política vem à tona. Decidida, ela rescinde seu contrato com a gravadora Polygram por querer calar seus sambas feitos de letras de cunho social. Paga um preço por isso: é colocada no porão do silêncio e fica cinco longos anos sem gravar. Que sambas eram esses ? Um deles se chamava Zé do Caroço que dizia: “Zé põe a boca no mundo faz um discurso profundo porque quer o bem da favela”, outro samba era Ombro Amigo que tinha em sua poesia a questão dos homossexuais: “agora ainda não é hora de você poder assumir por isso tem que vir pra boate pra desabafar”. Mas Leci não se calou e seguiu em frente. Fazendo shows pelo mundo onde foi consagrada, e por aqui participando ativamente de comícios e outras atividades políticas, Leci ainda ficou conhecida pelos brasileiros como a comentarista dos desfiles das escolas de samba na avenida, dando depoimentos pertinentes e emocionados.
Confesso que nesses anos todos, eu perdi Leci Brandão de vista. Seu valor e sua música ficaram trancados no meu armário até essa manhã de segunda feira quando seus discos gritaram para entrar no meu Ipod depois desse show emocionante de domingo. Ontem no camarim, Leci se surpreendeu com meu discurso inflamado sobre seus primeiros discos que fizeram a minha cabeça quando eu era ainda uma criança. Hoje quem se surpreende sou eu, ouvindo todos eles de novo e concluindo que Leci Brandão fez uma obra atemporal e serve como grande escola para os supostos novos compositores de samba desse meu Brasil.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
O Tempo Presente de Edu Lobo e Vânia Bastos
|
|
|
|
|
|

Vânia Bastos pouco apareceu nas minhas estantes lotadas de discos. Cantora de essência tipicamente paulista e trajetória irregular, ele sempre me deixava confuso ao ouvir um novo trabalho seu. A culpa disso é sua parceria com Arrigo Barnabé, artista como ela, difícil de definir no melhor sentido: erudito e popular, maldito e comercial. Vânia é sua intérprete fundamental. De sua garganta saem aquelas notas quase impossíveis de alcançar, aquelas letras de cunho surrealistas. Meu disco favorito sempre foi o que ela gravou em parceria com Eduardo Gudin no ano de 1989 e que consta no meu livro como referência. Um trabalho recheado de sambas deliciosos e nostálgicos. Agora Vânia propõe o inusitado: grava a obra de Edu Lobo, um compositor raro e pouco procurado pelas intérpretes brasileiras. Por que acontece isso ? Edu não é para iniciantes nem levianos. Sua música requer extensão vocal e sofisticação. Ele próprio, na minha opinião, é o melhor intérprete de sua obra assim como Dorival Caymmi era o dono absoluto de suas canções de mar. Apesar disso, Vânia sai vitoriosa dessa sua nova empreitada musical. Acompanhada pelas mãos firmes do produtor Thiago Marques Luiz e dos arranjos camerísticos e solenes (no melhor sentido) do maestro Ronaldo Rayol, ela traz novas idéias e ar rarefeito para as imortais canções de Edu.
O disco já abre imponente com Casa Forte (registro bem longe da gravação inesquecível de Elis Regina e nem por isso menos importante ), e segue em frente revelando canções escondidas como Negro, Negro, Glória e Gingado Dobrado (essa com a participação especial do próprio Edu Lobo ). Vânia também confirma o valor absoluto de clássicos como Canção do Amanhecer e Upa Neguinho. É tudo tão surpreendente e novo que você não correrá o risco de comparações com velhas gravações, eu que me considero um grande conhecedor da obra de Edu, só tive belas surpresas e ouso dizer que muitas me pareceram inéditas. Um disco bem vindo e uma escola para os novos que querem saber como se faz uma música popular de causar orgulho em qualquer brasileiro.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Homens com H
|
|
|
|
|
|

Um dia o Brasil foi livre. E por uma estranha ironia, nos tempos mais difíceis que esse país já viveu: os anos de chumbo da ditadura. Num período barra pesada onde olhar para o lado esquerdo poderia levar um cidadão direto para o exílio, existiram 13 personagens que mudaram o mundo: os Dzi Croquettes. Dispostos a enfrentar tudo e todos , fizeram de sua arte uma tribuna livre de preconceitos. Usando a sexualidade e o glamour eles invadiram as cidades com alegria e genialidade. É o que o documentário realizado por Tatianna Issa e Raphael Alvarez nos ensina. Na saída do cinema meu corpo queria dançar, minha voz queria gritar, minhas idéias queriam ganhar o mundo. Foi assim que eles viveram. É assim que deveríamos viver.
Homossexuais ? Travestis ? Machos ? Fêmeas ? Tudo bem longe disso. Os Dzi Croquettes eram gente de carne, osso e coração. O palco era a trincheira da alegria onde explodia o amor. Os depoimentos de quem esteve por perto no momento em que o grupo tomou de assalto o Brasil, comprova isso. Todos choram ao lembrar. Todos sentem falta daquela sensação de liberdade que acontecia toda vez que eles entravam em cena e misturavam Elis Regina com James Brown. Purpurina com coturnos de exército. Tesão com Coragem.
Dispostos a tudo eles encararam o primeiro mundo de frente. Num primeiro momento ignorados pela crítica, em seguida consagrados pelas mãos de Liza Minnelli e Josephine Baker em Paris. E quando estavam prestes a tomar a Broadway de assalto, recuaram e voltaram para o Brasil. Por que ? I don’t want to stay here. I wanna to go back to Bahia. Liberdade não tem preço. Dinheiro é pouco para quem quer ser feliz. Ensinamentos fundamentais para essa geração vendida e sem graça que faz arte hoje no Brasil querendo dar certo a qualquer preço e deixando o talento e a criatividade para trás.
O bailarino, coreógrafo e cantor Lennie Dale era um caso a parte dentro do grupo. Americano, que por vontade própria escolheu o Brasil para ser o terreiro de suas experiências, foi um mito para quem viu. Betty Faria mal termina as frases ao falar dele durante o filme. Miéle diz que nunca viu artista mais completo. Elis Regina aprendeu com ele a girar os braços com fúria ao interpretar seu primeiro sucesso num festival e levar o público ao delírio. Polêmico, Lennie Dale não levava desaforo prá casa. Ao mesmo tempo era dono de um coração que guardava o mundo. Intenso em seus prazeres, teve seu tempo de vida reduzido com a chegada da Aids que pegou sua geração desprevenida .
Dzi Croquettes deveria ser matéria obrigatória nas escolas. Antes de pegar o diploma de caretice, todo o jovem deveria aprender a ser livre, leve e solto. Foi essa a faculdade que os Dzi Croquettes freqüentaram, viraram professores e passaram adiante. As Frenéticas são conseqüência de seus atos. Miguel Falabella bebeu daquela fonte. Ney Matogrosso aplaudiu e se misturou ao grupo. Agora só falta você. Pegue um avião, táxi ou bicicleta e corra para o cinema mais próximo para ver essa turma de perto. O sonho não acabou porque nem começou para quem não viveu nesse tempo em que 13 homens corajosos, inesperados , vitais e cheios de esperança chamados Dzi Croquettes invadiram a Terra. Mas isso faz muito tempo. Porque hoje em dia......
|
|
|
|
|
|
|
|
|
A Cantora do Amor Demais
|
|
|
|
|
|

Na parede da minha sala existe um altar. É ali, de frente para os grandes mestres da música brasileira, que todo dia faço minhas orações e agradeço por tudo que me ensinaram e me deram de emoção. E qualquer visitante de primeira viagem que passe por aqui precisa antes de mais nada adivinhar quem são esses mitos pregados na minha parede. Poucos adivinham todos. Muitos desconhecem todos. Mas uma cantora é unanimidade em esquecimento: Elizeth Cardoso. Gente jovem , turma da antiga, especialistas em MPB, cantoras e afins nunca lembram o nome de uma das maiores vozes que o Brasil já teve e que hoje estaria fazendo 90 anos. Por que isso acontece ?
Elizeth esteve presente a todos os grandes movimentos da nossa música sem nunca poder ser rotulada. O samba e bossa nova talvez tenham sido os seus dois estilos preferidos mas ela sempre foi mais que isso. Passou pela era do rádio, cantou as dores de cotovelo, foi a primeira a enfrentar os sofisticados acordes do violão de João Gilberto, chegou aos anos 70 cheia de novas ideias e assim prosseguiu até o fim de sua vida.
Sua voz não tinha limites. Inicialmente cheia de agudos potentes foi aos poucos encontrando os graves como residência definitiva. E Elizeth nunca deixou de cuidar de perto o seu instrumento: até o final de sua vida teve aulas de canto.
Outro fator importante era a sua elegância. Em todos os sentidos. Seus figurinos acentuavam a elegância de sua música. Estilistas como Denner e Clodovil disputavam a tapa quem vestiria sua nobreza. O verbo de Elizeth também era chique: suas palavras nunca feriram um colega de profissão. Esteve sempre longe das polêmicas que pudessem envolver seu nome em ciladas mercadológicas. Mesmo quando foi atacada por talvez não ser a cantora ideal para iniciar o movimento da bossa nova, ela nunca se pronunciou. Eleita por Tom Jobim e Vinicius de Moraes para ser a pioneira desse ritmo, ela apenas cumpriu o seu ofîcio: imortalizar aquelas canções.
Divina. Enluarada. Esses foram apenas dois dos muitos adjetivos escolhidos pelos poetas brasileiros para definir sua musa. Seu nome de registro também apontava a diversidade, e aparecia na capa de seus discos em diferentes grafias que sempre me confundiram na hora de escrever sobre ela: Elizeth, Elizete, Elisete todas querendo dizer a mesma coisa: a grande dama da canção. Hoje no dia em que faria 90 anos o Brasil deveria estar atento e saudar sua meiga presença e sua sentida ausência nos palcos do Brasil. Eu estou aqui para fazer a minha parte, escrevendo esse texto e colocando abaixo uma sequência de canções inesquecíveis em sua voz, para você que não conhece, procurar por sua obra e para quem como eu, seu eterno fã, matar as saudades. Salve Elizeth Cardoso !
1. Derradeira Primavera (Tom Jobim - Vinicius de Moraes)
2. Prá Você (Sílvio Cesar)
3. Minhas Madrugadas (Paulinho da Viola - Candeia)
4. Folhas no Ar (Elton Medeiros - Herminio Bello de Carvalho)
5. Sempre Esperar (Vadico - Vinicius de Moraes)
6. Meiga Presença (Paulo Valdez)
7. Última Forma (Baden Powell - Paulo César Pinheiro)
8. Símbolo de Paz (Paulo Diniz - Roberto José)
9. Vai Ser Tão Fácil (Ivor Lancelotti)
10. Janelas Abertas (Tom Jobim - Vinícius de Moraes)
Link: https://rcpt.yousendit.com/910691987/0ab1932b60b4fc0f326c8066a322a8b6
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Saudades do Brasil
|
|
|
|
|
|

Hoje acordei com a noticia que o Jornal do Brasil vai deixar de circular em formato impresso. Nesse momento, minha juventude inteira vivida no Rio de Janeiro, passou como um filme.
Meu pai assinava o Jornal do Brasil e O Dia. Um era a minha bíbilia cultural, meu termômetro indicativo de bons filmes, shows imperdíveis e livros para comprar. O outro era carnificina e notícias populares, ficava sempre no banheiro.
O Jornal do Brasil sempre foi cult e sofisticado. Sempre foi mais livre que o concorrente em suas opiniões. Tinha cara de cartão postal da cidade, como os textos de Ruy Castro. Uma exaltação romântica dos grandes ícones cariocas. Os acontecimentos da semana já nasciam com cara de históricos. E todo o dia era a mesma coisa: se tinha sol, pegava a cadeira de praia,o chinelo e meu JB e atravessava a rua Prado Junior rumo ao sol. Se estava nublado ou chovendo, passava o olho pela agenda do dia no Caderno B e saía em busca das dicas culturais indicadas por ele.
Depois cheguei em São Paulo e o Rio de Janeiro ficou do tamanho de suas páginas. Era nele que eu matava as saudades da terrinha, ou não sentia a menor falta ao ver as notícias mais tristes. Em solo paulista o JB sempre sofreu preconceito: nem sempre foi achado em qualquer banca. Eu por exemplo aos domingos tinha que pegar minha bicicleta e ir até a Rua Groenlândia nos Jardins comprar numa grande banca cujo o jornaleiro sempre me avisava: “chega cedo porque acaba logo”. Acaba logo porque a tiragem é pouca ou acaba logo porque todo mundo quer ? Nunca soube ao certo.
Com a chegada da internet ele passou novamente a ser o meu café da manhã, minha primeira refeição informativa. Passo os olhos pela minha coluna de cabeceira escrita pela deliciosa Heloisa Tolipan e seu pupilo mais brilhante Junior de Paula. Aprendo o que ainda não sei sobre música com meu mestre Tárik de Souza, desfruto da sabedoria tão carioca de Maria Lucia Dahl, vejo o high society cinqüentão nunca desaparecer pelas mãos de Hildegard de Angel, aplaudo e tenho medo das severas e tão bem escritas críticas de Macksen Luiz que mantém acesa a chama do teatro brasileiro. E sempre deixo em cima da minha mesa do escritório, as revistas encartadas Programa e Domingo que eu vou lendo a semana inteira sem pressa por serem deliciosas. Coisas da minha vida que deixarão de existir com a saída do Jornal do Brasil das bancas no dia 1º de Setembro. Mesmo que a internet mantenha sua existência e seus leitores, a tristeza hoje é senhora. A dor da gente não sai no jornal.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Você Conhece Uma Cantora Chamada Alcione ?
|
|
|
|
|
|

A resposta para essa pergunta eu vou tentar escrever aqui.
A música brega no Brasil mudou. A música de qualidade feita por aqui, também mudou. Isso é normal e me incomoda ao mesmo tempo. Durante a minha infância nos anos 70, existia um preconceito sadio que delimitava as diferenças: as rádios populares tocavam seus ídolos e as primeiras FM’s do Brasil executavam os cantores ditos intelectuais e de elite. E eu achava ótimo. Adorava ouvir um Chico Buarque seguido de uma Nana Caymmi e também passava as minhas tardes de domingo torcendo pela Gretchen ou pelo Sidney Magal no Programa Qual é a Música ? do Silvio Santos. Cada um no seu quadrado. Hoje tudo virou uma coisa só. Que tristeza. É um tal de cantor popular vestido de Gucci e Prada e músicos que fazem a diferença puxando o saco dessa manada sem conteúdo que dá vontade de ficar debaixo da cama de vergonha. Mas voltemos à pergunta que abre essa conversa
Alcione apareceu no Brasil nesse época que eu acabei de comentar: em 1973 saiu seu primeiro compacto. Descoberta por Jair Rodrigues cantando na noite, e apresentada logo em seguida a Roberto Menescal (diretor artístico da gravadora Philips naquele momento), ela ficou dois anos gravando participações em coletâneas até o grande salto que foi o primeiro LP que trazia seu grito de guerra eterno: Não Deixe O Samba Morrer. Dali em diante ninguém nunca mais segurou a Marrom.
Fazer samba naquela época no Brasil era sinônimo de música popular. Apesar dos inesquecíveis arranjos do maestro Rildo Hora, Martinho da Vila era do povo. Beth Carvalho podia cantar Cartola e Nélson Cavaquinho, mas só tocava em rádios populares. Clara Nunes, musa inspiradora das cantoras de hoje, era a rainha da rádio AM. A aura cult que o samba desfruta hoje estava bem longe de acontecer naquela época. E Alcione, apesar de se mostrar desde o início total, geral e irrestrita, foi escalada pela gravadora para fazer parte dessa turma do samba. Com isso, sua música não foi assimilada pela elite naquele momento. Existia um descaso dos grandes da MPB com o seu trabalho. Até que Maria Bethânia em 1978 decide chamá-la para gravar um dueto na canção Meu Amor . Aí deu o que falar. Bethânia acostumada a enfrentar polêmicas de frente, ignorou a turma da patrulha e trouxe essa grande voz para o público dito classe A e Alcione não desperdiçou essa oportunidade: começou a gravar Gonzaguinha, cantou com Chico Buarque e se deu mal. Suas vendas começaram a definhar. O povão não entendeu e ela logo recuou na chegada dos anos 80 com as baladas de mulher abandonada que até hoje a caracterizam. E agora, finalmente no último parágrafo, a resposta para a pergunta-título desse texto.
Acaba de ser lançado um disco que esclarece tudo: O Samba Raro de Alcione, produzido pelo incansável pesquisador Rodrigo Faour, que junto com Marcelo Froés, Charles Gavin e Thiago Marques Luiz, não se cansa de mostrar ao Brasil o que ele não conhece: a música brasileira. A cantora que vocês vão ouvir nesse disco é outra: magra, elegante, com uma voz que parece não ter limite em sua extensão e um repertório supostamente popular mas de altíssima qualidade. Uma compilação de raridades com cara de disco assinado. Um espetáculo. Vai de Gilberto Gil a Raul Seixas, de Paul Mauriat a Noel Rosa. No encarte todas as informações necessárias para você decididamente saber do que é capaz essa grande cantora brasileira.
Alcione hoje em dia é uma diva. Todos querem o seu canto, todos aplaudem suas escolhas mesmo sendo perigosas, porque ela já está acima do bem e do mal. Todos cantam “você é um negão de tirar o chapéu, não posso dar mole senão você créu”, sem medo de ser feliz. A música popular no Brasil agora dá tanto vergonha que a Marrom virou coisa chique. Mas um dia existiu uma outra cantora. Mais do que uma sambista. Muito mais que uma crooner. Com vocês, Alcione. O nosso Sabiá Marrom.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Dia da Vitória
|
|
|
|
|
|
Essa semana meu coração saiu pela boca: sou um dos indicados ao Prémio da Música Brasileira com meu cd Essa Moca Tá Diferente. Sobre a emoção de ganhar um prémio eu deixo para os mistérios da vida. Sobre ser indicado, vou tentar descrever meu sentimento aqui.
Ser DJ para mim sempre foi um enigma: minha vida corria tranquila sendo bancário e fazendo faculdade de Direito, quando o destino e alguns amigos me levaram para essa profissão que cumpro com muito orgulho desde 1990. E apesar do sucesso quase imediato, havia algo de errado: minha paixão pela música brasileira não era correspondida pelo público que esperava de mim um set cheio de artistas estrangeiros e beats eletrônicos. Até que um dia tudo mudou. Tomei coragem respirei fundo e toquei um clássico de Maria Bethânia numa pista cheia de adolescentes furiosos. A inesperada aprovação imediata me fez mudar o rumo do meu repertório para sempre. Hoje em dia é com muita alegria que vejo essa mesma garotada cobrar de mim cada vez mais nosso samba, nosso forró e meus remixes de clássicos da MPB.
O cd Essa Moça Tá Diferente mistura meus dois amores musicais: cantoras e timbres eletrônicos. Escolhi a house music como ponto de partida de todas as faixas e tive a honra e o prazer de ter nomes tão distintos entre si e importantes como Marisa Monte, Alcione e Ângela Rô Rô autorizando esses remixes. Ao meu lado nessa jornada perigosa de respeitar e profanar o nosso cancioneiro, meu querido parceiro André Torquato. Uma relação delicada: ele, um mestre da música eletrônica e eu, um amante profissional da música brasileira. Thiago Marques Luiz, produtor que ilumina o nosso passado musical com tanta propriedade e a Lua Music minha gravadora de coração, fizeram o meu sonho chegar até o mercado. Desses encontros nasceu esse disco, que depois de uma passagem vitoriosa por São Paulo e Rio de Janeiro onde me apresentei com algumas dessas minhas queridas cantoras no palco e de ter sido um campeão de vendas dentro de seu estilo, agora é indicado a um dos prêmios mais importantes do país.
José Mauricio Machline, é a força geradora disso tudo. Um obsessivo apaixonado pela música brasileira, já teve programas antológicos na televisão, foi dono de gravadora, colaborou financeiramente em projetos de vários artistas e…..canta ! Já tem dois discos lançados e fez uma temporada vitoriosa de shows com a cantora Célia. Criador desse e outros prêmios, Machline não descansa nunca quando o assunto é arte no Brasil. E nossos artistas não esquecem de retribuir esse afeto: por ele fazem qualquer negócio. Se o prémio está sem patrocínio, cantam de graça. Se houver espetáculo nesse dia, cancelam. Nosso Zé merece esse carinho e respeito.
Agora vou parar de escrever, ligar para os meus amores e abrir uma champanhe para comemorar. Mesmo que eu não beba. Mesmo que eu não ganhe. Vou viver esse momento lindo.

|
|
|
|
|
|
|
|
|
Pequeno Grande Homem
|
|
|
|
|
|

O universo de cantores no Brasil anda mudando. Homens sensíveis inspirados por outras assuntos musicais que não o velho samba de sempre, estão fazendo barulho no myspace e no youtube. Nina Simone, Tom Waits, e outros essenciais melancólicos tem sido fonte de consulta para esses rapazes. O primeiro grande impacto desse ano foi Thiago Pethit que já foi comentado e elogiado por mim alguns textos abaixo. O segundo aconteceu hoje aqui em casa, e se chama Filipe Catto. Numa tarde entre livros para terminar e filmes para começar, entrei no site da Trama que estava transmitindo ao vivo uma apresentação de Filipe. Foi impacto à primeira vista.
Vozes masculinas beirando a androginia sempre existiram no mundo pop: Jimmy Somerville, Anthony Hegarty e há pouco tempo Dougy Mandagi do banda australiana Temper Trap. Aqui no Brasil, Ney Matogrosso sempre reinou soberano. Houveram tentativas de dividir espaço e grandeza: Edson Cordeiro, Marquinhos Moura e Fênix que ainda passeiam pelo mercado, mas sem a força da imponente trajetória de Ney que ainda causa susto em desavisados de novas gerações. Filipe Catto tem um talento de assustar numa idade física de apenas 22 anos. É gaúcho e filho de músico. Depois de sua estréia em 2005 no tradicional Bar Ocidente em Porto Alegre, formou bandas, gravou demos e foi morar no bairro boêmio do Brooklin em Nova York. Tudo somado numa obra que já tem cinco anos. Talvez eu esteja até atrasado em minha empolgação aqui nesse texto. Talvez muitos já façam parte da corte de Filipe e eu, equivocado, esteja exaltando velhas novidades. Não me importa. Com certeza a grande massa que eu desejo para o que acabo de ouvir , ainda desconhece essa sensível força bruta. E isso não pode acontecer, porque não é todo dia que se tem informação de cantores geniais por aqui. Não é todo dia que sentimentos diferenciados viram música nova nos nossos ouvidos.
Filipe Catto tem uma forte presença cênica (procure por ele no youtube) e uma particularidade na composição e na voz que arrepia (procure por seu EP com download gratuito em seu site). Imediatamente após a primeira visão, num surto emocional, comecei a ligar para amigos, como eu, fissurados em reais novidades e nenhum conhecia. Todos ficaram impregnados de seu canto na primeira audição .
Apesar desse primeiro disco estar focado em sua obra autoral, no youtube (novamente ele) aparecem apresentações ao vivo de Filipe misturando, Piaf, Bethânia e Portishead. É minha cara ! Espero que a sua também. Cartas para a redação. Impressões no Twitter. Comentários no Facebook. Disco no Ipod. E depois me diz.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Pouco Eu Não Quero Mais
|
|
|
|
|
|
Há tempos venho evitando escrever o que a fúria dos pensamentos minha obriga a fazer agora. Há tempos um jornalista de música de um grande jornal me tira do sério com suas conclusões equivocadas e gratuitas. Esse senhor que levanta incessantemente a bandeira de sua turminha de três ou quatro insuficientes fez em seu espaço sórdido uma triste e patética crítica a dois dos melhores discos do semestre: Muito e Pouco de Paulinho Moska.
Qual o papel da crítica: levantar uma bilheteria? Com certeza não. Espetáculos incensados vão a derrota rápido e peças ditas de gosto popular explodem em temporadas intermináveis. Vender mais disco ? Se fosse assim os malditos Macalé e Jorge Mautner estariam morando em mansões e dirigindo carros possantes. Então qual é a função desses profissionais ? Com certeza exporem seus objetos de desejo pessoal em espaços gigantes para se mostrarem interessantes e potentes, sem necessariamente causarem efeitos bombásticos na carreira desses artistas citados em termos de venda e popularidade. Ou seja: levar a sério uma crítica elogiosa pode significar anonimato. Ficar incomodado com comentários negativos pode levar a sentimentos desesperados à toa, porque a fama e o sucesso chegam por outras mãos, a do grande público que consome e mantém a arte de pé. Ainda bem
Música no mundo e principalmente no Brasil está em franca decadência: gravadoras em estado de decomposição, artistas fundando seus próprios selos com problemas de distribuição e o “roubo” de fonogramas pela internet. Por que então no momento em que podemos celebrar essa arte cada vez mais em extinção, um jornalista derruba um grande trabalho num texto sem fundamento baseado em seu gosto pessoal? Um espaço de ouro dado a um falso visionário que joga suas mini-certezas nos olhos dos leitores. Não satisfeito esse senhor ainda tem um blog para divulgar saraus culturais para os quais é convidado, sempre comentando sua triste vida de puxa-saco conceitual misturada a dois ou três artistas que ele vive jogando para o alto porque lambem seus sapatos que não deveriam pisar num jornal de grande circulação.
Desculpe a minha violenta indignação caro leitor. Nesses tempos de “chapa branca” e de interesses apenas individuais, eu não deveria estar me manifestando aqui, mas se você que me lê tem algum respeito pelas minhas opiniões volto a insistir: os dois álbuns de Paulinho Moska são geniais e fundamentais. dignos dos melhores ouvidos e estantes musicais. Em contrapartida, a foto aqui embaixo mostra para onde vai, diariamente, a glória do crítico de um grande jornal

|
|
|
|
|
|
|
|
|
Uma Carta Para Paulinho Moska
|
|
|
|
|
|
Amigo Moska,
Sobre o que vou falar aqui, o mundo lá de fora ainda nem conhece. Seu álbum duplo Muito Pouco ainda não chegou aos ouvidos de todos. Mas aqui em casa já é disco de cabeceira, desde que, na casa de nossa Naná, tive o privilégio de tê-lo perto de mim pela primeira vez.
Nossa amizade já é antiga. Meu interesse por tua música, não. Apesar de toda a propaganda feita por nossa turma em comum, me tornei dependente a partir do álbum Tudo Novo de Novo, onde, na minha modesta opinião, você chegou à síntese de um trabalho: letras brilhantes em baladas fascinantes. Agora nesses dois novos discos, você supera o meu desejo anterior e me torna escravo de tua música e de teus versos.
O primeiro deles chamado Muito é cheio de sons e palavras. Me deu saudade dos rapazes de Liverpool em vários rocks deliciosos. O auxílio luxuoso do grupo portenho Bajofondo traz dramaticidade pop e teus violões estão afiadíssimos. Duas faixas já eram conhecidas por mim: a canção Muito Pouco, fio condutor do segundo álbum de Maria Rita que volta mais furiosa em suas intenções, e Quantas Vidas Você Tem ?, tema de alguma novela que passou e deixou para o futuro essa bela canção.
O segundo disco chamado Pouco é feito de silêncios e vozes. E parceiros. Teria um Pedro Aznar ? E um Kevin Johansen ? Desculpe o jogo de adivinhações mas não tenho o nome das canções aqui comigo, o que é um doce perigo porque me leva a imaginar autores e músicos que possam estar nessa ou naquela faixa. A gata extraordinária do momento Maria Gadú surge inspirada com sua voz de ouro em duas canções: uma que mistura versos em inglês e português e Sinto Encanto parceria com Zélia Duncan que aliás aparece vigorosa em outra letra do disco a emocionante O Tom do Amor. Adoro também tuas vozes dobradas em várias faixas que transformam você em muitos cantores num só. E tem mais. Muito mais. Meus ouvidos ainda estão digerindo, meu coração se aquecendo e meus olhos atentos à espera de encontrar os dois discos em estado físico e poder tocá-los com as mãos agradecidas por tua música. Tua seta nunca esteve tão perto do alvo. Ou já está lá ?
Bjs do teu sempre fã
José

|
|
|
|
|
|
|
|
|
Uma Noite Com Maria Rita
|
|
|
|
|
|

O tempo avançou e recuou nessa segunda-feira no pequeno palco do Tom Jazz aqui em São Paulo. Maria Rita estava de volta ao formato que a consagrou: um trio de músicos afiados e um repertório de ouro. Mas nada seria como antes. Foi melhor.
Quando Maria Rita fez seu primeiro show solo num espaço chamado Supremo também aqui em São Paulo eu estava lá. Do lado de fora uma multidão tentava em vão entrar, e eu me sentia feliz e eleito de estar ali, onde depois de tantos anos de espera, iria vê-la cantar. Durante muito tempo sempre alguém passava por mim e dizia: quando você ouvir Maria Rita vai esquecer as outras. E quase esqueci mesmo. Ansioso para ter algum registro daquela noite, levei minha pequena filmadora em tempos bem distantes de youtube. Não consegui filmar. Chorava o tempo todo e molhava a lente. O impacto foi fulminante. Em seguida, o inevitável aconteceu: Maria passou a ocupar as grandes casas de shows e, surpreendentemente, mantendo o mesmo clima intimista daquela primeira noite. E o resto é história: filas intermináveis para comprar ingressos. Eu consegui. Filas nas portas das lojas para comprar o primeiro cd. Eu comprei. Tumulto na porta dos camarins. Eu esperei e entrei.
Depois Maria Rita cresceu ainda mais. Ficou linda de se ver e adotou o samba como plataforma principal. Solarizou e arrastou multidões. E eu fui ficando prá trás, acompanhando de longe um pouco assustado e temeroso com o que aconteceria a seguir depois de um projeto tão vitorioso. Reencontro com ela no São Paulo Fashion Week e sou avisado: “farei uma temporada no Tom Jazz”. Meu coração se encheu de alegria. Maria Rita sabia recuar em busca do essencial. Sabia estar nas pequenas decisões o oxigênio necessário para novos passos. Contei os dias que nem um presidiário em dias de solitária. Sonhei com possíveis repertórios e figurinos. Imaginei milhões de possibilidades. E o dia de ontem chegou.
Diante de uma platéia lotada e bem comportada, sem as histerias habituais dos grandes teatros, Maria Rita entrou no minúsculo palco com a serenidade dos velhos tempos. Os anos de estrada em grandes turnês, sua experiência no show bizz estava ali em forma de estrutura: uma luz poderosa e muito bem executada, um som de altíssima qualidade e um figurino brilhante sem parecer demasiado para aquele lugar. Pequenas coisas que fazem diferença para o grande motivo dessa noite acontecer: Maria Rita e sua voz tamanha. E foi como se eu sentasse numa montanha-russa de emoções: durante mais de uma hora de show não parei de aplaudir e consagrar essa grande cantora. Suas divisões rítmicas, sua emoção à flor da pele. Seu corpo suave e tenso conforme as emoções de cada música. Sua intimidade e segurança com o ofício de cantar.
E as surpresas apareceram logo. Conceição dos Coqueiros de Lula Queiroga abre o espetáculo e toma a platéia de imediato. Santana de Junio Barreto e Perfeitamente de Fred Martins e Francisco Bosco não incluídas no segundo álbum da cantora, encontram seu lugar ideal no show. Soledad de Jorge Drexler reafirma a competência de Maria ao interpretar canções latinas. O roteiro prossegue com canções tiradas de seu repertório num encadeamento lógico que mantém a platéia atenta e participativa. Os anos de Samba Meu só acentuaram a capacidade ímpar de Maria para interpretar o ritmo que melhor traduz a nossa terra. Ela faz o que quer e quando quer com os sambas que escolhe prá cantar e a banda demonstra uma afinidade impressionante. Mais para perto do final do show, ela relembra uma Rita Lee dos anos 80 (Só de Você) e apresenta sua versão definitiva para A História de Lily Braun de Chico Buarque e Edu Lobo que fez parte da turnê de seu segundo disco mas nunca foi registrada em disco.
Ao final, ovacionada, Maria Rita volta ao palco para fazer todos cantarem com ela Encontros e Despedidas. E voltamos todos para casa com a consciência do dever cumprido. Ela de ser uma das maiores cantoras desse país e nós mais exigentes com o que ouvimos por aí. Continuar uma trajetória é retroceder.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Aqui é o País do Futebol
|
|
|
|
|
|

Nesse domingo em tempo de Copa do Mundo, eu, bem distante de uma bola no pé, inventei meu jogo impossível: de um lado Elis Regina do outro Cássia Eller. duas grandes interpretes dos sentimentos brasileiros.
Para dar início à partida, coloquei um vídeo de Elis gravado no Chile em 1981, um ano antes de seu desaparecimento. Com um repertório misturando grandes obras de sua discografia, Elis estava em grande forma e bem longe de idéias estagnadas. impossível não imaginar o que viria depois de sua morte se o destino não tivesse a levado tão cedo. Elis tinha opiniões fortes sobre tudo: uma mulher furiosa em seus argumentos sobre o mundo, dentro e fora da música. Me peguei em vários momentos aplaudindo e gritando ao final de cada música apesar da qualidade de som e vídeo sofrível. A arte de Elis resiste a tudo. Golaço.
No segundo tempo coloco pra rodar um show de Cássia Eller de 1990. De 1982 quando ficamos sem Elis até ali, muito tempo passou. O som dos arranjos no Brasil pasteurizou com excessos de teclados de Lincoln Olivetti, a dupla Sullivan e Massadas encheu o bolso de nossas cantoras com baladas previsíveis e esvaziou suas discografias de boas intenções. O abismo foi grande. Os tempos eram outros. Era o fim do subtexto na música brasileira. Adeus ditadura e contestações e viva a alegria, viva o prazer. Um caminho cheio de sol que fez a maioria da turma musical dos anos 60 e 70 se perder. E Cássia Eller encontrou seu primeiro grande momento nessa hora. Intérprete agressiva de voz rascante pegou todo mundo de surpresa: metade homem metade mulher, metade doce, metade fel. Sua carreira meteórica deixou frutos potentes e maduros que alimentam até hoje nossos corações e mentes. Bola na rede.
Na vida fora dos palcos Elis e Cássia eram dois opostos: Elis usava a palavra como forte aliada. Suas entrevistas são um retrato do seu tempo. Lutava pelos direitos dos músicos no Brasil e de quem mais passasse pela sua frente. Comprava brigas e desafetos e sempre surpreendia quando seu lado amoroso transparecia. Cássia era introspectiva e silenciosa. Suas idéias e opiniões estavam no palco e nada mais. Sua sexualidade polêmica alcançou o ápice quando se tornou mãe coruja de um menino de paternidade desconhecida. Nesse momento seu lado feminino aflorou e alcançou sua música que se tornou mais doce.
Duas mulheres que não se arrependeram de nada. Em comum tinham o desejo de cantar o Brasil sem máscaras, sem romantismo barato. Duas intérpretes que nunca tiveram o desejo de se mostrarem compositoras por saberem do enorme talento de nossos letristas e da quantidade de canções que estavam no escuro à espera de uma grande cantora. Compor música irrelevante pra quê ? Garantir um dinheirinho de direito autoral é pobreza ideológica que as duas nunca quiseram desfrutar. Cartão Vermelho.
Elis transformava sua timidez em arma quente. Formada nos grandes festivais de televisão e nos programas de auditório, era uma autodidata nos quesitos presença cénica e extensão vocal. Num primeiro momento colocou sua arte em repertórios oscilantes e variados mas á partir de seu encontro com César Camargo Mariano, com quem juntou amor e direção musical, ninguém mais contestou sua discografia.
Cássia era anárquica. No caos encontrava sua ordem e progresso. Gostava de trabalhar em turma, com muita gente reunida em torno de si. E foi assim que sua vida e obra foi formada. Nando Reis compondo, Lan Lan nos tambores e Luiz Brasil nos arranjos. Foi com essa família que Cássia deixou seu último legado nunca esquecido por sua enorme legião de seguidores.
E o meu jogo chega ao fim. Empatado. Um 0 X 0 desejado por todos que amam boa música. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Com Açucar, Com Afeto
|
|
|
|
|
|

Existe um espetáculo aqui em São Paulo que traz novamente à tona a lembrança de uma das maiores intérpretes da musica brasileira: Nara Leão. Sobre ela já falei muito aqui e não me canso. Sua atitude irretocável e sua discografia impecável são uma saudade eterna. Tudo isso surge com clareza no espetáculo Nara em cartaz no teatro Augusta, uma montagem quase amadora de tão ingênua e sincera. A atriz Fernanda Couto não quer ser parecida com a cantora que homenageia, não passa para a platéia um exercício de cópia forçada, quer apenas trazer para o público a biografia de uma grande artista que teve uma trajetória importante e que muitas vezes fica esquecida nesse país formado por uma lista infindável de cantoras.
Acompanhada de três músicos/atores, Fernanda alterna textos na primeira pessoa com situações em que se torna apenas a narradora da história. Apesar de fisicamente estar bem distante do perfil de Nara tanto no timbre de voz como na atitude corporal, Fernanda emociona e mantém viva a musa da bossa nova e dona dos joelhos mais cobiçados da MPB, dois adjetivos que ela própria a vida inteira contestou, numa eterna fuga de rótulos. O Teatro Augusta, pequeno e precário das grandes infra-estruturas das casas de shows de hoje em dia, mantém uma intimidade necessária e envolvente com o público a ponto de, na hora em que houve um pequeno problema técnico parando o espetáculo, um espectador começou a fazer mais perguntas sobre a vida de Nara, iniciando quase um debate com os atores. Tímidas projeções aparecem no fundo do palco informando nomes e circunstâncias da história contada, como a carta/poema de Carlos Drummond de Andrade publicada num jornal da época pedindo a absolvição de Nara pelos militares quando ela falou mais que devia naqueles tempos de ditadura. Sua morte inesperada e a doença impiedosa que a levou muito cedo, são citadas de forma contundente e emocionada levando o público a fortes aplausos no final. Se alguém perguntar por Nara Leão diga que ela está ali no Teatro Augusta até o final de Julho. Sua obra é tratada com respeito e acende a memória desse país em eterna amnésia cultural. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Musa Híbrida
|
|
|
|
|
|

O primeiro som emitido por Bebel Gilberto já deu samba na mesma hora: sua frase infantil “acabou chorare” virou título de um dos discos mais importantes da MPB gravado pelos Novos Baianos. Não tinha jeito: filha de Miúcha, sobrinha de Chico Buarque e com um pai de nome João Gilberto, ela só podia viver de música. E o que tinha de ser aconteceu: Bebel participou da primeira versão de Saltimbancos, gravou com sua mãe um compacto duplo ( O Que Quer Dizer de 1975 ) e fez antológica participação no especial de seu pai para a TV Globo em 1980 cantando Chega de Saudade.
Depois o Rio de Janeiro tomou conta de sua adolescência e, ao lado de Cazuza, ela ensaiou alguns passos de atriz deixando a música um pouco de lado. Só um pouco, porque logo em seguida os dois começaram a compor canções até hoje antológicas como Preciso Dizer Que Te Amo e Mais Feliz. Alguns anos depois, Bebel fez as malas e ganhou o mundo. E nós por aqui ficamos sem noticias suas. Até que no ano 2000, em plena virada do século, ela lança seu segundo disco, cheio de novidades e intenções (para desavisados era o primeiro, porque seu EP gravado no Brasil em 1986 teve repercussão zero). Era um álbum que já nascia clássico. Além de composições próprias, o disco transformava o passado em novidade com Samba da Benção e Bananeira. Uma espécie de pedra de rumo para tantas cantoras que vieram depois, tentando fazendo fazer essa difícil, e repleta de preconceitos, música eletrônica brasileira. Foi isso que eu pude comprovar nesse último sábado num Sesc Pompéia lotado para ver essa cantora do mundo tão brasileira.
Bebel Gilberto vem pouco para cá e creio ter sido eu um dos responsáveis por sua primeira vinda ao Brasil depois da grande repercussão de seu álbum Tanto Tempo. Aconteceria um prêmio de moda no Teatro Municipal de São Paulo e me perguntaram quem eles deveriam trazer para fazer o show de abertura e eu não pensei duas vezes: Bebel. Desde Astrud Gilberto a música brasileira não tinha uma cantora de tanta repercussão lá fora. E o povo daqui precisava saber disso. E souberam. Nessa noite de gala ela (re)apareceu para os brasileiros.
Adoro quando Bebel lança um disco novo e eu, coincidentemente, estou no exterior porque é de arrepiar ver seu rosto espalhado pelas cidades da Europa em metrôs e outdoors. Dá um orgulho tupiniquim daqueles. E foi assim com este All in One, seu álbum mais ambicioso gravado pela Verve o grande selo de jazz mundial. Um disco competente e emocionante, apesar de ter sido gravado num momento pessoal e profissional conturbado que Bebel soube muito bem abafar e transformar em boa música.
Apoiada por músicos nobres, uma cenografia repleta de borboletas psicodélicas iluminadas e um figurino delicado, Bebel fez seu melhor show no Brasil até agora. Concentrada, com um roteiro bem definido que começou com Carlinhos Brown (Aganju) passou pela versão acústica de Sweet Dreams (Eurythmics) e terminou em Carmen Miranda (Chica Chica Boom Chic), ela levantou a platéia que não parou de aplaudir e pedir bis. E eu ali. Mais um na multidão a reconhecer seu talento. A certeza da beleza.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Quando Dois Corações Se Amam de Verdade
|
|
|
|
|
|

De quem vou falar aqui talvez você não conheça nada. Mas se me ama ou admira o meu trabalho vai se interessar por esse texto.
Em 1995 a moda no Brasil estava bem longe da prosperidade e segurança que hoje desfruta através do esforço incansável de Paulo Borges. Era um assunto desgastado ou citado em textos sem conteúdo. Mas os jornalistas não eram os culpados. Simplesmente não havia o que falar. E foi exatamente nesse estágio zero que estilistas e desfiles entraram na minha vida pelas mãos de um remoto amigo carioca que me conhecia dos velhos tempos de discotecas e afins. Seu nome, Giovanni Bianco.
De repente num domingo, abro a revista da Folha de São Paulo e reconheço seu rosto na capa. O texto escrito pela visionária jornalista Erika Palomino não deixava dúvidas: Giovanni vinha prá ficar. Sua profissão, diretor de arte. Profissão E.T. naquele momento no Brasil. Logo em seguida aceito o convite para ser o DJ de sua festa de trinta anos e não me preocupo com o set list: sei de nossa afinidade antiga com a música brasileira. Na hora do parabéns, troco a surrada melodia de sempre por Não Deixe o Samba Morrer na voz de nossa musa em comum Alcione. E fui para a minha casa com a consciência do dever cumprido. Mas na manhã seguinte quando o telefone da minha casa tocou (estamos falando de um tempo no mundo ainda sem celular), constatei que o sonho não havia terminado. Do outro lado da linha um agitado Giovanni ordenava que eu pegasse um táxi e fosse para a fábrica da Fórum. Sim, aquela loja que eu guardava dinheiro meses para comprar uma mera camiseta e me sentir o máximo. Naquele momento tive medo, mas perdi no mesmo instante porque Giovanni nunca teve tempo para inseguranças ou conflitos existenciais. Quando dei por mim já estava na frente de Tufi Duek, o todo-poderoso estilista e dono da marca e Giovanni deu a ordem: "Você vai misturar Clementina de Jesus, Maria Bethânia e Ney Matogrosso com música eletrônica. Obedeci sem entender. Fiz a trilha sem perceber, e virei sucesso. Na primeira edição do São Paulo Fashion Week já estava fazendo doze desfiles. Teria então eu algum dom para isso? Essa certeza não veio de mim e sim de Giovanni, um visionário nato de novos talentos que me carregou com sua mão forte para esse ofício. Em seguida, já seguro e consciente do meu dever, ousei discordar de sua idéias em outros desfiles. Brigamos e nos afastamos. Ele foi cuidar da imagem de grifes importantes pelo mundo, revolucionou o mercado de capas de discos no Brasil, virou braço direito e amigo de Madonna, e eu, menos ambicioso e valente, fiquei por aqui prosseguindo como DJ e produtor musical. Tudo isso até ontem à tarde, quando, de bicicleta no meio de Nova York, senti meu celular vibrar no peito e aquela forte palavra de ordem novamente soou do outro lado da linha: "Giovanni Bianco quer falar com você sobre um trilha para o Fashion Week". Meu coração bateu apressado. Como seria nosso encontro profissional depois de tantos anos? Agora já maduros e seguros do nosso espaço conseguiríamos nos respeitar ? Giovanni não tem tempo a perder com esse tipo de devaneio romântico. Me recebeu com a fúria profissional e as certezas de sempre. Não falou do passado nem do futuro de nossa relação pessoal. Falou de música e passarela. E foram só dez minutos. Tempo necessário para sentirmos que ainda somos parceiros em sonho. Ainda amamos a coragem quando o assunto é espetáculo. E depois fomos almoçar. Relaxado, hilário, cheio de verdades impublicáveis e genial em suas conclusões, Giovanni voltava, ali naquele momento, a ser meu mestre em dois assuntos que ainda não domino: auto-estima e poder. O resultado dessa tarde vocês verão quando Gisele Bündchen entrar na passarela da Colcci, mais um vez para muitos, e como se fosse a primeira vez para mim. Porque Giovanni Bianco está de novo no comando de mimhas realizações como DJ. Porque talvez você não saiba de quem eu estou falando aqui. Mas sucesso e competência a gente reconhece em qualquer lugar. Não precisa saber o nome. |
|
|
|
|
|
|
|
|
My First Love
|
|
|
|
|
|

E foi numa dessas tardes que um amigo liga direto de Nova York e não me dá tempo de respirar: "Diana Ross no Radio City Music Hall dia 19 de Maio. Comprei seu ingresso". E foi assim, que também como um menino obediente, entro num site e compro minha passagem. Dali em diante os dias passaram lentos . A criança que um dia escolheu Diana Ross para seu ídolo agora iria vê-la em carne, osso e coração. Com seria esse encontro ? Estaria ela em estado de decomposição como Whitney ? Sua voz ainda ainda estaria emocionante como a de Aretha ? Possíveis riscos que o tempo expõe e que o meu medo alertava. Quando dei por mim estava na porta do imponente teatro da Rua 50 numa fila gigantesca esperando a hora de passar o meu ticket no raio x (será que é falso ? Será que vou acordar ?). Numa grande sala avisto uma cortina azulada que cai de repente e como num túnel do tempo vejo Diana Ross entrar no palco. Um impávido colosso. O cabelo gigante ? Estava lá. Os vestidos brilhantes ? Compareceram. O repertório inesquecível ? Cada vez melhor. E ali acontece de tudo: gays enlouquecidos correm em sua direcão e jogam flores. Negros americanos de todas as idades rendem tributo a seu ídolo maior. Seguranças, contratados para controlarem o grande publico, dançam mais que qualquer pagante. Meus olhos trabalham dobrado: abertos, ficam cheios de lágrimas e fechados me conduzem a um pequeno quarto em Copacabana onde passei minha infância assistindo Diana Ross no cinema encarnando uma estilista chamada Mahogany ou vivendo a difícil trajetória de Billie Holiday em Lady Sings The Blues. No repertório nenhuma canção fica de fora: Stop ! In The Name of Love, Upside Down, The Boss, Endless Love e vamos parar por aqui, senão vou me arrepender de não ter me escondido embaixo da cadeira para assistir mais uma noite.
Inicialmente mera vocalista de um grupo chamado The Supremes, em seguida,nos anos setenta, Diana Ross explode em carisma e se torna a rainha da musica negra mundial. Foi também a mulher que Michael Jackson não conseguiu ser e que ele perseguiu como um ídolo durante toda a sua vida. E Diana não esquece disso: ao final do show um imenso painel com o rosto de Michael desce e ela canta You Are Not Alone acompanhada por uma imensidão de mãos levantadas.
E assim o show terminou. Seis figurinos. Quinze canções. Um bis. Na porta compro tudo que vejo: programa, fotografia, boné e camiseta. Ando alguns passos em silêncio e penso encontrar John Travolta na próxima esquina. Impossível. Estou em 2010. Mas o tempo de se ter uma grande voz, uma discografia impecável, desprezar playbacks e coreografias mirabolantes, ainda não acabou. Diana Ross está viva. E eu também. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Eu Quero Ver a Rainha
|
|
|
|
|
|

Quarta feira. Logo cedo pé na estrada rumo a Salvador tocar num evento. Ao chegar no aeroporto, a grande surpresa: Marisa Monte fará um show antes de mim com as participações de Seu Jorge e Nando Reis. Pronto. A obrigação do ofício vira prazer. A euforia toma conta do meu ser e esqueço completamente das minhas obrigações. Peço para chegar antes da minha apresentação e fico na primeira fila. Por que? Primeiro Marisa Monte não costuma fazer show fechado. Segundo, porque não está em turnê no momento e preparou um show especial para essa noite. É demais pro meu coração.
E chega a hora. Pessoas bebendo e falando alto. Bem alto. Mas quando o responsável pelo evento chega até o microfone e anuncia a atração até então desconhecida pelo público, vejo a grande turba vir em direção ao palco. E é tudo verdade: Marisa Monte surge em cena com sua presença forte, seu talento insuperável e sua musicalidade genial. Sim, Marisa é dona de todos esses atributos que fazem dela um fenômeno desde que chegou ao mercado em 1987 e fundou um novo estilo de cantar, de se apresentar num palco e vender um produto ainda chamado LP. O Brasil parou. Eu estava lá e atesto para todos os fins. As novas cantoras surgidas a partir dali também comprovam isso, visto a quantidade de imitadoras de seu estilo (sempre num tom inferior) que apareceram desde então.
Nesse show especial e inédito ela demonstra o cuidado de sempre: ilumina uma canção do passado com propriedade única (Fuga Nº2 dos Mutantes ) funda novas parcerias (relembra o antigo dueto com Ed Motta em Ainda Lembro agora com Seu Jorge), confirma que é autora de hits alheios que não parecem ser seus (Onde Você Mora, clássico do Cidade Negra cantado por ela nessa noite com Nando Reis é uma prova disso) e encerra o assunto quando o tema é ser a maior cantora do Brasil a partir dos anos noventa.
Marisa sabe ser uma deusa das canções. Sabe que um talento nato associado a um empresariado eficiente, fazem a grande diferença. Nada escapa ao seu controle. Nada tem pressa. Discos seus vão para as prateleiras quando realmente existe algo de novo a dizer. Traz de voltas nomes esquecidos da MPB e os transforma em sucesso do momento (Jorge Ben, Tim Maia e Novos Baianos reinterpretados por ela na hora certa, são bons exemplos disso). Lança novos músicos (o guitarrista Davi Moraes estourou no mercado como símbolo sexual e guitarrista quando fez parte de uma turnê sua) e inova em cenários e figurinos todos copiados a exaustão logo em seguida por cantoras de segundo escalão.
Depois de tudo isso que eu disse aqui só lhe resta uma saída: compre uma passagem para Salvador no próximo sábado, pule o muro do hotel e corra na direção do palco que tudo isso vai acontecer novamente. Eu te espero lá.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
A Novidade Veio Dar Na Praia
|
|
|
|
|
|

Existe uma cantora no Brasil que felizmente não quer o posto de diva da MPB. Existe uma cantora brasileira que não tá nem aí pro mercado em plena decadência e faz o que bem quer. Seu nome é Cibelle. Surgiu como aliada do produtor Suba e uma possível tentativa de nova Bebel Gilberto, mas antes que isso pudesse dar certo ou não, ela foi para bem longe dos rótulos. Seu segundo disco já era uma ruptura livre geral e irrestrita: poucas letras em português e um psicodelismo aprendido em Londres, seu novo porto seguro. Quando Cibelle desembarcou de volta por aqui já era outra e logo procurou por seus iguais na paulicéia desvairada, e foi assim que ela surgiu em pleno Auditório Ibirapuera: cercada de amigos coloridos e selvagens, abraçando o amadorismo geral, num palco onde nada funcionava direito. Tudo era brilhante e genial. Metade do público foi embora. Metade invadiu o palco e participou do show histórico. E foi no meio dessa confusão entre amor e ódio, desinteresse e foco, que ela sumiu de novo. Até que hoje entre minhas eternas fuçadas na internet encontro seu novo álbum dando sopa e não resisto, dou download imediato. E me dou bem: Las Venus Resort Palace Hotel já nasce clássico. Já nasce inesperado. Já nasce necessário. Um disco feito por uma cantora bem longe do Brasil. Bem perto do mundial. Uma livre iniciativa cultural. Cibelle não segue nenhum modelo pré-estabelecido. Não quer botar as pernas de fora. Não quer o gesto falso que desperta gritinhos em platéias burras. Não quer se parecer com ninguém. Quando usa elementos eletrônicos soa acústica . Quando quer ser romântica nos chama para a pista de dança mais próxima. Tem saudades de um outro Brasil, que não esse de Caetanos e Mutantes tão copiados pelos falsos novos representantes da música brasileira. Cibelle busca dentro de si outras inquietudes, valoriza o singular de sua personalidade, mistura tudo em sua arte que explode em nossos ouvidos como um som realmente inédito. Não perca mais tempo com velhas belezas recicladas: ouça Cibelle e siga em frente que atrás vem gente igual a ela que também quer nos atingir com novas genialidades. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Paralelo 30
|
|
|
|
|
|

Tem um texto que eu estou devendo aqui já faz alguns meses. Existe um disco que foi lançado, tomou meu coração e meus ouvidos e eu nunca postei nenhum comentário. Mas um email na minha caixa postal hoje me lembrou desse esquecimento: Kleiton & Kledir farão essa semana o show de lançamento do CD e DVD Autorretrato que eles gravaram em 2009.
Eu nasci em Porto Alegre, cresci no Rio de Janeiro e escolhi São Paulo para viver, uma confusão de cidades que acontece a muitos brasileiros. Portanto quando Kleiton & Kledir tomaram de assalto as rádios do Brasil em 1980, eu já conhecia aqueles verbetes gauchescos que estavam contidos em suas canções. E o povo daqui de cima amou: cantavam e se divertiam com “Deu Pra Ti”, “Tri Legal” e “Cobertor de Orelha”, gírias que só o povo do frio sulista conhecia até então. Mas a música deles tinha mais que isso: belos arranjos, duas vozes afinadas e sedutoras e uma já longa trajetória que incluía o grupo Almôndegas nos anos setenta do qual foram integrantes. Junto com eles também chegava um irmão mais novo, menos pop e mais complexo chamado Vitor Ramil que encantou Zizi Possi que foi a primeira intérprete a gravar uma composição sua.
Em seguida Kleiton & Kledir viraram hino de verão: a cantora Simone gravou Tô Que Tô em 1982 que foi tema de novela e hit radiofônico o ano inteiro. Paralelo a isso, a própria dupla tinha seus sucessos: Vira Virou, Fonte da Saudade, Nem Pensar, até pelo menos 1984 quando seus discos continuaram a sair mas a super-exposição começou a minguar. Os esforços para seguir em frente misturaram regravações, poucas inéditas e até uma tentativa de carreira solo de Kledir. E eu me esqueci da dupla.
Quando seus discos foram relançados em CD a chama acendeu novamente e a lembrança fez festa nos meus ouvidos até que no ano passado algo realmente importante aconteceu de novo para eles: o álbum Autorretrato repleto de inéditas relevantes, arranjos modernos e interessantes e a voz de Kleiton & Kledir em sua melhor forma. E nunca mais parei de ouvir. Produzido pelo galês quase brasileiro Paul Ralphes que também produziu Kid Abelha e Lulu Santos, e com um projeto de vídeo clipes bem humorados e inteligentes filmado por Edson Erdmann, o projeto foi lançado pela Som Livre. E eu sempre pensando em escrever esse texto que finalmente está aqui para você saber que no peito desse gaúcho de nascença bate um coração cheio de amor pela música de Kleiton & Kledir. O seu também deveria bater.
Preferidas Autorretrato:
Estrela Cadente
Só Liguei
História de Amor
Na Correnteza do Rio
O Tempo Voa
Ao Sabor do Vento
Só Prá Te Ver
Tudo Eu
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Os Paralamas do Sucesso Vieram Tocar na Capital
|
|
|
|
|
|

Segunda -feira não é dia de farra. O cansaço do fim de semana somado a um dia intenso de trabalho não combinam com euforia. Mas ontem eu me senti em pleno sábado. Os Paralamas do Sucesso estiveram em São Paulo.
Eu não sou mais criança portanto vi o nascimento do rock Brasil e a avalanche de bandas que nasceram nos anos oitenta. Garoto acostumado a ouvir MPB, fui arrastado pelos meus amigos a gostar desse novo som que invadia o país. E fiz minhas escolhas: os primeiros álbuns do Kid Abelha e do Paralamas do Sucesso viraram discos de cabeceira. De lá prá cá Herbert Vianna só melhorou como letrista e o som da banda ficou cada vez mais consistente e poderoso. Tendo como influência inicial facilmente identificada as bandas UB40 e The Police, eles foram muito além disso misturando o Caribe com o Brasil, o eletrônico com o acústico, as canções de amor com as músicas para dançar. Herbert também virou o compositor principal das vozes femininas do país o que muito me alegrou. Zizi Possi diminuiu o andamento de Meu Erro, Ivete Sangalo gravou Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim e arrastou multidões e Zélia Duncan cantou Partir,Andar no terceiro disco solo dele. Quando os ventos da maturidade já sopravam para a banda, veio a tragédia. A eminência de uma morte inesperada de Herbert paralisou o país. Vítima de um acidente de ultra-leve, ele ficou com sua vida suspensa por um fio de esperança que sua mente e a reza forte de todo o brasileiro não deixaram arrebentar. E ele se recuperou. E junto com ele toda a força do Paralamas como uma grande banda brasileira. Durante esse período fiquei aqui em casa quietinho ouvindo os discos que saíram após o pesadelo e adorei todos. Longo Caminho, Hoje e o mais recente Brasil Afora são grandes álbuns e tocam muito no meu Ipod, por isso nessa segunda-feira quando fui convidado para assisti-los ao vivo no Bourbon Street ( uma casa aparentemente pequena para o som furioso dessa Big Band ) não resisti. E me dei bem. Adjetivos politicamente corretos não cabem aqui então vamos sujar esse texto: um show do caralho. Um som muito fodaaa. Sem espaço para palmas e zero de respiro entre as canções, eles fizeram um show de gente grande onde constatei que as bandas dos anos noventa que beberam nessa fonte não chegam nem aos pés desses ainda brilhantes meninos. As intenções das canções políticas dos primeiros álbuns como Alagados de 1986 e O Beco de 1988 estão de pé e continuam a fazer refletir. A alegria de Vital e Sua Moto de 1983 e Óculos de 1984 ainda não deixam ninguém ficar parado. E tem mais: a bateria insuperável de João Barone, o baixo eletrizante de Bi Ribeiro e o pequeno grande naipe de metais que complementaram o grande show de ontem à noite.
Música pop para as grandes massas ainda é feita por aqui por gente com mais de quarenta. Que o digam os Paralamas do Sucesso, Nando Reis e Arnaldo Antunes. Um orgulho para a minha geração. Uma vergonha para os mais novos.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
A Voz de Uma Pessoa Vitoriosa
|
|
|
|
|
|

E foi numa tarde dessas que o Fause me ligou e disse: vou cantar no meu desfile. Não demonstrei surpresa mas ao desligar o telefone desmaiei. E agora ? Terá ele algum talento para a música ? Como enfrentar um amigo que sonha se ele estiver cometendo um erro ? Não tive muito tempo para refletir sobre tão difíceis temas porque a campainha já estava tocando com ele na minha porta pedindo sugestões e opiniões. Claro que sabendo de nossas afinidades com o drama e as dores de cotovelo, corajosamente sugeri logo uma Maysa. E ele não se intimidou: ali na minha frente, sem refletor nem acompanhamento, cantou seguro e natural. Em sua emissão vocal reconheci a estranheza de Scott Walker e o lirismo de Leonard Cohen, o que me surpreendeu e emocionou. Meu alívio de ver um talento nascer e não sofrer com a inevitável franqueza que teria que ter caso aquele momento fosse constrangedor, nos levou a um forte abraço.
E chegou o dia: sentado como um mero convidado anônimo e posicionado de frente para o tablado em que ele estava cantando, assisti seu desfile no São Paulo Fashion Week acontecer ao som de duas canções de Michel Legrand. O impacto que me causou me fez encontrá-lo na saída e dizer à queima-roupa: “O sonho não acabou. Agora vamos para o palco”. E ele obedeceu. Aproveitando a forte repercussão que causou na mídia, tivemos pouco tempo e muito o que fazer até o dia da estréia. Virei diretor de cena, iluminador e roteirista e ele um cantor, produtor e figurinista.
O repertório do show não foi extraído de extensas pesquisas e discografias . Foram canções eleitas por dois corações. Fause, um apaixonado pelas artes, sempre teve em mim um forte aliado: assistimos a quantos espetáculos nossas agendas possam suportar, varamos noites lendo livros para depois indicarmos um para o outro e ouvimos música. Muita música. Inicialmente pedi a ele uma lista sem pudores ou preconceitos, que seguisse apenas a sua intenção de cantar, e foi a partir dela que comecei a esboçar um roteiro que pudesse misturar Alanis Morissette, Supertramp e Kings of Leon numa possível sequência lógica. Depois a cena: como Fause se comportaria no palco ? Estaria atrás de um personagem dramático ou enfrentaria o público de cara limpa ? Depois de muito pensar optamos pela segunda escolha mais coerente e emocionante. E mais difícil. Pensamos em vídeos que ilustrassem as intenções das músicas como pano de fundo. Descartamos. Pensamos em cenários. Dispensamos. Apenas uma luz grave sobre caixas pretas empilhadas de forma desordenada. E finalmente a estréia: interpretando canções de métricas gigantes, totalmente exposto e de cara limpa, Fause chegou ao fim do primeiro espetáculo com a calma dos que sabem seu destino e a consagração dos veteranos: ser estilista é um dom que lhe foi ofertado pelos deuses, cantar era agora um ofício escolhido por um obstinado em encontrar novas formas de expressão.
Decidimos fugir das grandes expectativas impedindo a cobertura em sites e jornais. Naquelas primeiras cinco noites estiveram ali seus amigos e clientes que tiveram todo o tipo de emoções: choraram, aplaudiram, dançaram e cantaram junto com ele. Foram cinqüenta pessoas por apresentação. Muito para quem até o início do ano nem sonhava com isso. Pouco para quem sabe que agora é seguir em frente. O show foi gravado para se transformar em DVD e CD e poder finalmente alcançar um grande público. Que ele merece. Que nós desejamos.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Quem Sabe o Fim Não Seja Nada E A Estrada Seja Tudo
|
|
|
|
|
|

O mundo anda cada vez mais veloz. E eu atrás dele tentando ver, ouvir e ler tudo que supostamente possa me interessar. E apesar de estar sempre atento e forte, tem coisa boa que chega atrasada aqui em casa. Apenas o Fim é um belo exemplo. Filme premiado e cultuado em seu lançamento, passou desapercebido por mim. E foi numa dessas tardes que uma cópia do filme caiu na minha mão. Sem saber de nada peguei meu chocolate e liguei a TV. E me apaixonei. E quis namorar novamente, estudar na PUC, jogar vídeo-game e ter um tênis All Star. Possibilidades que a minha já avançada idade não permitem mais e que o filme traz de volta. Uma história de amor complicada (como todo o amor de juventude) longe de um final feliz mas cheio de bons momentos relembrados pelos protagonistas nas últimas horas antes do juízo final (outro nome para o que chamamos separação) . Erika Mader e Gregório Duvivier, dois atores que eu não conhecia, mostram competência e naturalidade nos diálogos baseados no pânico da falta de assunto que nos faz inventar banalidades para não deixar o silêncio invadir uma relação.
E lá fui eu atrás de informações no Google: o diretor se chama Matheus Souza e só tinha...20 anos (!) quando fez o longa. Misturando confusões sentimentais e existencialistas como um Woody Allen, um Truffaut ou um Domingos de Oliveira, Matheus monta um jogo cênico sincero de dar inveja a muito cineasta veterano. A trilha sonora é um clássico para quem, como eu, tem um Ipod romântico: os novíssimos Clarice Falcão e a banda carioca Brisa misturados a Marcelo Camelo e seus Los Hermanos. As citações do filme também são uma delícia formando um tabuleiro de referências : Pokémon, Strokes, Bússola de Ouro e outros apegos de quem nasceu depois dos anos oitenta. Fora isso, nos diálogos, os personagens demonstram um atitude intelectual surpreendente e fora dos previstos chavões quando o assunto são meninos e meninas do Rio.
Para Caetano Veloso que em 1968 perguntava “que juventude é essa? ” Matheus Souza e seu filme parecem ser uma boa resposta em 2010. Um clássico para a segunda idade.
"Viver é como jogar detetive. Você sabe que alguém vai morrer no final mas o legal é ir explorando o tabuleiro"
"O lado bom de morrer de amor é que você continua vivo"
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Me Alivia a Dor
|
|
|
|
|
|

Hoje acordei com o coração na boca. Finalmente um projeto que eu acompanhei tão de perto chega aos meus ouvidos: Cantos e Contos de Zizi Possi, dois DVD"s gravados em noites encantadas aqui em São Paulo onde Zizi trocou alma e matéria com algumas raízes de seu trabalho: João Bosco, Edu Lobo, Alceu Valença, Roberto Menescal e as supostamente improváveis Alcione e Ana Carolina que, para olhares de primeira viagem, parecem longes do seu trabalho mas nunca estiveram tão perto como nessas apresentações. Zizi comemorava ali também os seus trinta anos de carreira, uma trajetória que começou firme e com muita repercussão ao lado de Chico Buarque na inesquecível gravação de Pedaço de Mim.
Eu me apaixonei por sua voz e inteligência desde o primeiro disco. Fui aos seus primeiros shows no Rio de Janeiro e vi sua moeda virar no início dos anos noventa quando abandonou o pop das rádios que a levaram ao grande estrelato e virou uma das maiores cantoras do Brasil em todos os quesitos: escolha das letras, uma presença de palco soberana e uma afinação de não se esquecer. Há alguns anos atrás minha vida se cruzou com a dela em forma de presença física e apesar de termos ficado irmãos e camaradas, nunca deixei de ser aquela criança que tanto a admirava. Nesses nossos encontros fiz o que pude: a encorajei a voltar para o centro do palco e tomar de volta o que era seu, inicialmente em três noites no Sesc Pompéia onde, competente e soberana, apresentou três repertórios diferentes que foram aclamados por lágrimas e pétalas de flores de todos os presentes. E depois, quando todos ao seu redor, lembraram que existia uma data a celebrar: sua carreira estava para completar um número redondo e significativo. E foi assim que Zizi se lançou na aventura de fazer doze shows diferentes e com diversos convidados. Para cada performance um ensaio diferente. Um novo repertório. Um novo figurino. O mesmo diretor: José Possi, sua alma gêmea em todos os sentidos. E ela foi à luta. Pensou em desistir. Todos gritaram não. Finalmente o primeiro dia. Todos gritaram sim. E finalmente agora, dois anos depois, esse som entra pela minha casa e atinge meu coração me levando a loucura da mais sincera emoção. Insanidade do bem. Está tudo aqui: a delícia física dos encontros, a força sobrenatural das misturas de vozes entres esses talentos brasileiros tão nossos. Sua filha Luiza, agora mais linda madura e pronta para enfrentar os perigos de mãe e filha num palco. Eduardo Dusek levando seu humor para o canto tão compenetrado de Zizi e outras lembranças de ouro dessas noites memoráveis que você vai descobrir sozinho porque mais eu não falo. Tenho mais o que fazer: a grande cantora do Brasil está de volta e minha alma e meu corpo precisam descansar. De felicidade e orgulho. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Os Primeiros Capítulos
|
|
|
|
|
|

Numa dessas tardes de MySpace encontro Thiago Pethit e logo pressinto as diferenças: canções sem pressa de acontecer, letras diretas e o silêncio inteligente de poucos arranjos. Constato também a forte afinidade musical com a cantora Tiê que não saiu dos meus ouvidos no ano que passou. E de repente tudo faz sentido: Thiago é alma masculina de Tiê. Juntos fazem a nova canção jovem brasileira bem distante dos sambas e rocks barulhentos que costumam imediatamente dar certo no Brasil. Corajosos em procurar uma outra turma musical , os dois trazem para o Brasil referências dos velhos cabarés alemães e o perfume dos pequenos cafés parisienses. Tudo isso associado a um minimalismo moderno, sofisticado e universal que a nossa terrinha não está habituada. Por isso tive medo de encontrar um teatro com poucas pessoas nessa quinta-feira chuvosa e paulista. Meu engano me fez feliz: casa cheia com todos os presentes sintonizados com aquele som que vinha do palco. Servindo de cenário para Thiago e sua afiada banda, um delicado vídeo que divide o show em emoções e capítulos. E sua vida aparece ali: nervoso no início, concentrado no meio e ofegante de felicidade no final. Num determinado momento, sentado ao piano, ele surpreende com a inusitada Bad Romance de Lady Ga Ga, que em sua versão, poderia ser uma canção rara de Kurt Weill desconhecida por nós.
O primeiro sinal de Thiago no mercado foi um EP lançado em 2008 chamado Em Outro Lugar que já apresentava sinais de novidade e consistência. Mas é nesse,realmente primeiro disco, chamado Berlim, Texas que sua arte se faz madura para os ouvidos de todos. Seu francês, inglês e português estão em perfeita harmonia com as composições feitas de objetiva sinceridade. Suas intenções estão à flor da pele. E o público agradece de pé ao final do show sabendo ter visto um belo começo. Ao final saio do teatro com dois discos na mão: um para mim e outro para o meu amor. Que eu ainda não tenho mas que as canções de Thiago vão me ajudar a conquistar.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Um Gordo Alegra Muita Gente
|
|
|
|
|
|

Jô Soares para quem nasceu ontem é o nosso David Letterman. Para quem nasceu há dez mil anos atrás, foi um dos maiores humoristas que o Brasil já teve. Ao lado de Chico Anysio, outro patrimônio nacional do riso, Jô ocupou durante muitos anos o horário nobre da televisão brasileira. Aproveitando-se das eternas falcatruas políticas e as ironias do nosso povo, ele transformava tudo em piada e comandava o show, travestido de mulher, português, argentino, exilado, e outras personas mais, levando os espectadores a refletirem sobre o nosso país com muito humor.
Acabo de comprar a caixa de DVD’s chamada Viva o Gordo que cobre o período de 1981 ate 1987, quando foi ao ar a época de ouro dos personagens de Jô. Além disso nesses programas, foram revelados o talento de Claudia Jimenez e Claudia Raia e nomes do passado como as atrizes Henriqueta Brieba e Célia Biar voltavam à ativa. E valia tudo para o gordo: virar Alice no país das maravilhas, malhar na academia em roupas de lycra coloridíssimas, ficar de joelhos para virar um reizinho falido, colocar um pijaminha infantil e chorar que nem criança.
O Brasil nesse período havia recém saído da mordaça da ditadura para uma abertura política lenta e gradual, o jeito era fazer um humor dúbio e cheio de metáforas. Os textos eram afiados e cheios de significados que eram deliciosamente decifrados por nós durante os esquetes criados por Jô, estimulando um riso indignado e nunca raso.
O Brasil de agora tem outra graça. As palhaçadas de quem está no poder quase não fazem mais ninguém rir porque o povo está mais atento e menos calado. O silêncio lento e gradualmente, deixa de fazer parte da nossa história. Os humoristas de hoje em dia também mudaram. Um monte de mauricinhos que entra no palco e faz uma graça boba que, pelo menos em mim, não causa o menor esboço de sorriso. Os programas focados nesse assunto também viraram depressão. Quando não estão constrangendo algum famoso em porta de evento, estão comendo porcaria e vomitando na cara do telespectador. Mas tudo bem. Sem saudades. Fazer humor é ser um cronista do seu tempo, e o tempo é esse agora. Talvez aquele momento difícil no Brasil gerasse um esforço cultural maior e hoje que estamos numa fase mais madura e contestatória o humor que nos sirva seja o sem conteúdo, mais conhecido como bobagem. Mas esse texto não é para isso. É para Jô Soares e seu talento incomensurável. Para você que não vai para cama sem ele, ao acordar compre o DVD Viva o Gordo. Vamos continuar a rir no país da piada.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Eu Desperto Porque Tudo Cala
|
|
|
|
|
|

Essa semana só deu Beyoncé. Em qualquer canal de televisão, em qualquer site de fofoca a negona poderosa veio para ficar na mente e no coração de todos os brasileiros. Mas uma coisa não me caiu bem: a presença de Ivete Sangalo antes do show nas cidades de São Paulo e Salvador. Tendo sido a sua produtora Caco de Telha uma das realizadoras dos shows no Brasil, Ivete noticiou desde cedo a confirmação de Beyonce nos palcos daqui.
Ivete Sangalo é uma rainha. Quer você queira, quer não. Não se via uma unanimidade assim desde que Xuxa resolveu cuidar dos baixinhos. Além de uma grande artista de palco Ivete soube manipular (no bom ou no mau sentido, você pode escolher) seus súditos levando todos ao Maracanã onde lotou cada espaço em branco daquele estádio. E o que eu vi essa semana foi a sensação de uma iniciante ocupando o espaço de uma grande estrela. Não podendo usar suas dimensões usuais de palco e nem sua cenografia habitual, Ivete ficou na frente do cenário da big star fazendo um show que inicialmente duraria um certo tempo e que foi reduzido no decorrer da apresentação. Não sou um grande fã de Ivete nem faço parte de sua caravana de festeiros, mas tenho orgulho do que ela conquistou como artista como qualquer brasileiro. Ver sua exuberância no mesmo palco onde Madonna, Paul McCartney e Tina Turner pisaram é de arrepiar. Por que Ivete não ficou no seu lugar de rainha soberana e assistiu a tudo de um belo camarote confirmando sua nobreza como artista e confirmando seu talento também como empreendedora de eventos ?. Para Wanessa Camargo ainda em estado de definição de carreira tudo foi lucro. Um sonho realizado mesmo com as impossibilidades estruturais . Mas Ivete não deveria ter se exposto diante do tal primeiro mundo que sempre oprime os daqui mesmo quando usufruem do nosso país em todos os sentidos . Pensei em Roberto Carlos. Quando Frank Sinatra veio ao Brasil e arrastou multidões para o seu show, o nosso Rei não saiu de seu trono em nenhum momento. Não deu declarações e nem sequer cogitou passar perto daquele palco. Claro que se o Sinatra tivesse feito um convite oficial convocando sua participação talvez a reação de Roberto fosse outra. Mas em hipótese alguma ele se manifestou. Eu juro que esperei até o ultimo show de Beyoncé por aqui na cidade de Salvador para escrever esse texto porque tinha uma esperança lá no fundo que na terra onde Ivete é uma deusa mais do que rainha, as coisas melhorassem. Quem sabe uma canja no final do show ? Quem sabe uma foto no palco juntas ? Quem sabe ? Mas nada aconteceu. Uma tristeza. Quem sou eu para julgar as estratégias de uma gigante do marketing como Ivete mas como brasileiro que a admira não quis ficar calado. E aqui está o meu grito. Tomara alguém ouça.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Diamante Negro
|
|
|
|
|
|

Ser cantora no Brasil não é novidade. Ser cantora e negra no Brasil é uma dificuldade.
Conhecido por adorar todas as vozes femininas independente de cor, raça ou credo, procuro usar minha opinião sempre para exaltar as esquecidas pelo mercado ou as que ainda estão a espera da grande oportunidade. Para as consagradas deixo a grande massa e a mídia que adoram levantar a bola de quem já é vitorioso. Essa semana finalmente veio para as minhas mãos (com muita dificuldade porque a distribuição de livros fora do círculo mainstream também é difícil) o livro Solistas Dissonantes de Ricardo Santhiago que traz como tema um assunto inesperado : as cantoras negras brasileiras. E minha emoção não se ocupou de outra coisa nesses dias.
Cada vez mais acostumados a só termos notícias de carreiras vitoriosas, turnês milionárias e muitos discos vendidos, o livro é um soco no estômago de quem pensa que para se chegar lá é preciso somente ter talento e sorte. Os depoimentos colhidos por Ricardo Santhiago são de dor, batalha e muitas dúvidas diante das impossibilidades que uma carreira artística pode apresentar. Com certeza de todos eles o da cantora Ivete Souza e suas aventuras pelo mundo afora para se impor como artista é o mais contundente.
O livro traça um painel irônico do nosso país. Afinal qual é a cor da raça Brasil ? Se a predominância está bem longe do branco porque sempre negamos nosso sangue negro ? Por que os preconceitos continuam a surgir de todos os lados ? O livro não responde o que nunca saberemos mas põe na mesa diversas questões pertinentes a quem, como eu, é um apaixonado pelo assunto:
O samba é a única saída no Brasil para uma cantora de pele preta ?
Após a chegada da grande oportunidade, que caminho seguir para não cair no esquecimento?
Qual a idade limite no mercado brasileiro para se desistir de um sonho depois de uma luta incansável que até agora não deu em nada ?
O Brasil aceita diferenças ou quer apenas repetir incessantemente modelos vitoriosos ?
Algumas cantoras citadas no livro surgiram um dia na minha vida e continuam em evidência nas prateleiras da minha casa. Falo de algumas aqui:
Adyel Silva – Cantora que chegou tarde ao mercado de discos no Brasil atrasando o meu desejo por sua voz ímpar e seu repertório bem longe do óbvio. Procure por Chic da Silva, seu disco tão batalhado por ela e desejado por nós, seus ouvintes.
Alaíde Costa – Dispensa comentários que eu aqui vou insistir em fazer. Para quem não conhece seu canto uma comparação com o mundo lá de fora: Nina Simone. Uma voz diferenciada e intensa. Alaíde é o maior exemplo de que ser uma cantora negra no Brasil não significa música animada de festa. Dona de um repertório intenso e recheado de dor, Alaíde é para poucos e bons. Que pena. Ainda bem.
Arícia Mess – Seu primeiro show é de 1993. Seu primeiro disco é de 2000. É da turma de Pedro Luís e veio junto com a revolução que A Parede trouxe para o som do Rio de Janeiro. Mistura funk, soul, reggae e samba com uma visão única. Sua presença no palco também não deixa dúvidas.
Áurea Martins – Foi minha vizinha no bairro de Copacabana no Rio de Janeiro. Me viu crescer e eu acompanhei de perto sua trajetória como crooner pelos bares cariocas onde sempre foi considerada a melhor. Apesar de seu início de carreira ter sido ainda nos anos sessenta somente em 2003 Áurea consegue gravar seu primeiro disco.
Eliana Pittman – Dois estigmas opostos atravessam sua vida : filha de importante músico de jazz (Booker Pittman) e a rainha do carimbó nos anos 70. Dessa mistura nasce uma cantora de voz pequena e muita presença cênica.
Rosa Marya Colin – Aqui em casa sempre foi simplesmente Rosa Maria, e assim sempre será. Uma fera no quesito Gospel & Blues. Teve a infelicidade (?) de ter feito muito sucesso com uma regravação de Califórnia Dreaming para um comercial de televisão. Nunca mais teve sossego para ser livre e dona de seu repertório.
Leila Maria – Assim como Rosa, padece do preconceito de ter competência para um repertório internacional distante dos sambas. Com um registro vocal que nos remete imediatamente ao timbre de Billie Holiday, Leila já fez três discos de temas distintos mostrando sua versatilidade como cantora.
Zezé Motta – Talvez a mais bem sucedida das artistas citada no livro. Apesar de hoje em dia não causar mais a forte impressão de seu início de carreira com o filme Xica da Silva e seu primeiro disco solo que revelou com firmeza seu talento de cantora, Zezé mantém sua arte de pé, mesmo emprestando sua força, quase que somente, a personagens mornos de televisão
Virginia Rosa – Chegou ao mercado pelas mãos de Itamar Assumpção e hoje mantém com pulso firme seu trabalho individual. Dona de uma voz extensa e figura sedutora no palco, Virgínia luta diariamente pelo que deveria vir de graça : afirmação de sua competência e sensibilidade como cantora negra brasileira.
E por falar nisso....
Salve Virginia Rodrigues, Mart´nalia, Evinha, Sandra de Sá, Daúde, Elza Soares, Tânia Maria, Alcione, Rosa Passos. E você continua a lista daí.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Com a Boca No Mundo
|
|
|
|
|
|

Minha vida cultural é um balaio de gatos. Tudo ao mesmo tempo agora: livros nos olhos, discos na mãos e imagens na cabeça. Claro que diante desse excesso, coisas fundamentais escapam ao meu campo de visão e junto com elas (graças a Deus) muita bobagem. Essa semana passando os olhos por uma reprise do programa Sem Censura e vi o rosto de Pedro Cardoso, um dos maiores atores de sua geração.
Imediatamente me lembrei da polêmica em torno de seu manifesto contra a pornografia na arte brasileira um assunto que gerou um patrulhamento perigoso contra a sua pessoa. Confesso que assisti a tudo de longe pouco me envolvendo com o assunto por isso fiquei atento a esta sua entrevista dada a Leda Nagle no ano passado e que estava sendo reprisada essa semana. Fiquei louco. Louco de orgulho desse ator que mantém de pé suas idéias com um discurso brilhante. Louco com alguém que ainda consegue ser indignado nessa país de atitude chapa branca que estamos virando dia a dia.
Pedro Cardoso não quer pouco. Quer respeito para a sua profissão de ator. Quer acabar com a cultura de celebridades e pouco talento. Quer que os fotógrafos de bairro onde reside gente famosa sejam processados por uso indevido de imagem. Quer que um diretor de pouca ou nenhuma formação seja impedido de dar ordens ditatoriais a atores, tornando esse oficio um exército de soldados debaixo de um general sem farda. O que ele reivindica pode causar bifurcações: diretores exaltados, atores mudos e assustados, sites de celebridades enfurecidos. Tudo isso não vem ao caso nesse texto aqui. O que me empolga e apaixona é a capacidade de gritar e poder contestar, sentimentos que Pedro despertou novamente em mim. Uma fúria pelos seus direitos que nos dias de hoje tornou-se exceção.
Todos querem colocar celebridades de 15 minutos no poder porque geram dinheiro, polêmica e beleza mas o que fazer com elas quando caem em desuso ou se mostram visivelmente sem talento? Ninguém sabe e se sabe não convém falar. Um caso nítido tem sido a fugaz fama de Jesus Luz um rapaz que teve a sorte (?) de ter virado namorado de uma das maiores estrelas do mundo pop chamada Madonna. Toda vez que esse rapaz está para fazer alguma ação, todos os sites e revistas correm para anunciar. Após o acontecimento quando os jornalistas finalmente vão expor sua opinião pessoal, Jesus é ridicularizado ou ironizado. Ele não tem culpa. É fruto da super exposição mentirosa que a mídia criou em cima de sua pessoa, inventando talentos e currículos que não se sustentam. Então para que anunciar e divulgar ?
Fico impressionado com o silêncio consentido que vivemos. A imprensa ausente quando o assunto é polemizar ou criticar o estabelecido. O povo calado e aplaudindo o efêmero. Quem sabe Pedro Cardoso e seu grito parado no ar acabe com essa imbecilidade morna reinante ? Como diria Caetano Veloso ainda nos anos 60 : que juventude é essa que diz que quer tomar o poder ?
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Pega Só de Olhar
|
|
|
|
|
|

Não gosto muito de seriados de televisão. Tô mentindo. Eu adoro. O problema é que quando fico escravo de um deles, adeus meus cinco mil filmes que ficam me chamando da estante. Remexendo em algum site que agora eu não me lembro qual, encontrei a palavra-chave: Glee. Segundo essa fonte, a nova série era a sensação do momento e misturava musical com comédia de costumes. Pensei: lá vou eu. Pedi para um amigo viciado que me fornecesse a nova droga e nunca mais saí de casa até acabar . Claro que escolhi a hora errada: em plena temporada de Fashion Week em que só penso em música para colocar em desfile, só atendo estilistas, só ouço “corta essa, coloca aquela e o tema da coleção é.....”, fiquei feito umgordinho que come de madrugada: quando ninguém tava olhando corria pra televisão e dava o play em mais um episódio. O que Glee tem de diferente ? Nada. O seriado Fama nos anos oitenta já mostrava um colégio cheio de artistas esperando uma oportunidade. O humor ácido e negro da série também não é novidade: Six Feet Under já fez isso muito bem. O segredo tá na mistura: ver um personagem gay dublando Single Ladies de Beyoncé para ganhar uma partida de beisebol, uma líder de torcida que diz para o namorado que ficou grávida numa banheira de água quente e uma japonesa querendo fazer o papel de uma porto-riquenha em West Side Story, é uma esquizofrenia irresistível. Outro foco sedutor são a seqüência de canções que aparecem ao longo da temporada em versões inesperadas e com coreografias geniais.
Já faz algum tempo que ando reparando na mudança do gosto da classe média americana quando o assunto é série de televisão. Nos anos setenta esse formato vendia um american way of life perfeito: personagens bonzinhos em histórias tolas e românticas. Hoje em dia blockbusters como The Sopranos, Hung e In Treatment, mostram que o público quer ver sua realidade na tela. E Glee não foge disso: por trás de uma falsa leveza, as feridas do país ficam expostas. A hipocrisia, a sexualidade mentirosa e os hábitos politicamente incorretos estão todos ali, é só prestar a atenção. É por isso que agora eu vou parar de escrever e começar a ver Glee. Eu sei, já acabou essa temporada, mas o que fazer ? Vou começar tudo de novo.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Eu Não Existo Sem Nana
|
|
|
|
|
|

Não existe uma grande cantora que seja feliz. Essa frase de Nana Caymmi fez completo sentido quando seu show começou nessa sexta-feira no meio do palco de um Sesc Pompéia lotado. Nana atravessou a dor ao longo de um repertório que se mistura com a sua vida, indo de Tom Jobim a Cristóvão Bastos (compositor de Resposta ao Tempo que deu a ela seu primeiro disco de ouro e também o permanente arranjador de seus discos).
Retirada dos palcos há algum tempo em decorrência da morte quase simultânea de seus pais, Nana há dois anos se recusava a voltar. Além dos motivos pessoais alegava a falta de necessidade de gravar discos para um mercado em extinção. O que vimos nessa noite de sexta feira aqui em São Paulo foi uma cantora em grande forma dando um banho em qualquer nova intérprete que tenha supostamente surgido no Brasil. Apesar de falar em aposentadoria várias vezes no palco, Nana ainda tem muito o que dar aos seus seguidores. Uma platéia cheia de jovens atestava isso, e apesar de um “machista” Dorival (como ela carinhosamente o chamava) dizer que nunca houve melhor intérprete de suas canções que ele próprio, o show comprova mais uma vez que ela, sim, é sua melhor tradução. Dora e Marina (duas musas de Caymmi sem crédito especifico) são enaltecidas definitivamente pelo canto de Nana, a primeira de forma arrebatadora e forte, a segunda de forma intimista e sofrida.
No primeiro bloco acompanhada somente pelo piano de Cristovão Bastos, Nana resgata um repertório que traz Tom Jobim e seus parceiros (Por Causa de Você e Foi a Noite) e após a forte homenagem a seu pai, Nana passeia com intimidade pelos boleros (Escribeme e Sangre de Mi Alma) que começaram a habitar a sua vida quando foi casada com um medico venezuelano ( “uma bobagem, como toda a primeira vez” decreta ela no palco) e chega até a novíssima Contradições de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc lendo a letra sem perder a emoção. Ao final flores caíram aos seus pés jogadas por um público certo de que aquela não seria a última noite com Nana. Quem sabe a primeira de uma nova era onde o amor cantado por uma grande voz voltaria ao seu lugar. O primeiro.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Música Doce Chamando O Meu Nome
|
|
|
|
|
|

Só existe um cantor na minha vida que vale por mil mulheres. Seu nome é Cauby Peixoto. Apesar de minhas preferências musicais terem como foco principal os anos setenta e pouco me identificar com a música feita no Brasil anterior a este período (mesmo reconhecendo o seu valor),
Cauby chegou cedo aos meus ouvidos. Cantor das multidões na era do rádio, um mito comparado a Elvis Presley com direito a roupas rasgadas e gritos histéricos, ídolo de estereótipos e exageros com um repertório irregular focado no comercial, ele sempre foi o preferido da chamada ala intelectual da MPB: Caetano e Bethânia continuam devotos, Chico Buarque entregou uma canção inédita e Elis Regina trouxe seu talento de volta quando o Brasil parecia esquecer sua importância. Ontem um amigo pouco conhecedor de música brasileira inesperadamente me pediu: “eu quero ver o Cauby e os ingressos estão esgotados!”. Foi a comprovação final: Cauby é imortal e desperta curiosidade em qualquer geração. Mesmo que você nunca tenho ouvido falar num disco de 78 rotações. Mesmo que Conceição não passe apenas de um nome de mulher. E lá fomos nós. Para completar o inesperado, outro jovem curioso se juntou a nós (dessa vez com 23 anos!). Pressenti que haveriam problemas de tédio e desinteresse durante o show mas já era tarde. Chegamos ao Sesc Vila Mariana que sinalizava o caos na entrada: fila gigante para estacionar, fila enorme para entrar. E tinha de tudo: todas as nacionalidades, todas as idades, todas as etnias. Até um garoto vestido e maquiado como Cauby eu vi. Cada vez que a campainha do teatro soava indicando o início do show, um grito geral ficava parado no ar e quando, ainda com a cortina fechada, se ouviu a voz do mestre entoar a primeira canção o orgasmo foi geral e os gritos ensurdecedores. Uma espécie de Ivete Sangalo num jogo do Flamengo. No centro do palco surge sua figura: de paletó dourado, um imenso camafeu no lugar da gravata e um lenço branco na mão. É demais prá mim. É demais para todos. Meus dois amigos aplaudem freneticamente e suspiram fundo a cada canção, afinal ali naquela noite estão reunidos dois grandes motivos de emoção: as canções de Roberto e a voz de Cauby. Mas vamos ao início de tudo
Era uma vez um garoto que amava as cantoras do rádio e tudo que no passado foi glória. Ídolos que outrora arrastaram turbas enlouquecidas e que hoje todos esqueceram. Por onde andava Maria Alcina ? Wanderléa ainda estava cantando ? Célia e Claudette Soares conseguiriam gravar novos discos ? E Cauby ? Cadê o Cauby ? Essas respostas me foram dadas por Thiago Marques Luiz de apenas vinte e nove anos que descobriu a pólvora: por que buscar incessantemente o novo se o passado ainda batia na sua porta e esperava por novas oportunidades para mostrar seu valor ? E assim tem sido. Thiago não sossega enquanto não vê esses talentos voltarem ao seu lugar merecido e produz, através da gravadora Lua Music, discos incessantes. Mas dessa vez ela havia sonhado alto demais. Roberto Carlos é conhecido por ser um rei também no campo das impossibilidades autorais. Já fez muito cantor chorar ao negar autorização de uma gravação de sua obra. Cauby, apesar de ainda estar com a voz no auge de sua potência, não é mais criança para sofrer tamanha decepção e recusa, eu pensei. Mas o produtor Thiago Marques não mediu obstáculos e feito um cego apaixonado se jogou no projeto e o improvável aconteceu: Cauby canta Roberto virou disco. E show.
Foram muitas emoções vividas naquela uma hora que passei no teatro: pessoas em transe aplaudindo de pé ao final de cada canção, vozes no escuro chamando seu nome, até chegar o final da jornada quando ele finalmente se levantou da cadeira em que esteve sentado durante todo o show. Aí não deu mais pra segurar. Explode coração. Músicos emocionados e rostos encharcadas de lágrimas de agradecimento e comoção. Ali mesmo no palco, Cauby deu autógrafos, recebeu flores e tocou em milhares de mãos. Na saída, molhado de suor e pranto, ainda fui arrastado para o camarim. Meus amigos tremiam mais que eu, que agora já não reagia mais, deixava a vida me levar. Quando a porta se abriu, me joguei aos seus pés e disse o que estava preso na garganta de todos naquela noite:Cauby, eu te amo. Você é o maior cantor do Brasil.
Lá fora o mundo seguia igual. Eu não era mais o mesmo.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Astuto e Perspicaz
|
|
|
|
|
|

O que é colunismo social ? Uma necessária futilidade que existe desde que o mundo é mundo e da qual hoje em dia poucos escapam. Todos querem virar notícia, e quem nada consegue, procura pela vida de quem chegou lá. Por trás de toda a fofoca existe quem a publica e no Brasil existiram mitos inesquecíveis nessa área: de Stanislaw Ponte Preta a Carlos Swann passando por Jacinto de Thormes chegando até ao polêmico Ibrahim Sued.
Hoje em dia com o crescimento sem regras dos sites de fofocas a figura do colunista e suas excentricidades ficaram para trás. Eu sinto saudade daquelas figuras que nós identificávamos por trás das notas publicadas: a bizarrice intelectual de Ibrahim Sued e seus erros de português transformados em chavões, a elegância de Zózimo Barrozo do Amaral transparecendo em sua coluna diária no jornal, e o humor Pré-Casseta & Planeta de Sergio Porto. Era uma delicia ler os textos desses estilistas da palavra e reconhecê-los em cada linha. Claro que encontrá-los na rua ou numa festa poderia provocar a ira de leitores enfurecidos causando agressões físicas e socos verbais, transtornos estes que os jovens anônimos que escrevem em sites hoje em dia jamais irão passar. Agora quando queremos reclamar de uma notícia falsa publicada, ligamos para a redação e o jogo de empurra-empurra começa: foi o editor que mandou, o chefe de redação que passou, ou alguém que está em horário de almoço que publicou.
Há pouco tempo um nome passou a freqüentar minhas rodas quando eu chegava no Rio de Janeiro sem que eu soubesse quem era: Bruno Astuto. Todos amavam . Segundo meus amigos não havia uma festa boa sem sua presença. E não foi preciso que ninguém me apresentasse, ele mesmo gritou a palavra-chave de aproximação quando nos encontramos: “véiaaaaa !” e quando reparei já éramos amigos de infância . E foi assim que Bruno conquistou a todos na cidade. Dono de uma coluna no jornal O Dia (supostamente popular demais para os círculos que ele freqüenta podendo causar preconceito, o que não acontece), Bruno trafega em todas: da casa dos Ramos Chateaubriand direto para o carro de Glória Maria. Da pista de dança da Noite Preta para a festa secreta de Madonna. Do High Society para o Baixo Leblon. Além disso sua imagem pessoal fortalece o mito: carinha de bebê feliz, muito bem vestido e sempre com uma bolsa feminina a tiracolo. Quer saber qual o modelo da temporada? Olhe para o braço de Bruno e você saberá qual comprar e arrasar na próxima estação.
Bruno não causa temor onde chega. Causa comoção. Todos querem beijar, abraçar e celebrar sua presença. Há pouco tempo fiz uma apresentação num shopping no Rio onde vários artistas foram convidados a participar e eu fui escolhido para chamá-lo ao palco. Parecia Fla-Flu: a multidão gritava seu nome em coro, provocando ciúmes em quem ainda não constatou o inevitável: Bruno Astuto veio para ficar. Chega de baixo-astral e queimação desnecessária para garantir um lugar ao sol como jornalista. Bruno Astuto tá aí para provar que você pode dar ao povo o que o povo quer sem se tornar o vodu da temporada. Sua coluna é alegre, maliciosa e inteligente como as antigas marchinhas de carnaval que um dia também foram consideradas as crônicas de um tempo.
Abram alas que lá vem Bruno Astuto ! De bolsa, é claro !
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Amar é Mover o Dom
|
|
|
|
|
|

Você sabe o que é tiete ? Tiete é uma espécie de admirador dizia a canção de Gilberto Gil. Mas afinal o que é ser fã ? Apaixonar-se cegamente por um artista e não ver nele sequer um defeito ou ter um olhar crítico e manter a chama acesa ? Tentar invadir a sua casa ou respeitar a sua privacidade ? Colaborar com seu trabalho mostrando coisas que o ajudem a enriquecer sua obra ou consumir seu talento em silêncio ? Com certeza me enquadro na ultima questão desse vestibular da paixão.
Sempre que o acaso me favorece e consigo me aproximar de meus ídolos (que não são poucos e quase todos mulheres) não perco um segundo sequer: levo para junto deles minha bagagem cultural e emocional. Faço avião e entrego letras para musicar. Mando por sedex filmes que talvez possam tocar aquela artista que eu amo. Indico livros que alimentem aquela alma iluminada que eu tanto idolatro. E não foi diferente com Zélia Duncan, cantora que há muito freqüentava meus ouvidos e coração. Quando tive o privilégio de invadir sua casa, entreguei todo o meu ouro. Em troca recebi a chave do cofre de suas canções inéditas.
Zélia é como eu: uma fã apaixonada. Faz sacrifícios por seus ídolos e musas inspiradoras. E foi assim que numa noite em Brasília ela chegou perto de Luli & Lucina. Você, infelizmente como muitos brasileiros, talvez não saiba quem foi essa dupla caipira e moderna que trouxe lindas canções ao mundo. Numa definição mais simples e apressada foi através de Luli que a voz de Ney Matogrosso tomou conta do país nos anos 70. Num ato profético foi dela a sugestão para que Ney integrasse o conjunto Secos & Molhados. O resto é história. Lucina, a outra face da moeda, também sempre foi uma compositora inquieta e naquela noite quando uma menina chamada Zélia Cristina entrou na fila para pegar um autógrafo seu após um show na Sala Funarte, mal sabia ela que uma nova parceira musical iria surgir anos depois.
Eu sempre fui louco por Luli & Lucina. Tinha uma colega no colégio que era vizinha de sítio das duas e toda semana trazia para a sala de aula fitas caseiras da dupla cheia de musicas inéditas. E eu copiava todas e ouvia tudo. Quando o primeiro disco de Zélia saiu no mercado, reconheci o nome de Lucina na ficha técnica e fiquei atento. Ali tinha coisa. E tinha mesmo. Naquele tempo a parceria das duas já rendia muitas canções. Verônica Sabino gravou duas: “Sem Suspiros” e “Fim”. Bellô Veloso registrou “Felicidade Torta”.
Na casa de Zélia conheci Lucina pessoalmente e minha paixão dobrou. De braços e coração abertos me recebeu e eu logo abusei: pedi canções por email e recebi todas Foi com Zélia também que vi esse novo disco de Lucina, “+ Do Que Parece”, nascer. As gravações caseiras já eram geniais, pareciam absolutas e irretocáveis. Ledo engano. Os arranjos do álbum realçaram ainda mais o encanto das canções. A poesia afiada de Zélia e a melodia de Lucina fazem um encontro único. Letras sob medida para baladas de fazer chorar. Ou rir. Duas mulheres tão diferentes. Verão e Inverno misturados numa única estação: a do amor. Então ser fã vale a pena. |
|
|
|
|
|
|
|
|
A Palavra Dá Prazer
|
|
|
|
|
|

Música não tem a menor importância prá mim. As letras contidas em cada canção, sim. Meu Ipod parece uma biblioteca: tá cheio de prosa e poesia. Música sem conteúdo está, desde já, excluída da minha estante musical. Por isso os hinos de verão, efêmeros e tolos, nunca me seduziram. Por isso quando estou correndo meus 10 km diários na esteira de uma academia, as canções são lentas e intensas, nunca alegres e de fácil digestão, muitas vezes atrapalhando o meu passo apressado de suor. Sou um compulsivo das grandes emoções e das músicas de amor. Pode parecer intelecutal e pretensioso de minha parte, mas assim minha alma foi formada. Diante de tudo isso, eu tinha certeza que o DVD do filme Palavra Encantada de Helena Solberg e Marcio Debbelian me levaria a um elevado momento de prazer. Não tendo tido a oportunidade de vê-lo na grande tela do cinema, agora minha casa seria o lugar da apreciação.
Misturando ícones da nossa música popular (Chico Buarque, Maria Bethânia e Adriana Calcanhotto) com nomes inesperados (Lirinha, B Negão e Ferrez) o filme é didático sem cansar, sedutor sem forçar desejos. A narrativa atrai você para um assunto que não costuma ser tema de discussão nas rodas porque em nosso inconsciente é um assunto encerrado: letra e música nascem juntas. E não é bem assim: o processo tem várias caras e formatos. Um poeta longe da música pode ser atraído para esse ofício como é o caso de Antonio Cícero, ou um roqueiro como Arnaldo Antunes ser compelido pelas evidências a lançar um livro. O filme esclarece esses dilemas e arrasta você para esse universo rico e cheia de nuances.
Às vezes me sinto solitário ao pensar cultura. Acho que em plena era de celebridades e tolices, ninguém esta mais interessado nisso. Para isso também sei ser fútil. Nada mais chato que se discutir cultura no lugar errado. Mas sinto falta. De pessoas para trocar informações sobre aquele disco que me tocou ou aquele livro que me encantou. Nessas horas meus amigos, cadê ? . Mas não desisto nunca: pego um táxi e vou ao cinema. Entro numa livraria e encho a mochila de importância. Coloco em meus ouvidos belas canções feitas de letras emocionantes. Atitudes solitárias que me levam para o paraíso que é ter uma bagagem cultural.
Freqüento todos sites de relacionamento e seus nomes bizarros (orkut, facebook e twitter) e ali me vingo da banalidade, passando dias inteiros postando frases de canções extraídas dos meus dois fones de ouvido pregados à minha orelha ininterruptamente como uma tatuagem, gravada a ferro e fogo: não passo um só instante sem eles. Como um áudio-book em eterno “play”, é dali que vem todo o alimento para a minha sensibilidade e inteligência. O filme “Palavra Encantada” fala disso, da poesia atrelada à canção e vice-versa. De como poetas e letristas se confundem, no bom sentido, quando o assunto é música. Todos um só. Todos por um. Corra prá ver. A poesia é prá comer.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Rita de Todos os Santos
|
|
|
|
|
|

Oxossi é caçador, Iansã, a rainha dos raios e Rita Ribeiro é a Deusa dos Orixás em seu espetáculo Tecnomacumba que este ano comemora seis anos atravessando os palcos do Brasil com um sucesso merecido e a confirmação de seu talento.
Nesse farto celeiro de vozes femininas que é o nosso país, algumas cantoras chegam ao seu lugar merecido nas listas de todos os críticos e formadores de opinião. Outras incessantemente buscam seu lugar ao sol. Rita Ribeiro trafega entre essas duas vertentes. Quando apareceu no sul maravilha, fez relativo sucesso e criou expectativas, unindo um visual próprio às composições de Zeca Baleiro, seu maior cúmplice musical. A cidade de São Paulo, seu ponto de partida, a recebeu de braços abertos. Imediatamente identifiquei em seu canto a força das grandes intérpretes. A escola de Clara Nunes e Elis Regina encontrava uma nova aluna. Ao mesmo tempo senti falta de uma agressiva ambição que a tornasse gente grande no mercado. Uma qualidade/defeito que torna hoje qualquer cantora de médio porte em estrela. E foi assim que vi a carreira de Rita ficar aquém das expectativas criadas pelos mais atentos.
Apesar de estar certo de sua força e diferença como intérprete, num primeiro momento meu interesse foi quase inexistente. Não me identificava com as letras escolhidas e impliquei com seu visual corajoso e inesperado. Meu primeiro contato não foi musical e sim pessoal e intransferível. Durante um sarau conduzido pela jornalista Patricia Palumbo, conheci Rita e me apaixonei por seu jeito doce e sem pressa de chegar. Entramos em sintonia imediata e passamos uma agradável noite juntos trocando impressões musicais. Mostrei a ela o que sabia de sua carreira e fui sincero no meu desinteresse, criando uma relação verdadeira e sem tensões. Ali naquele momento ela me informou de sua intenção de apresentar um trabalho que mostrasse o sincretismo religioso no Brasil, essa nossa louca diversidade para chegar até Deus, misturando todos os poderes. Queria unir pontos de umbanda e candomblé com canções de grandes compositores brasileiros focados nesse assunto. Além disso, a música eletrônica entraria como forte referência. Esse espetáculo se chamaria Tecnomacumba. Imediatamente minhas antenas captaram a importância e fiquei atento à sua estréia. E esse dia chegou. Numa noite lotada de pagantes e fãs no Sesc Vila Mariana vi surgir no palco um dos espetáculos mais empolgantes e fundamentais que pude ver na vida. Aquele visual forte que não me causara um espanto inicial, agora tomava conta da cena e era forte aliado de uma voz quente e rascante que comandava muito mais que um show: um culto profano e sagrado. Rita recebia todos os orixás no palco. Misturava a fúria e a doçura de todos os santos. Um terreiro elétrico e encantado. Ao chegar no camarim ainda transtornado, confundi poderes e pedi sua benção, misturando aquela vida real com a sabedoria de um deusa. Não dormi vários dias pensando no que havia visto e não sosseguei. Pedi seu endereço e bati na sua porta sem convite. Invadi sua casa em busca de algum registro do espetáculo. Rita entre serena e assustada cedeu sua voz para o meu remix de Cavaleiro de Aruanda que virou hino e invadiu as pistas.
E assim lentamente o espetáculo alcançou a glória. Atravessou o Brasil e ganhou fiéis e admiradores. Ney Matogrosso copiou suas idéias. Maria Bethânia dividiu o palco. Caetano Veloso fez texto de apresentação. Todo mundo dançou e louvou. Até que a necessidade de registrar esse fenômeno tornou-se inevitável. E junto com isso as dificuldades. Por não fazer parte das panelas que cozinham as grandes estrelas mentirosas, Rita penou entre o céu e o inferno para tornar esse lançamento possível, inicialmente um disco gravado em estúdio que perdia em energia para a força descomunal transmitida no palco. Crítica e público receberam o álbum com prazer, mas ainda era pouco para as minhas expectativas. Eu sabia que o grande impacto para os desavisados seria o encontro da imagem e do som. Um DVD que parecia nunca chegar. Finalmente, e mais uma vez, a brilhante iniciativa do Canal Brasil de apoiar a nossa música fez chover no sertão. Agora chega às lojas o registro do show e a consagração definitiva dessa força da natureza chamada Tecnomacumba. No último domingo aqui em São Paulo, diante de uma platéia reverente e incendiada, Rita apareceu no palco potente e consciente de sua vitória. Sabia que havia entrado para a história dos grandes espetáculos. Sabia que agora era uma estrela. Uma grande cantora brasileira.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Antes Que Seja Tarde
|
|
|
|
|
|

Meu ócio sempre foi preenchido pelo cinema. Um tempo na minha agenda e eu corro para as paredes da minha casa forradas de filmes que ainda não vi mas que eu levo fé que um dia verei. Essa semana assisti Jean Charles de Henrique Goldman e morri de orgulho. Orgulho de um filme sem pretensões e decididamente genial. Orgulho de um ator chamado Luis Miranda que apareceu no meu campo de visão pela primeira vez num projeto chamadoTerça Insana e que volta agora a me encantar em dois grandes momentos que confirmam o seu talento: o monólogo 7 Conto no teatro e o filme que comento aqui.
A crise no cinema nacional passou já faz tempo. Claro que como tudo no Brasil, a nossa sétima arte também é cercada de lamúrias. Diretores e atores continuam dizendo que estão à beira da falência, mas toda vez que chego numa locadora a prateleira tá bombando de novos filmes brazucas. Mais da metade não serve prá nada, prevísiveis e sofríveis. Além disso padecemos de um problema a mais: os atores no Brasil topam qualquer mico na televisão. Novelas e mini-séries abusam de personagens ridículos e explícitos que a maioria interpreta por um lugar ao sol. Quando vão para o cinema esses mesmos atores querem parecer interessantes e potentes, aí já é tarde demais, a credibilidade e o talento já perderam a força necessária. Tudo isso não acontece em Jean Charles. Tudo prende sua atenção: roteiro afiado, fotografia da melhor qualidade, Selton Mello num de seus melhores momentos como ator.
Quando decido ver um filme nunca corro para o jornal para ler a crítica ou saber o enredo. Fico literalmente no escuro. É delicioso ver um filme se revelar pouco a pouco e me envolver. Nada de influências de grandes nomes na ficha técnica ou consagrações assinadas por jornalistas. Portanto no caso de Jean Charles como de costume, eu não sabia que era baseado em um fato real, que o cenário era uma Londres realista e cruel e que um desfecho trágico me aguardava no final. Todos esses inesperados assuntos me deixaram profundamente emocionado e atento até o fim. Ao desligar a TV fiquei pensando porque esse filme não reverberou com a força que devia. Não foi assunto na minha roda de amigos nem ninguém me falou a frase lugar-comum quando o assunto é cinema: “você precisa ver. É o filme do ano”. Revirando minha memória, me lembrei que Jean Charles foi lançado ao mesmo tempo que uma comédia tola e fraca chamada Mulher Invisível que também trazia Selton Mello em seu elenco e que apesar de não ter importância nenhuma, foi divulgado maciçamente do Oiapoque ao Chuí. Luana Piovani semi-nua teria sido o motivo ? Pobre Brasil. Um filme como Jean Charles baseado num fato contundente como esse, em qualquer lugar do mundo seria assunto em todas as escolas, bares e afins e se tornaria um blockbuster imediato.
Jean Charles toca em feridas que deveriam ser discutidas à exaustão nas mídias especializadas daqui. A morte inesperada de um brasileiro em Londres de forma brutal e a questão dos imigrantes do terceiro mundo sonhando com uma vida melhor, já levam o filme para o posto de essencial. Agora ele está nas locadoras. Corra para lá e não se arrependa. Nem sempre existe vida inteligente no cinema nacional. A hora é essa.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
A Hora da Virada
|
|
|
|
|
|

Ana Carolina mudou. Prá melhor. A estréia do seu show ontem em São Paulo de frente para um Credicard Hall lotado demonstrou isso. Sua platéia também já é outra. Diante de sua rainha, mulheres enlouquecidas deram um tempo em sua histeria para novamente prestarem atenção no essencial que tanto idolatram. Ana chega ao palco em pleno vôo através de uma grua que a faz levitar sobre seus súditos cantando uma de suas esquecidas no tempo e mais belas canções, Que Se Danem os Nós de seu segundo álbum. Quando volta ao chão já é outra: seus marcantes cabelos cacheados e sua maquiagem pesada não estão mais lá, desfazendo um personagem que já mostrava sinais de desgaste. Claro que o preto ainda é a cor de seu figurino, mas seu rosto está mais real longe dos aparatos visuais de sempre. A banda concentrada no lado esquerdo do palco numa plataforma que os deixa distantes da intérprete, e o cenário que também acontece ao longe, deixam Ana Carolina mais exposta e por isso muito melhor. Definitivamente esse é o seu melhor roteiro de show. As canções se desencadeiam numa seqüência em que todas se justificam e se agigantam se comparadas ao passado ou ao resultado do seu mais recente álbum Nove. A escolha inesperada das músicas de outros autores também é certeira ao trazer para si o discurso sexual latente de Essa Mulher de Arnaldo Antunes e Odeio de Caetano Veloso, canções que se encaixam perfeitamente no perfil da compositora que traz consigo e em suas letras um perfil desafiador e sensual. A performance dos músicos em momento solo também é um dos melhores momentos do show ao trazer novos ares para a canção Bom Dia de Swami Jr imortalizada por Zizi Possi e que Ana consegue refazer com grande novidade. Seu já também conhecido medley de canções de sucessos apresentado de forma a parecer uma única canção, também é um dos melhores momentos, quando Ana mistura seu desgastado hit É Isso Aí com uma de suas mais brilhantes composições O Avesso dos Ponteiros, novamente sobrevoando o palco sobre uma platéia agora já incorporada ao espetáculo e aplaudindo de forma civilizada e consciente o que está diante de seus olhos. A solução encontrada para O Cristo de Madeira de seu álbum Dois Quartos com forte percussão e citação de Construção de Chico Buarque trazem novos e fortes significados para a canção num dos momentos mais aplaudidos do show. Ao cantar Corredores, uma forte chuva cai do teto do teatro fazendo impactante moldura para os versos que dizem:“quem visitou os corredores da minha alma soube dos meus erros e dos nós que fiz”. Os textos escolhidos também estão entre os melhores momentos do show e muito bem encaixados no roteiro podendo aparecerem no meio das músicas de forma inesperada ou como forte prenúncio de uma próxima canção. Ao final Ana aposta no óbvio com Rosas uma de suas piores músicas e de forte apelo popular. Ao estranhar a distância da turba enlouquecida, Ana chama para frente do palco seu exército que prontamente atende ao seu chamado derrubando mesas e quem mais se interponha entre eles e sua musa. Mas aí era tarde demais: Ana já tinha se revelado novamente potente e iluminada, concentrada em seu ofício ao longo de um show, que volto a dizer, aposta todas as suas fichas num repertório coeso e inteligente, trazendo novamente um olhar atento para sua carreira, que dez anos depois de um inicio de não se esquecer, um meio duvidoso e um final que parece ainda longe de se aproximar, merece as glórias que desfruta
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Toda Forma de Amor
|
|
|
|
|
|

Essa semana, ainda resgatando para um novo aparelho o repertório do meu perdido Ipod com mais de 6 mil músicas, cheguei até Lulu Santos. Que sua música é a biografia de todo o jovem brasileiro não é novidade. Que não existe pista de dança sem um hit seu, minha profissão de DJ já tá cansada de saber. Mas existe um dado a mais que eu confirmei vasculhando sua obra por completo: a poesia de Lulu Santos é afiada e certeira. O ritmo animado, predominante em suas canções, talvez obscureça o letrista genial que ele é. As melodias se encaixam tão perfeitamente em seus rocks e baladas que todos cantam no chuveiro, na praia e no carro sem se darem conta de seu preciosismo.
Longe de ser um segundo escalão dentro da nossa história musical, Lulu Santos ao mesmo tempo não é considerado um ícone da casa real como Caetano Veloso e Chico Buarque, que além de serem idolatrados ainda são considerados grandes compositores. Isso se deve ao fato de que a música pop na cabeça da grande maioria sempre rimou com o descartável e o superficial, sendo o mercado o principal culpado fazendo sempre questão de acentuar essa falsa verdade com a cada vez mais pobre música jovem brasileira.
Lulu sempre arrastou multidões aos seus espetáculos que são transformados em grandes karaokês tamanha a força do coro popular entoando todo o seu repertório do início ao fim. Mas a minha sensação é de que ninguém repara no brilho de suas letras. Ninguém aprecia com a devida atenção seu jogo de palavras misturando humor, inteligência , sutileza numa mistura fina e exata que o coloca sim entre os principais compositores desse país.
Indignado e louco para confirmar essa minha tese juntei um grupo de amigos e li para eles algumas frases retiradas de alguns sucessos de sua carreira. Eu estava certo: ninguém havia prestado atenção nas frases cantadas desde sempre por todos. Ficaram pensativos e com um remorso no olhar. Missão cumprida.
Agora parto para a segunda etapa e repasso aqui, para você que me lê, algumas dessas frases que confirmam o que eu disse até agora. Veja quantas letras você havia reparado que eram geniais e quantas estavam no seu inconsciente sem a devida atenção. Boa viagem.
“O amor devia ser proibido porque é uma droga pesada, e se a pessoa tá viciada ela faz qualquer coisa por um papel de afeto”
“Não há lógica que faça desandar o que o acaso decidir”
“Mesmo após um dia intenso não devemos desencostar. Vá que por acaso falte o equilibrio ?”
“Imagino que no futuro as pessoas vão ler sobre nós e vão se admirar do jeito que a gente arrumou prá não deixar de se amar”
“Eu não sei viver sem ter carinho. Eu não sei viver triste e sozinho. É a minha condição”
“Queria que tu tivesses ciúmes de mim, queria te ver armar uma cena, quebrando coisas e dizendo aqui ninguém tasca é propriedade particular”
“É duro evitar o chavão quando se vive um”
“Já faz um tempo e eu me esqueci o que era mesmo que eu te prometi: se foi compromisso e compreensão ou luxo e paixão”
“Eu subo na corda bamba sem rede de proteção que é pra fazer climinha e chamar a atenção”
“Será possivel que calar a boca é o que vai sobrar para nós aqui ?”
“Eu fiz um teste pra uma fita com um elenco de dois. Na hora de rodar a produção sequer telefonou pra me explicar que resolveram me limar”
“Eu gosto tanto de você que até prefiro esconder, como uma idéia que existe na cabeça e não tem a menor pretensão de acontecer”
“O nosso amor não consta em livros, está fora do padrão. Não é ponta de estoque em liquidação”
“Quero mais nada que me lembre o tempo que perdi com perdas de tempo como você”
“Fui teu principe e teu sapo. Fui teu gato, fui teu cão. E gostei”
“Não consigo dominar seu interesse. Já fiz de tudo que estivesse ao meu alcance. Meus poderes não funcionam em você”
“Bem que eu achei que era artificial. Bem que eu notei que as balas eram de festim. Ainda assim me machucou. Mas não faz mal. Nada é só ruim”
“Eu tenho andado bolado com o jeito que a vida está. Um filme ruim em canal e hora que ninguém vê”
“Não vai me surpreender quando a ciência revelar que numa vida a dois somente a dor se iguala à alegria”
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Encontro de Dois
|
|
|
|
|
|

Dentro da música brasileira existe um casal de aristocratas que ignora a pobreza vigente lá fora e segue fazendo canções de ouro que iluminam a nossa historia musical. Francis e Olívia Hime insistem na qualidade. Insistem em fazerem discos importantes.
Francis Hime completa agora neste ano, 70 anos de vida como maestro, compositor e cantor e lança um álbum duplo onde apresenta letras imponentes feitas com seus parceiros mais constantes como Geraldo Carneiro e Paulo César Pinheiro e os mais recentes como Joyce e Paulinho Moska, misturado a temas instrumentais que confirmam sua exuberância como arranjador.
Para o grande público a música de Francis sempre esteve ligada à obra de Chico Buarque, principalmente nos tempos idos dos anos setenta onde a dupla iluminou o Brasil com grandes sambas e temas de amor. Mas ele sempre foi além, para os ouvidos mais atentos: foi parceiro de Vinicius de Moraes e Edu Lobo, fez trilha sonora para cinema e lançou belos discos inesquecíveis. Olívia sua musa e esposa, nunca quis o posto de maior cantora do Brasil, nem o de maior vendedora de discos da história da MPB como hoje todas almejam. A música sempre foi seu ofício por paixão, destino e vocação. Inicialmente como produtora dos primeiros discos de Francis e logo em seguida como compositora delicada, cantora de voz singela e bonita presença no palco. Cresci ao lado desses dois mestres, amadurecendo o meu gosto através de suas belas canções.
Um dia, cansada das estratégias e exigências das grandes gravadoras, teve a idéia de fundar um selo junto com Kati Almeida Braga para inicialmente difundirem seus trabalhos e de alguns amigos sem espaço nas grandes mídias. Esta gravadora passaria a se chamar Biscoito Fino que hoje abriga em seu catálogo Maria Bethânia e Chico Buarque tamanha credibilidade, respeito e carinho com que tratam seus contratados. Ali novamente o trabalho de Francis e Olívia floresceu com a força merecida: ele prosseguiu de onde parou quando desligou-se da poderosa Som Livre, e Olívia além de comandar o selo voltou a ter belas idéias musicais como o CD/DVD em homenagem à obra de Ruy Guerra.
Através de Leila Pinheiro, minha cúmplice nesse amor pela dupla , tive oportunidade de conhecê-los numa noite linda em que Francis ao piano e Olívia e Leila como solistas atravessaram a obra desse maravilhoso compositor numa pequena casa de shows aqui em São Paulo. Ao final vi a surpresa com que receberam minha adoração. Naquele instante pude declarar o quanto foram e são importantes na minha formação musical.
Francis e Olívia não correm atrás do grande sem conteúdo. Não passam na estrada das celebridades. São dois artesãos da música e dela fazem seu sustento. Muito longe do óbvio. Muito perto do eterno. Compre agora O Tempo das Palavras e Imagem de Francis Hime e entenda o que eu digo.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Brincadeira de Gente Grande
|
|
|
|
|
|

Adriana Calcanhotto volta a ser criança. Um poder negado aos meros mortais e que ela exercita pela segunda vez desde que inventou o codinome de Partimpim. Depois de lançar o álbum Maré feito de canções “cabeça”, no melhor sentido, mas sem nenhum apelo para o grande público, Adriana volta ao universo infantil e faz um dos grandes discos do ano. Uma ouvinte atenta a tudo e todos que fazem música dentro e fora do Brasil, ela tira de sua cartola mágica regravações à espera de seu talento para virem à tona misturadas com canções próprias de seu vasto material que pode conter uma canção inédita para Maria Bethânia e Simone ou um prelúdio para ninar gente pequena. Um genial liquidificador de estilos musicais. Bem longe do oportunismo viciante de fazer um segundo volume de um projeto apenas por ter dado certo em vendas e repercussão, Partimpim tinha mesmo que voltar. Ainda haviam canções a serem ditas.
Assim como primeiro disco, todas as faixas desse novo álbum parecem impróprias para menores se comparadas ao nosso tempo de Xuxa, pequena Maisa e afins. Discípula de Vinicius de Moraes e Nara Leão quando o assunto é criança, Adriana sabe a importância de se educar musicalmente uma nova geração. Era emocionante durante a primeira turnê de Partimpim ouvir o coro de crianças de todas as idades na platéia cantando Ferreira Gullar, Augusto de Campos e Chico Buarque como se fossem irmãos de Claudinho & Buchecha, e que de fato são, na cabeça de seres que, ainda munidos de ingenuidade, dispensam o preconceito musical. Adriana aproveita essa liberdade e traz ouro em forma de música para essa turma. Uma atitude que o Brasil desconhece, trazendo sempre para o mercado somente produtos que transformam nossos rebentos em retardados, imitando o visual de adultos oportunistas que conseguem fácil o dinheiro de pais desatentos. Mas chega de mágoa e vamos ao disco:
1) Baile Partimcundum
Marcha prá pular eletrônica que abre os trabalhos liberando geral na letra que diz em alto e bom som :“TODO MUNDO PODE TUDO !”
2) Ringtone de Amor
Tecnologia criada para as novas gerações o ringtone nada mais é que trocar o toque tradicional de seu celular por um som pessoal e intransferível. Adriana sugere na letra e você escolhe no seu aparelho: “Um ringtone prá dizer sim / Um ringtone pra fazer trim / Um ringtone prá trazer você prá mim”.
3) Trenzinho Caipira
De olho no futuro sem esquecer o nosso passado de glória. Adriana coloca essa canção de Villa-Lobos nos trilhos do universo infantil, e, que me desculpem Edu Lobo e Maria Bethânia, primeiros intérpretes dessa canção, mas aqui encontra-se a gravação definitiva desse clássico brasileiro.
4) Alface
Concretismo é assunto que interessa e apaixona Adriana. E apesar de parecer papo de adulto e de difícil acesso, essa versão de Cid e Augusto de Campos, transforma a poesia concreta num delicioso jogo de palavras para criança nenhuma botar defeito.
5) Menino, Menina
Amor é assunto de gente grande que pode fazer sofrer e não se aprende na escola. Adriana, mestre do assunto em grandes canções, assume ares de professora e define o “grande laço” para principiantes: “O amor é o que há: começa quentinho e pode queimar”
6) Na Massa
Letra genial de Arnaldo Antunes que o carisma morno de Davi Moraes não revelava em seu primeiro disco como cantor. Aqui, Adriana ilumina e realça todos os sentidos da canção.
7) O Homem Deu Nome A Todos Animais
Bob Dylan é um poeta de respeito no mundo. Zé Ramalho é um compositor brasileiro e todos admiram. Mas quando as canções de lá foram traduzidas pelo poeta de cá todos torceram o nariz. Menos a democrata Adriana que, sem preconceito traz uma dessas versões para o disco.
8) Alexandre
O álbum Livro de Caetano Veloso é um clássico. O tempo tem deixado ele cada vez melhor. Apenas uma canção naquele disco não encontrou seu lugar ao sol: Alexandre. Houve uma concentração de interesse em outras faixas e essa letra de métrica gigante ficou esquecida. Que bom, porque Adriana se apropria dela e traz a tona toda a sedução que os desatentos não pressentiram. Melhor faixa desse Partimpim 2.
9) Gatinha Manhosa
A dupla Roberto e Erasmo Carlos é assunto que Adriana domina. Sempre tem uma versão inesperada num show ou uma gravação definitiva. Esse grande sucesso da Jovem Guarda tem tudo para virar hino novamente de adultos e crianças na sua voz.
10) Bim Bom
Bossa-Nova é assunto encerrado, mas as métricas simples e rimas fáceis de algumas canções, ainda podem cair muito bem nos ouvidos de uma criança. Este clássico interpretado e escrito pelo nosso rei João Gilberto, vira olodum eletrônico nas mãos de Partimpim
11) As Borboletas
Nessa faixa Adriana faz acontecer uma parceria que o tempo real impediu de existir : Cid Campos e Vinicius de Moraes se encontram nessa faixa lúdica que encerra o disco em emoção: “Brancas, azuis, amarelas e pretas, brincam na luz as belas borboletas”.
E assim chego ao final do disco. De mãos dadas com Partimpim, volto ao lugar onde a criança que eu fui me espera. Um mundo de sonhos feito de álbuns inesquecíveis: Saltimbancos, Arca de Noé, Sítio do Pica Pau Amarelo.... Adriana também tem saudade e transforma isso em futuro inteligente para as novas gerações. Se você tem filho compre já. Se ainda é criança, como eu, peça para o seu pai.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
O Amor Bateu na Porta
|
|
|
|
|
|

O amor passou aqui em casa essa semana. Deixou sua marca forte e fugiu.
Tem gente que não ama. Tem gente que é feliz assim. Eu suponho ser um desses. São tantos livros pra ler, tantos discos pra ouvir e filmes pra assistir que sempre me esqueço de alimentar a idéia de ter esse item considerado fundamental na minha dispensa. E vivo bem: sinto fome nas horas certas, durmo bem e sou concentrado no meu trabalho. Sim, porque amar é entrar num labirinto de emoções, perder o chão que outrora pisamos com firmeza. Um eterno canto de sereia que te leva para o alto-mar sem proteção. E não adianta fugir: quando ele bate na minha porta sempre deixo entrar. É uma troca de ar num lugar outrora mofado e sem luz. Eu me debato, me protejo mas no fim corro pro abraço. É como acordar diariamente e sentar numa montanha russa de sentimentos. Mesmo sofrendo todo o tipo de calvário que inclui ansiedade, ciúme e depressão prefiro me arriscar do que viver em preto em branco. Mesmo que esse amor dure 24 horas, uma semana, um mês ou nenhum dia. Eu fico mais bonito, mais esperto, e todo mundo que passa por mim tenta decifrar essa luz que cega os mais desavisados. Porque quando o amor chega é reveillon. Quando parte é funeral. Me encontro agora nessa fase. Jogo flores num caixão de esquecimentos. Aquela playlist do Ipod que embalou os melhores momentos, agora vira um rosário de canções tristes e sem dedicatória. Aquela cantora que parecia ser só de nós dois, volta a ser de todo mundo.
Mesmo tendo consciência do fim de todas as coisas, ver um amor acabar é padecer no paraíso de ser só: não machuca porque não fere, não tem contra-indicações porque não cura, um eterno céu azul numa cidade que não tem praia. Nesse estágio, quando um amigo liga desesperado pedindo colo por causa de um fim de caso você se sente um super-homem: dá conselhos como ninguém, mostra-se sadio e potente, sabendo estar causando inveja naquele ser tão fragilizado. E dá-lhe frases de efeito: “ele não te merece”, “parte prá outra”, “já vai tarde”. Mas quando essas verdades aparecem em nossa mesa, parece ácido jogado no rosto. Queremos fugir da constatação de que caímos novamente na doce cilada comum a todos: o amor.
Quando dou o primeiro beijo no ser amado não penso em mais nada: o passado deixa de ter importância e o futuro é um túnel que eu não deixo o carro da minha vida entrar. Importa apenas o agora. E não desperdiço nada: sou o diretor do meu próprio filme, invento um roteiro onde tudo dá certo e tudo será inesquecível. Podendo ser um longa de 3 horas ou um curta de 15 minutos. Sentir alguém do lado, um corpo pesando sobre o seu, uma língua no céu da sua boca é se encontrar com Deus seja qual for a sua religião. É subir aos céus sem rede de proteção. Tudo é lucro. E ter a consciência de que todo o amor acaba, aqui em casa funciona ao contrário: quando todos fogem por esse motivo e eu me aproximo mais. Porque amar é perder-se nas camas da ilusão, nos braços dos que não te pertencem, uma vingança dos deuses para quem se acha dono de seu destino.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Sinceramente Teu
|
|
|
|
|
|

Bem me quer. Mal me quer. Na eterna ciranda do desejo escolho o positivo e começo pelas qualidades que despertaram o meu interesse pelos dois novos álbuns de Maria Bethânia.
Desde Brasileirinho, sua discografia tem mostrado predileção por temas especias. Foi assim com as águas e agora com o amor e as crenças. Projetos cuidados de perto com sensibilidade e sofisticação. E a palavra sempre foi o motivo maior de sua música. Quando seu canto não alcançava a segurança que hoje desfruta, era com o teatro dos gestos e da poesia que sua obra encontrava a força necessária. E Bethânia não decepciona nesse quesito em seu novo trabalho. Apesar de alguns compositores parecerem forçar algumas rimas para se encaixarem no desejo da intérprete (e serem brindados com sua escolha), no geral as composições estão acima da média. Outro dado positivo é que Bethânia está em seu melhor momento como cantora, encontrando os agudos que outrora não habitavam seu canto e confirmando os graves habituais de forma cada vez mais especial. Consciente disso, ela abusa das introduções a capela, começando quase todas as faixas do disco dessa maneira.
Fora isso, surge o meu desinteresse. O violão previsivel e o piano de sempre mostram claros sinais de desgaste nos arranjos parecendo o tempo em que Bethânia foi apoiada pelas grandes orquestras do maestro Perinho Albuquerque e precisou se reinventar no album Ciclo, retornando ao formato acústico. Algumas canções de Tua e Encanteria já nascem com cara de velhas conhecidas por causa de algumas soluções musicais de Jaime Além, obscurecendo o mérito de várias letras interessantes e bem construidas.
Os dois projetos de capa tambem resultam em pouca novidade. Mostram fotos já conhecidas por seus seguidores fiéis pelo fato de terem sido material de divulgação de álbuns anteriores e a solução gráfica não resulta em inesperada beleza.
No entanto o eterno prazer de ouvir Maria Bethânia e aplaudir suas escolhas estão de volta. Falta apenas uma energia maior e transformadora, podendo os motivos serem a idade fisica ou simplesmente suas convicções artisticas e pessoais.
Ha pouco tempo atrás recebi do seu fã-clube o video de um show exibido pela televisão portuguesa nos anos oitenta e passei dias me alimentando da vitalidade e loucura de Bethânia naquela época. Senti falta da precariedade vocal fazia sua presença valer mais que qualquer cantora perfeita. "Um castelo feito na lama" como diz uma das melhores faixas do disco Tua. Um tempo que decididamente acabou. Uma pena para quem a conheceu ali. Um milagre para quem a considera hoje perto da perfeição. A minha paixão vive entre essa serenidade do presente e a ausência do desatino. Entre elas a bruta flor do querer: Maria Bethânia.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Quero Acordar na Cidade que Nunca Dorme
|
|
|
|
|
|

Eu sempre sonho a mesma coisa: que estou em Nova York e sou feliz. E todo o ano eu vejo isso acontecer. De todas as cidades que vi pelo mundo, decididamente foi aqui que deixei meu coração. E na chegada é sempre a mesma rotina: tenso na imigração, aliviado no metrô e chorando de emoção ao sair da estação e avistar o primeiro prédio.
Não tem jeito. A primeira vez a gente nunca esquece. E foi o estilista Fause Haten que me trouxe para cá em seu primeiro desfile na Fashion Week com uma trilha sonora assinada por mim. Na chegada eu jâ tinha certeza que seria para sempre. Como um mineiro que olha o mar pela primeira vez, do alto do Empire State eu tive a visão do definitivo .
A eterna nostalgia que tenho pelos anos setenta e o que não consegui viver nessa década, se realiza aqui: tenho a a sensação que vou pegar um taxi com o Robert de Niro de motorista, visitar Andy Warhol na fábrica prateada e depois dançar com Liza Minelli em plena Times Square.
Em Nova York ja perdi muitos amigos. Prometo sempre que vou levâ-los aos meus lugares escondidos e prediletos mas quando ponho os pés na cidade jâ sumi. Não consigo compartilhar essa emoção tão grande. Por isso aviso aos navegantes que me lêem aqui: não esperem me encontrar pela cidade e marcar um jantarzinho ou passear pelo Central Park, eu fujo de tudo e todos para viver o meu sonho como um errante egoista pelas ruas que eu adoro. Chego até a falar sozinho muitas vezes na ansiedade de compartilhar o que vejo e ouço, mas não dou o braço a torcer. Só abro uma excecão para dois casais de amigos brasileiros que escolheram Nova York para morar e vivem felizes para sempre.
Luciana e Henrique são o que eu chamo de casal do futuro: ela recicla lixo e ele vai para o trabalho de bicicleta. Falam baixo, recebem como ninguém e são tão educados que me dão vergonha do que aprendi em casa. Naquele apartamento ao lado da Estátua da Liberdade eu faço o meu quartel general de emoções; tenho uma bicicleta gentilmente cedida por eles, e um quarto que eu morro de ciúmes e defendo dos outros hóspedes como um cão de guarda feroz. E ao final de cada dia chego em casa tão excitado que nem reparo os ouvidos cansados de meus anfitriões de tantos adjetivos e superlativos ao contar minhas aventuras pela cidade
João Paulo e Bela são o que eu chamo de casal seguro e natural. Ele trabalha numa loja de roupas orgânicas e ela faz comida macrobiótica. Com eles finjo não gostar de junk food e me jogo em sopas cheias de legumes e bolos de laranja sem ovo e açúcar. Dessa vitoriosa parceria nasceu uma filha linda e tranquila que se joga nos meus braços e de quem mais sorrir para ela. Uma doce infiel.
Foi em Nova York também que ouvi pela primeira vez um som produzido por mim na boca do povo. Os americanos adoram a nossa música e ficaram encantados com o meu primeiro disco. Em pleno Soho pude constatar isso numa loja que tinha como som "Não deixe o samba morrer" de Alcione remixado por mim. E foi também aqui que fiz minha primeira grande apresentação no Brazil Foundation, jantar de gala beneficente anual em que sou o DJ todo o ano. Uma grande festa brasileira no coração da cidade que aconteceu ontem a noite.
Agora preciso parar de escrever, vou pegar minha bicicleta, colocar meu fone de ouvido e atravessar a ponte do Brooklin. Vou ser feliz e já volto
|
|
|
|
|
|
|
|
|
O Amor e o Poder
|
|
|
|
|
|

A moda no Brasil existe porque um dia alguém acreditou que isso fosse possível. Esse alguém se chama Paulo Borges, um visionário louco que no meio dos anos noventa fez com que as palavras estilista, stylist, maquiador, fotógrafo e até mesmo DJ virassem sinônimo de mercado de trabalho nesse país. Eu sou amigo desse brasileiro. Eu trabalho para esse grande homem.
Quando eu cheguei em São Paulo em 1993 eu não entendia nada, tocava nos clubes e tentava aprender a amar a cidade que hoje é o meu território preferido. Acuado e cheio de dúvidas, tinha como passaporte apenas o meu talento para a música e meu carisma para agregar pessoas ao meu redor. E foi assim, me vendo numa uma festa tocando música brasileira, que Paulo Borges me levou para junto de seu sonho de fazer um calendário oficial de moda no Brasil. E se assuntos como educação, política social e financeira não são levados a sério nesse país, você pode imaginar o que era, naquela época, alguém escolher viver de corte e costura, querer respeito e ter algum espaço.
A moda no Brasil, até então, sempre tinha estado perto da caricatura : Denner rivalizando com Clodovil, modelos como Monique Evans, Luiza Brunet e Xuxa vendendo nudez nas revistas masculinas e Cristina Franco fazendo comentários alegóricos num noticiário de TV. O eterno país da piada. Paulo Borges nunca acreditou nisso. Moda era tão importante para ele, que mudou o rumo de sua vida, inclinada inicialmente para a carreira de ator. Começou como assistente de uma figura fantasiosa e cheia de lendas, a produtora de moda Regina Guerreiro que dividia com ele a mesma paixão e o mesmo rigor de quem acredita que, com seriedade e profissionalismo, aqui pode não ser o terceiro mundo.
Num programa da MTV foi que avistei pela primeira vez a figura de Paulo Borges falando de um projeto chamado Phytoervas Fashion. Foi o ponto de partida: só se falava nisso na imprensa e o povo de São Paulo, sedento de novidades, recebeu o projeto de braços abertos. Até que chegou o meu dia. Uma amiga e dois convites me levaram até um galpão em Pinheiros onde o futuro da moda fincava seus primeiros alicerces. Ali pela primeira vez assisti a um desfile. Era de um estilista iniciante chamado Alexandre Herchcovitch, que misturava chifres, travestis e crucifixos em sua forte exibição. Coisa de não se esquecer. Claro que, como tudo que vem com a força do definitivo e do inesperado, uma violenta briga de egos entre patrocinador e o já centralizador Paulo levou o projeto, depois de algumas edições, para o chão. E foi aí que meu caminho cruzou com o dele. Quando a mídia apostava na diluição do sonho, quando todos que estavam ao seu lado escolheram o desprezo ou o silêncio, Paulo emergiu com a fúria dos que sobrevivem às grandes tormentas e, em menos de seis meses, o Brasil assistia ao primeiro São Paulo Fashion Week. Foi uma loucura geral. Como sentar na primeira fila e falar do que não se sabe ? Como editar um desfile atrás do outro ? Como fazer 12 trilhas para 12 estilistas mais perdidos que eu ? Quando minhas pernas começaram a tremer, a mão firme de Paulo e seu olhar confiante me seguraram. E como um filho obediente a seu pai permaneço até hoje: não existe chamado seu que eu não atenda. O medo não me acompanha quando sua ordem me alcança. Paulo é fiel e não põe o talento de quem atende suas demandas, em dúvida. Suas certezas de vida acompanham suas decisões.
Tudo que escrevi acima é porque acabo de ver uma entrevista sua para Joyce Pascowitch e assisto ao seu pequenino sonho de outrora encontrar definitivamente o merecido respeito e orgulho de todos. Sua serenidade e inteligência ao descrever novas idéias para a menina de seus olhos, a moda brasileira, me comovem. Minha emoção veio para esse texto aqui. Minha gratidão vai para o telefone que agora pego e começo a discar o seu número. Paulo Borges é brasileiro. Um grande homem brasileiro.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Para Ler e Aplaudir
|
|
|
|
|
|

Estou sempre ávido por cultura. Percorro livrarias, entro em sebos de discos, empilho filmes em estantes. Por isso nunca me sinto só. Por isso a febre incessante da nossa raça por romance e sexos ocasionais nunca me atinge. A inteligência dos grandes mestres são minha companhia.
Há pouco tempo descobri numa sala de espera a central de informações que eu precisava: a revista Bravo!, e antes que me xinguem, assumo minha culpa: eu sei que ela existe há anos, mas sempre olhei de longe achando que poderia ser intelectual demais para minha pobre inteligéncia . Agora estou apaixonado e viciado. Acabo de fechar a edição de setembro muito bem informado e cheio de anotações de livros, discos e filmes para comprar. Nesse mês soube mais da vida de Henri Cartier-Bresson e suas fotos. Fiquei louco de vontade de ler um livro meio esquecido do Truman Capote. Quis ouvir o disco de versões de Carlos Rennó. Fiquei curioso para ver o novo espetáculo do grupo Vertigem pelas paredes do Sesc da Avenida Paulista.
Fazer cultura no Brasil não é fácil. Faltam investidores, falta espaço para divulgar, falta público. Só chegam perto da luz os projetos comerciais. Na área musical, cópias de fórmulas desgastadas. Nos teatros, as comédias rasas. Na literatura, formatos de auto-ajuda. A verdadeira novidade fica soterrada na baixaria do fácil consumo. A Bravo! vem na contramão desses vícios e apresenta um painel cultural brasileiro de dar orgulho: espetáculos brilhantes em salas que nunca pensamos existir, filmes interessantes exibidos em cinematecas que nunca entramos, e principalmente, muitos livros para ler e pedir, onde outrora só tínhamos o desejo do previsível. Tudo isso apresentado em resenhas deliciosas e com um olhar crítico de quem sabe do que esta falando.
Bravo! : vida inteligente nas bancas do Brasil.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
A Prova dos Nove
|
|
|
|
|
|

Numa noite de pré- verão de setembro no Rio, mais precisamente no dia 09/09/2009, dia de seu aniversário, Ana Carolina recebeu amigos, fãs e desconhecidos para testar seu disco mais recente na cidade. Apenas nove canções. E quando já não havia mais oxigênio no recinto, tamanha a lotação do lugar, ela surgiu no minúsculo palco com a segurança e o deboche que lhe são peculiares. Parecendo apreensiva com o silêncio que se formou com sua chegada, logo em seguida tomou conta do ambiente, trazendo para si todos os olhares: alguns de desejo, outros de adoração. Cercada de músicos poderosos como Marcelo Costa e Pedro Baby, Ana solta a voz que lhe Deus lhe deu e apresenta um repertório ainda com cara de inédito. Não para o seu fã-clube que tomou as almofadas em frente ao palco e cantou em uníssono cada uma das canções apresentadas. Ana tambem recitou textos que serviram de vinheta tematica para algumas músicas.
Aos poucos relaxando (principalmente com a entrada de sua mais nova parceira musical, a italiana Chiara Civello no palco para cantar e tocar duas canções), Ana parecia estar tendo muito prazer em estar ali perante seus suditos. Nessa noite as faixas do disco se agigantaram e confirmaram sua grandeza quando leva um disco para o palco: tudo se justifica com sua presença, tudo confirma seu talento para as grandes massas. Nessa noite eram apenas 120 pessoas. Mas com sua força ela transformou o pequeno Londra em Maracanã. Como diria Gonzaguinha : Ana Carolina é coisa mais maior de grande. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Arnaldo e Seus Meninos
|
|
|
|
|
|

Arnaldo Antunes está chegando na casa dos 50. Mas isso não significa nada para esse poeta/cantor inquieto que agora escolhe a tão mal falada jovem guarda como inspiração para seu novo disco Iê Iê Iê que acaba de chegar aqui em casa.
O que o cd tem de novo? O novo em si. Tocando com ele, os mais recentes músicos e compositores do Brasil, e uma profusão de parceiros, coisa rara num disco de Arnaldo (O Que Você Quiser é a única faixa que assina sozinho). Um projeto coletivo no melhor sentido que há.
Apesar de sempre ter chutado o balde das acomodações, Arnaldo estava um pouco preso ao formato tribalistas em seus últimos trabalhos, e mesmo que aqui existam canções em parceria com Brown e Marisa (Iê Iê Iê e Vem Cá), o disco apresenta bem mais do que isso. De seu passado ele traz Branco Mello, Paulo Miklos Sérgio Britto e Marcelo Frommer. De olho no futuro convida Betão Aguiar, Ortinho e Marcelo Jeneci. Aliás é bom falar que de tropicalismo e bossa nova o mercado já se esgotou, e essa turma que está chegando agora, felizmente, está mais para beber em Odair José e outros “perigosos” (que o poder do Rei Roberto obscureceu nos anos setenta) do que em João Gilberto e Caetano Veloso. virando inesperada e necessária matéria-prima para o rock de Arnaldo que levemente flertou com o brega em seus tempos de Titãs do Iê Iê Iê.
O que eu mais gosto ? As letras. Bem construídas, inesperadas e de inspiração adolescente. Canções para ouvir com a namorada no carro, no Ipod a caminho da Faculdade, quase um “proibidão” para quem tem mais de trinta, tornando o disco lindo, leve e solto como o verão. A voz de Arnaldo também mudou para melhor. Seu registro grave outrora assustador para muitos, encontra-se agora menos agressivo e mais melodioso.
Ao contrário de Nando Reis que esse ano apresentou um disco repetitivo e pouco brilhante, Arnaldo vem disposto a conquistar um público mais jovem que durante toda a sua (já extensa) carreira solo tem olhado de longe para a sua música. Quem sabe não é agora ?
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Quem Te Conhece Não Esquece Jamais
|
|
|
|
|
|

O Patu Fu chegou tarde aqui em casa e não foi por sua música. Sua célula-mãe Fernanda Takai com sua doçura foi que lentamente me atraiu para a banda. Yone Sassa, uma japonesa sábia que trabalhava na MTV foi quem me disse: "você precisa ouvir o Pato Fu". E eu obedeci. Em 2002 comprei o álbum MTV ao Vivo e foi um amor do tipo “antes tarde do que nunca.” Sempre apaixonado por vozes femininas, o canto de Fernanda me prendeu nos laços da banda. E havia muito mais por ali. Letras inteligentes e a escolha de harmonias deliciosas que transformavam o pop-rock em jóia rara.
Muito se fala em Mutantes quando citam o trabalho do Pato Fu. Eu pobre de informações da banda que teve Rita Lee nos vocais (desculpe minha ignorância) não reparo em comparações. Todo mundo que nasce por aqui sempre se parece com alguém. Marisa Monte é Gal Costa , Vanessa da Mata é Clara Nunes e Fernanda Takai é ....Nara Leão! Ninguém tinha pensado nisso antes quando Nélson Motta num belo insight teve a idéia de homenagear a musa da bossa nova num tributo genial orquestrado por John Ulhoa (o pai do Pato Fu e da Nina) sob medida para a voz de Fernanda. O Brasil caiu de joelhos (desculpe o trocadilho infame) pelo disco. E só deu ela em 2007. Tributos musicais nunca foram novidade no mercado de discos do Brasil, a própria Nara fez alguns durante a sua carreira. A diferença estava na escolha de repertório e na forma inesperada de regravar aqueles clássicos.
Fernanda cuida muito bem de seus amigos. Dispensa linhas telefônicas mas é presença constante em emails. Não deixa ninguém sem resposta. E foi assim que ela me conquistou. Quando comecei a falar de meu interesse pelo Pato Fu, recebi uma doce mensagem sua na minha caixa de entrada comentando e agradecendo minha nova preferência. E não nos largamos mais. Não existe tempo fechado naquela simpática família mineira: há sempre um sorriso em nossos encontros, uma delicadeza pelo ar em nossos jantares e música, muita música em nossos assuntos.
Esta semana recebi duas jóias da dupla Takai/Ulhoa: o DVD com a homenagem a Nara Leão e um outro só de raridades do Pato Fu. Escolhi a noite anterior para tanto deleite: liguei minha TV, dei play e ainda cheio de felicidade escrevo aqui minhas impressões.
O show solo de Fernanda chamado Luz Negra vai além das canções do álbum Onde Bilhem Os Olhos Seus e mistura Duran Duran com o carimbó de Belém do Pará de forma tão consistente e verdadeira que, para um desavisado, essas faixas poderiam ser também do repertório de Nara. E atenção: a regravação de Ben de Michael Jackson não é oportunismo que, com certeza, veremos muitos a seguir após a morte do Rei do Pop. Fernanda já estava cantando essa pérola desde a estréia do show trazendo novos ares para a velha canção. Tudo no projeto exala bom gosto e encanta os olhos: cenário, luz, figurino, a banda e a própria Fernanda irmanados no desejo de fazer bonito.
O DVD de raridades do Pato Fu chamado Extra ! Extra! traz a banda para mais perto de seus (eu) fãs. Andamos pelo palco em forma de câmera, ouvimos gravações feitas no estúdio caseiro em BH, olhamos por dentro dos ônibus da turnê e chegamos até o Japão, onde descobrimos o país do sol nascente pela lente particular de Fernanda e John.
Ontem foi uma noite deliciosa para os olhos e meu coração. É o que eu desejo prá você que me lê agora e que, rapidamente, sairá da frente desse computador para ouvir um bom disco do Pato Fu ou sentir uma saudável saudade de Nara Leão nos braços de Fernanda Takai. Boa viagem.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
A Certeza da Beleza
|
|
|
|
|
|

Roberta Sá não é a minha preferida. Nem os críticos dizem que ela vai mudar o mundo como costumam atestar para as novas cantoras de segunda categoria que andam por ai. Mas a inteligência e a sofisticação de repertório fazem dela a promessa mais sólida da nova MPB.
Sua primeira aparição foi no infeliz “Fama” da TV Globo que além de não ter revelado ninguém ainda atrapalhou a vida de quem tinha algo a dizer. Ainda bem que desatenção a verdadeiros novos talentos e o esquecimento são características do ser brasileiro, porque quando Roberta lançou seu primeiro álbum “Braseiro” em 2005, sua participação nesse programa e seu rostinho lindo não foram o carro-chefe do seu currículo naquele momento. Nesse primeiro disco já figuravam as raizes do seu trabalho: o olhar inesperado sobre o passado (“Cicatrizes e “Valsa da Solidão”) e um presente musical bem cuidado por Pedro Luis, Rodrigo Maranhão e Marcelo Camelo (alías é dela, e não de Maria Rita, as primeiras gravações de “Casa Pré-Fabricada” e o samba “Novo Amor” de Edu Krieger). Outro bom exemplo de suas escolhas de ouro foi a retomada do compositor Lula Queiroga que andava esquecido pelo pessoal daqui. Lenine, o seu parceiro mais constante, havia encontrado lugar definitivo nos anos 90 enquanto que Queiroga estava apenas na memória das belas canções. Roberta além de tirar de uma canção dele o nome de seu segundo disco, ainda o aproximou dos novos compositores trazendo sua música para uma platéia mais jovem. Aliás, platéia é o que não falta para Roberta. A moçada carioca e os rapazes de Sampa são loucos por ela. Eu, sempre em sua platéia, atesto para todos os fins: não é uma histeria sexual e gratuita. É um grito de reconhecimento pelo que Roberta traz consigo: o samba novo. O pop de agora. O passado com nova luz.
Essa semana passou por debaixo da minha porta seu terceiro disco e primeiro DVD. Projeto ao vivo que passa sua recente trajetória a limpo. Um risco que ela corre com firmeza.
Vamos primeiro a capa. Em tempos de download, projeto gráfico pobre e sem imaginação leva o disco direto para as prateleiras empoeiradas e sem vendagem. Roberta sempre cuidou de perto desse assunto com fotos e encartes impecáveis. Segundo, seu canto está cada vez mais afiado e potente. E terceiro, ela está linda. Confundindo a sexualidade dos indecisos e confirmando o tesão dos que sabem o que querem.
“Prá Se Ter Alegria” é forte candidato a disco do ano. Mesmo sendo ao vivo. Mesmo confirmando o que ouvidos atentos já sabiam. Um caminho sutilmente perigoso que Roberta Sá atravessa com sofisticação e inteligência. Mesmo que eu já tenha dito isso no começo desse texto. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Num Samba Curto
|
|
|
|
|
|

Paulinho da Viola é um ícone da música popular brasileira. E como tal corre o risco da estagnação e das frases feitas: um compositor elegante de sambas clássicos. Mas Paulinho foge de tudo e todos e segue fazendo o que quer na hora em que julgue necessário. Uma pausa de mil compassos.
Esta semana coloquei uma frase de uma canção sua no meu twitter e todo mundo enlouqueceu, porque samba na cabeça das pessoas é pra cantar alto e tem cara de domínio público, não é para refletir. Mas Paulinho da Viola é das antigas. Do tempo em que samba se aprendia na escola com mestres que ensinavam sofisticação e inteligência na hora de alegrar o povo.
Paulinho já trazia em seus primeiros discos uma extrema personalidade carregada de letras densas e sambas profundos como Vinhos Finos...Cristais e Para Um Amor no Recife. Em 1969 deixou o Brasil atônito ao classificar o samba político Sinal Fechado no V Festival da Música Popular e levantou multidões no ano seguinte com a alegria de Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida. Outra preciosidade de sua obra é lançar jóias raras para o futuro sem esquecer o passado: todo o álbum traz consigo pérolas esquecidas de sambistas deixados para trás sem o devido reconhecimento.. Em seu primeiro disco solo, junto com as inéditas, figuravam canções de Carlos Lentine, Casquinha e um Cartola que naquele ano de 1968 estava bem longe da consagração dos tempos de hoje.
No reveillon de 1996 ao ser convidado para cantar na Praia de Copacabana com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Gal Costa, Paulinho envolveu-se num escândalo sobre as diferenças de cachês recebidos por cada artista convidado. Polêmica que não durou um verão. Paulinho não alimenta confusões com seu nome e se num primeiro momento os baianos, admiradores confessos de sua obra se calaram, hoje Caetano Veloso abre seu novo show gritando em alto e bom som: Viva o Paulinho da Viola !
Depois de esquecer o meu Ipod num avião e ter de refazer com muita paciência todas as minhas playlists, cheguei ao nome de Paulinho e como sempre acontece desde que descobri sua obra, me surpreendo e me emociono. Abaixo dez sambas que não costumam figurar nas listas habituais e que são igualmente geniais:
1. Nada de Novo (Paulinho da Viola)
2. Não Quero Você Assim (Paulinho da Viola)
3. Num Samba Curto (Paulinho da Viola)
4. Roendo as Unhas (Paulinho da Viola)
5. Orgulho (Paulinho da Viola-Capinam)
6. Cidade Submersa (Paulinho da Viola)
7. Quem Sabe (Paulinho da Viola – Elton Medeiros)
8. Toada (Paulinho da Viola)
9. Mais Que a Lei da Gravidade (Paulinho da Viola – Capinam)
10. Bebadosamba (Paulinho da Viola)
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Ainda Somos os Mesmos e Vivemos
|
|
|
|
|
|

Domingo à noite na televisão brasileira. Num canal um rapaz bonitinho e de moral duvidosa ganha prêmio de um milhão. No outro perguntam por onde anda o cantor Belchior. Isso é o meu Brasil.
Belchior assim como Sérgio Sampaio e tantos outros importantes cantores e compositores, estão desaparecidos já faz muito tempo, Belchior apenas resolveu assumir isso fisicamente sumindo do campo de visão de sua família e amigos, enquanto que Sérgio Sampaio, tristemente, permaneceu de corpo presente até a sua morte tentando em vão que não o esquecessem.
Belchior veio do sertão com uma voz agreste e uma música improvável de se entender no Sul maravilha. Junto com Fagner, ele sofreu todo o tipo de preconceito pessoal e musical até a visionária Elis Regina gravar “Mucuripe” e “Como Nossos Pais” e Vanusa fazer todo o Brasil cantar “Paralelas”
Belchior foi um cronista do seu tempo. Suas letras urbanas viraram porta-voz de toda uma geração sufocada entre a ditadura e a falta de perspectivas num país miserável.
Quando a segunda fornada de cantores e compositores nordestinos como Zé Ramalho, Amelinha e Elba Ramalho chegaram ao sucesso nos anos 80, a obra de Belchior já entrava em declínio nas rádios. E ao contrário de Fagner que pegou caminhos às vezes perigosos para se adaptar ao gosto popular de cada década, Belchior teimou em manter sua dignidade autoral ficando como um quadro na parede da memória do Brasil: importante no passado e ignorado no presente. E foi assim que ele decidiu sumir. E foi assim que ele chegou até o “Fantástico” em pleno horário nobre na poderosa TV Globo. Uma ironia como tantas que já vimos por aqui. Como Collor no poder. Como milionários que não são presos. Como um rapaz latino americano ganhando um milhão de reais no canal concorrente. Isso aqui é um pouquinho de Brasil. |
|
|
|
|
|
|
|
|
A Vida é Bem Mais Perigosa Que a Morte
|
|
|
|
|
|

Minha televisão fica constantemente ligada no Canal Brasil. Às vezes cometo a loucura de zapear e volto correndo para o conforto do canal 66.
Essa semana foi apresentada uma retrospectiva do cineasta Hector Babenco, diretor longe dos meus preferidos e que eu considero de filmografia irregular. Mas havia “Pixote – A Lei do Mais Fraco” que eu vi ainda muito pequeno e que pouco lembrava, a não ser a polêmica trajetória do ator Fernando Ramos da Silva que acabou em terrível tragédia na vida real e a atriz Marília Pêra encarnando uma alegórica prostituta. Nada mais.
Um colecionador nato de raridades da nossa cultura, deixei gravando e durante uma longa e acidentada viagem essa semana (ler o texto abaixo) dei o play. Um filme de não se esquecer. Como os difíceis anos da ditadura, ironicamente, fizeram bem à nossa cultura . A rigidez desse período somada às precariedades estruturais fizeram filmes clássicos, discos inesquecíveis e livros de eterna consulta em nossas estantes. Uma triste (feliz) constatação.
Hector Babenco naquele ano de 1981, realiza seu filme definitivo sem saber, como revelou no documentário “Pixote In Memoriam” que passou em seguida. Uma conjugação de fatos e coincidências extraordinárias (como encontrar o garoto que encarna o protagonista Pixote) fizeram da película um fenômeno mundial: Marilia Pêra ganhou todos os prêmios, Babenco firmou-se definitivamente como um diretor de prestígio tendo feito mais uma dezena de filmes (inclusive o“O Beijo da Mulher Aranha” e “Ironweed” com Meryl Streep e Jack Nicholson) apesar de para mim, ter perdido a mão forte que resultou em “Pixote”. Um forte exemplo disso é “Carandiru” que tocava na mesma ferida de forma asséptica e com um padrão global de qualidade que não me emocionou em nada, resultando na minha saída do cinema bem antes do final. Se você não viu “Pixote” ligue já para o Canal Brasil porque misteriosamente o filme não existe em DVD, mas vale a pena o sacrifício. Nem milhares de filme em sua locadora mais próxima valerão a experiência de rever esse orgulho nacional.

O escritor Caio Fernando Abreu foi a Clarice Lispector da minha geração. Seu jeito confessional de contar dores e angústias tomou conta da cabeça de todos os adolescentes dos anos 80 como eu, cheios de dúvidas existencialistas .
Caio era um escritor dark: sua literatura não era um doce de leite para se comer antes de dormir. Falava de sexo com o vigor de um suicida e do amor como se não houvesse amanhã. Seu livro mais comentado e mais lido foi “Morangos Mofados”, uma bíblia para seus seguidores. Agora para quem quer saber um pouco mais de Caio (já que seus livros são praticamente auto-biográficos) sua amiga-irmã Paula Dip lança “Para Sempre Teu, Caio F”, uma caixa de recordações, onde cartas e depoimentos de pessoas próximas fazem o inventário definitivo do escritor. Tudo em carne viva como ele escolheu viver. Uma montanha russa de sentimentos que serve de escola para a turma de hoje que assiste a tudo em cima do muro e escolhe viver cercada de luxos e banalidades. Caio Fernando queria mais da vida e pagou um preço alto por isso e não se arrependeu. Viveu. E morreu cedo demais. Ou quem sabe na hora certa. A superficialidade de agora com certeza não interessaria a uma pessoa como ele que sempre quis mais. Muito mais.

E vou pegar um avião em Congonhas. Na hora do check-in cadê meus documentos ? Mexo e remexo na bolsa, nada consta. E começa a novela: fazer um boletim de ocorrência para poder embarcar e a cabeça não pára de rodar: onde foi parar meu RG ?. Chego em São Paulo de volta: vou até os “achados e perdidos” do aeroporto e nada. Volto para a casa e deixo tudo de pernas pro ar e nada. Não tem jeito: a solução é enfrentar o Poupatempo da Sé no centro nervoso de São Paulo. E pasmem, tudo funciona, serviço impecável. E dá-lhe fichas para preencher e boletos para pagar. Na saída respiro fundo: e se eu voltasse de metrô ? E pasmem, tudo funciona, o metrô de São Paulo é um orgulho nacional. Volto para casa e vou prá debaixo das cobertas para esquecer tal pesadelo que é perder documentos. Acordo com o porteiro com todos os dedos na minha campainha: o motorista do táxi tinha achado tudo, passou no banco onde eu tinha conta, pegou meu endereço e bateu na minha porta. Nem tudo está perdido. E o mundo não se acabou.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Entre Tapas e Beijos
|
|
|
|
|
|

Todo o ano é a mesma coisa. Insistem em premiar a nossa música brasileira.
Tem prêmio que quer fazer justiça com as próprias mãos e entrega troféu para uma turma da antiga que o Brasil (felizmente ou infelizmente) já esqueceu, deixando todos na platéia sem entender nada. Tem prêmio para uma gente jovem reunida que deixa a turma com mais de 30 em casa se perguntando a cada resultado: “quem é esse ?”. Resumindo: não tem prêmio nenhum. Essa é a sensação que eu tenho cada vez que vejo esses eventos de divulgação de celebridades. Sim, porque é para isso que eles servem. Música que é bom nada.
Somos um país pluralista em todos os sentidos. Tendências e posições no ranking não nos definem. Somos um pobre país de terceira categoria e no entanto o mundo todo nos conhece. E temos nossas particularidades: Caetano Veloso é um compositor baiano de Santo Amaro que faz turnê mundial todo o ano. Bibi Ferreira é uma grande atriz brasileira que ganhou o mundo interpretando Edith Piaf. Uma cantora em cima de um trio elétrico no calor do verão baiano aparece vestida de Gucci e Prada. Deliciosas confusões que fazem daqui o inominável. Por isso tanta dúvida na hora de premiar a nossa música brasileira, como, por exemplo, indicar Zé Renato e Maria Alcina para uma mesma categoria, ou cogitar o nome de Marcelo D2 para melhor cantor. E a minha cama é que sofre com isso, como aconteceu nessa semana, em que antes de dormir, fui assaltado pela reprise de um desses prêmios que além da confusão musical ainda parecia um espetáculo da emissora concorrente, copiando layouts e formatos de apresentação de outro canal. Eu dou soco no travesseiro, jogo o lençol no chão, porque não agüento tanta gente ruim com cara de definitivo, tanto prêmio em vão para tanta gente inútil que não mexe uma peça no nosso tabuleiro musical. E o meu twitter bomba: eu grito de cá e o povo responde de lá. Tem fã que me xinga. Tem quem concorde com os meus comentários, é uma esculhambação democrática. Como o Brasil. Assim era na época dos festivais da canção. Todo mundo estava mais preocupado em vaiar o concorrente do que aplaudir a sua música favorita. A gente não se leva a sério mesmo e tudo vira motivo de alegria e confusão, porque temos sentimentos misturados. Passamos muito sufoco e ao contrario do mundo lá fora que desabafa em forma de bombas e guerras, nós temos um fina ironia que sempre debocha da dor. O que nos faz chorar, amanhã estará nos botequins em forma de piada. Por isso esqueçam esses prêmios. Deixem a MPB em paz. Deixem os falsos emos fazerem rock brasileiro Deixa o axé usar grife importada. Deixa eu dizer o que penso dessa vida. Preciso demais desabafar.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Eu só digo o que penso, só faço o que gosto e aquilo que creio
|
|
|
|
|
|
Internet não é nossa casa. Um site não é para ser lido apenas por um círculo de amigos interessados no seu trabalho. Tenho consciência disso e exercito meus textos em blogs, sites, facebooks e twitters pensando nos milhões de leitores anônimos que passam por ali. Essa semana depois de uma longa espera, muita especulação e ansiedade sobre o disco de Simone , ele chegou as minhas mãos. Foi uma decepção. Tudo ali carecia de novidade e emoção. Diante disso fiz um texto no calor da hora em que ouvi, porque como não sou crítico e meus textos estão em lugares onde minha palavra tem alguma valia, fui verdadeiro e quase cruel. Não retiro dali nenhuma palavra. Arrependimento não tem lugar na minha vida. O que eu esqueci de falar principalmente para os fãs de Simone (que claro, não vêem defeitos em sua musa única) é que também sou um deles, assim como sou um seguidor fiél de milhares de artistas que diariamente rendo tributos. Apenas não deixo a paixão me cegar. Uma grande carreira e o tempo não me impedem de analisar um disco como o de qualquer principiante. A história de um artista não pode pesar na hora de argumentar sobre um novo produto. Iniciantes e veteranos devem ter peso igual nessa hora. E por serem tão importantes na minha vida e me mostrarem os caminhos por onde sigo, sou exigente com esses mestres como um filho que exige educação dos pais.
Simone apareceu aqui em casa muito cedo seu disco “Gotas D’Agua” de 1975 até hoje figura nos meus preferidos, tendo prestado homenagem a ele no meu livro. Falando em homenagem, participei do Programa do Raul Gil dizendo pessoalmente e a cores tudo que sinto por Simone. Um depoimento espontâneo e verdadeiro. Tenho em minha casa um acervo de vídeos e raridades de sua carreira de botar inveja em fãs iniciantes. Comprei seus primeiros discos (re-editados agora em bela caixa) e ouço a todos com freqüência. Tudo isso para dizer aos fãs de Simone que eu sou um deles na multidão. Ao ouvir este seu novo e fraco disco, fico triste mas não recolho o seu passado musical e o coloco na lixeira. Coloco no meu coração e no meu Ipod e não desisto de esperar por novos álbuns porque não sou saudosista. Simone está viva e potente para fazer muitos discos ainda. Este para mim não rolou mas outros virão. E eu espero.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
O Tempo Não Pára e No Entanto Ele Nunca Envelhece
|
|
|
|
|
|

Eu sei que já faz alguns dias que a palestra de Maria Bethânia na Casa do Saber aconteceu. Mas o que se passou naqueles cinqüenta minutos me fez pensar muito antes de começar esse texto.
Por que Bethânia mantém o essencial há mais de quarenta anos e sempre é uma novidade ? Por que tanta gente sobe e desce no trem das canções e ela permanece no comando da viagem ? Tudo isso passou pela minha cabeça naquele curto espaço de tempo em que, sentado ao lado de oitenta pessoas numa minúscula sala de aula, assisti Bethânia encantar, cantar e declamar a nossa poesia que, infelizmente, não se aprende mais na escola.
Bethânia lamenta nossa pobreza cultural. Aplaude nossos mestres da literatura e da canção popular. Inventa um palco e um cenário num lugar improvável para mostrar que sua vitalidade aos 63 anos causa inveja aos menores de idade do Brasil. Seu irmão Caetano Veloso, as atrizes Renata Sorrah e Regina Casé, a diretora Bia Lessa e eu seu anônimo e eterno seguidor, somos todos iguais nessa noite: estamos ali para ver uma artista que é pedra de rumo em nossa vidas.
Bethânia chega mansa e reverente com um caderno repleto de anotações e faz a casualidade de um bate-papo virar um pronunciamento oficial sobre a nossa historia cultural. Mistura trechos de canções que traduzem em som as palavras de Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Fernando Pessoa e seus heterônimos e até um improvável Fausto Fawcett, com a viola caipira de Jaime Além que está sentado ao pé de sua musa num sarau desprovido de pretensões e formalidades.
Penso durante esse tempo em que ela está ali na minha frente, que sua vida particular nunca foi informada ao mundo. De Bethânia só se sabe no palco. De Bethânia não se quer saber nada mais do que ela representa em cena. Ela nos ensinou assim Uma professora também de ética e respeito. O doce mistério de sua vida também é arte que ela cuida de perto.
E assim como entrou, Bethânia passa por entre seus “alunos” e da porta ouvimos seu grito de guerra: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz...”. Na saída, cada um pega o seu táxi em silêncio, como convém ao vermos um deus ou um poeta, e voltamos para a casa repletos de arte e saciados de sua presença. A beleza de sermos um eterno aprendiz de Maria Bethânia.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Um Museu de Velhas Novidades
|
|
|
|
|
|

Simone está de volta. Ou não. Essa é a sensação que seu disco novo traz. Arranjos medrosos com cara de clássicos e Simone cantando todas as músicas da mesma maneira, transformando o disco numa faixa só. Essa eterna sensação de que cantoras como ela e Gal Costa, que chafurdaram nos perigos do rio brega nos anos 80, poderão um dia voltar a nos surpreender já dançou há muito tempo. Mesmo que as esperanças de um fã não morram jamais não adianta: o sonho acabou. Gal a cada tentativa de novidade ou não encara o projeto completamente fazendo shows preguiçosos e pela metade, ou insiste em regravações com cara de bossa nova parecendo arrepender-se das transgressões que cometeu, querendo virar João Gilberto de saias como no início de sua carreira.
Simone, assim como Gal, foi guiada por mestres imponentes no início de sua trajetória: Herminio Bello de Carvalho, Milton Nascimento e Sueli Costa que deram ao seu repertório um aval de eterno. Infelizmente hoje esses nomes não sustentam sua história, porque dona de seu nariz e desobediente no mau sentido, Simone segue agora somente sua intuição, não conseguindo repetir o brilhantismo de outrora. Apesar de neste novo disco figurarem grandes compositores da MPB, o disco não diz nada. Uma ficha técnica de ouro com cara de lata barata. Simone parece ter medo de alcançar as notas, e os arranjos parecem querer dizer que agora o pesadelo passou, que a qualidade em sua careira discográfica voltou dessa vez para ficar. Uma preguiça total. Envelhecer é fato.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Cada Vez Que Eu Fujo, Eu Me Aproximo Mais
|
|
|
|
|
|

Esse texto não é sobre o disco "Nove" de Ana Carolina. Esse texto é sobre a força e o carisma de um artista, independente do ser crítico ou do gosto de cada um.
Cantora aqui em casa chega cedo. Até mesmo antes de gravar noticias chegam ao meu ouvido e eu pego o primeiro trem bala para ir ao encontro de uma delas. As vezes é uma rota de colisão: um acidente de percurso. As vezes é a glória do saber querer, um explode coração. E Ana Carolina foi assim: naquele ano seu primeiro disco assombrou a todos e iluminou a minha casa. Era um disco irregular, apesar de hoje os críticos o considerarem um clássico e ficarem eternamente comparando com os posteriores. Ali já estavam sua voz potente, as composiçoes próprias de estilo vingativo e um visual vermelho em todos os sentidos. Arrebatou o Brasil imediatamente. Atravessei a sua vida no segundo disco quando já estava totalmente abduzido pelo seu canto.
Mas esse texto nao é sobre talento. É um texto sobre a amizade. Sobre admiração mútua. Essa semana fui para o Rio de Janeiro e escolhi sua casa como abrigo. Ali passamos horas indescritiveis de alegria e emoção. Ouvimos músicas (nunca as nossas), rimos madrugadas inteiras, discutimos arte e amor como dois irmãos que somos. Dias inesquecíveis onde matamos nossa saudade.
Eu não uso linhas telefônicas com Ana. Tampouco ela me procura com frequência. Não existem emails. Skype uma vez e foi com a câmera desligada (eu juro ! ). Mas somos ligados num acordo intimo. Como a mão direita e esquerda.
Ana Carolina é uma artista de sucesso . E esse bem suceder ela divide com todos ao seu redor. Que bom que eu estou ali. Numa platéia espremido na turba enfurecida ou no sossego do seu lar. Coisa boa é poder se estar ao lado de gente vitoriosa. Levanta o astral e faz bem a saûde. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Uma Dama Indigna
|
|
|
|
|
|

Quinta feira à noite. A rua Augusta ferve de prostitutas, buzinas e carros. O lado underground de São Paulo que não morre jamais. Ali, dentro de um escuro antro de jovens chamado Studio SP, uma musa da antiga Lira Paulistana mantém-se de pé, cheia de integridade e sofisticação. Seu nome é Cida Moreira.
Sentados em algumas mesas, eu avisto contemporâneos de sua geração e pelas arquibancadas uma turma que estava bem longe de nascer quando seu canto rascante invadiu o Brasil. Não importa: para eles Cida é a rainha daquele lugar. Todos aplaudem freneticamente e até invadem o palco para beijar a sua mão, como é o caso de Hélio Flanders, isso mesmo, o vocalista da banda Vanguart, que esta ali para render tributo a loucura imutável de Cida Moreira.
Ela pode tudo e sabe disso: atravessa o cancioneiro mundial e brasileiro com a propriedade do definitivo. Recria o Vapor Barato de Waly Salomão com a renovação necessária que os modernos de plantão jamais atingirão. Arrasta as correntes da Canção Desnaturada de Chico Buarque, ilumina um antigo Stevie Wonder, fica bêbada e incoveniente para reler Amy Winehouse, lava a alma de Janis Joplin ao som de Summertime e alimenta seu alter-ego Tom Waits com um imponente piano de cauda que nessa noite aparece disfarçado de teclado mas que não interfere em nada na força de sua interpretação.
Cida Moreira está em casa ali: nunca quis a segurança das velhas divas, ainda quer o risco das novas platéias, corre o risco da desatenção, mas nunca o da estagnação. Comporta-se em cena como uma garota rebelde que desconhece sua verdadeira idade. Por isso seu canto ainda fere ouvidos desatentos. Por isso sua presença em cena é alimento vivo para quem quer viver de arte e procura inspiração. Cida é um livro para esses curiosos. Procure por ela nas boas casas do ramo. Ou nas piores. A boa música não escolhe lugar.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Carta Aberta a Rafael Cortez
|
|
|
|
|
|
Meu Caro Rafael,
Realmente a gente não se conhece e escrever carta é coisa da antiga. Mas só você vai entender os motivos desse texto, porque eu sei que no peito desse humorista bate uma Nara Leão.
Essa semana só deu ela aqui em casa. Na área da literatura, a já definitiva biografia de Cássio Cavalcante “Nara Leão - A Musa dos Trópicos”. Na televisão abri meus arquivos e assisti todos os clipes e especiais que ela fez para a televisão. Mas foi o meu Ipod descuidado no modo shuffle que deu a partida nisso tudo. Depois do aparelinho passar duas vezes pela discografia de Nara, eu pressenti os sinais e me debrucei (novamente) profundamente em sua obra. É Rafael, você tem razão: Nara Leão é a maior . Sua inteligência musical, seu olhar sobre o Brasil, suas descobertas de novos compositores são de grande valia para essa enxurrada de gente nova (?) que quer ocupar novos tronos na academia da música popular. Nara nunca quis o poder. Queria cantar e discutir um país através de suas escolhas musicais. Pensou em parar e parou. Continuou quando achou necessário seu discurso. Parou de novo. E nessas voltas sempre foi brilhante, inesperada, atual e necessária.
Quem hoje seria musa de um movimento e ao gravar seu primeiro disco escolheria outro caminho? A pré-musa da bossa nova (sim, porque nem nome esse estilo tinha ainda e Nara já estava nele) pressentiu o cansaço e o desgaste do banquinho e violão e foi para o morro buscar novos compositores, causando polêmica que ela respondeu a altura. Sim, porque Nara não levava desaforo para casa. Arranhava com fúria a sua imagem de boa menina se fosse preciso. E os militares ficaram de olho nela. Nara não se intimidou. Sua discografia no período da ditadura atestam isso. Ao mesmo tempo acendeu uma vela no breu ao abraçar o Tropicalismo de Caetano e Gil e com seu jeito tímido ajudou na afirmação desse movimento nada discreto e corajoso.
E os anos 70, Rafael ? Nara lança um disco infantil anos-luz de Xuxas e Partimpins e grava um tributo a Roberto Carlos quinze anos antes de Maria Bethânia vender um milhão.
E os anos 80 ? O rock comendo solto no Brasil e ela cantando Fagner, João Donato e Martinho da Vila. Naquele momento essas escolhas poderiam soar desconexas, mas agora ao abrir as duas belas caixas (obra de arte) que contém toda a sua discografia, todas as suas profecias se confirmaram.
Ao fazer agora meu terceiro disco de remixes com quatorze cantoras brasileiras, eu não poderia deixar Nara de fora do meu projeto. Respirei fundo e mandei um email para sua filha Isabel Diegues falando de minhas (más ?) intenções. Fui autorizado e sua gravação de “Mal Me Quer” virou música para dançar. Motivo de orgulho para mim ousar tocar em sua pequena voz de ouro.
Então é isso, Rafael. Volto para as pistas e você para o seu programa. E Nara Leão na cabeça. E no coração.

|
|
|
|
|
|
|
|
|
Cantar e Compor Não é A Mesma Coisa
|
|
|
|
|
|

Nessa balaiada de novas cantoras que o mercado tá soltando e o MySpace tá bombando, noventa por cento delas querem ser compositoras. Todas sofríveis. Um dia conversando com Marina Lima ela me disse que não acredita em gente que faz trinta músicas por mês. Uma boa canção demora um tempo para nascer, isso se você tiver realmente o dom, porque hoje em dia de olho nos direitos autorais, todas querem cantar e compor achando que esses dois milagres da natureza nascem para qualquer um. Quero evitar nomes aqui para não ferir leitores tietes dessas equivocadas mulheres/cantoras/compositoras mas só nesse mês saíram três discos femininos ruins de doer. Todas envoltas em promessas de definitivas e poderosas, mas no fundo pobres copiadoras de formatos vencedores ou já gastos. Todas querem ser Marisa, Adriana, Cássia, Ana, Vanessa e quem mais tiver dado certo. Todas falando de amor da forma mais previsível e desgastada possível, usando de falsa simplicidade, de arranjos “cool” e com cara de desencanada, mas o que está por trás é muita ambição e clonagem. Como diria Caetano Veloso “Por que será que fazem sempre tantas canções de amor ?”, é muito ciúme, muita queixa, muito ai, muita saudade, muito coração, abusando de um santo nome em vão. Que saudade das grandes intérpretes brasileiras: Elis Regina nunca quis ser compositora. Gal Costa imortalizou grandes canções. Maria Bethânia mantém até hoje um repertório irretocável, todas elas sem precisar pegar na caneta da composição. Essas meninas de hoje precisam aprender a só ser. Uma cara bonitinha ou uma atitude masculina num corpo feminino não fazem o milagre da música acontecer. Cantar é mais do que sonhar. É ter o coração daquilo. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Velha Roupa Colorida
|
|
|
|
|
|
A decretada falência das gravadoras começam a render bons frutos para a velha guarda da MPB: João Bosco lança um grande disco de inéditas, Erasmo Carlos volta para o trono do Rock’n’Roll e a paulista Célia promete oxigênio em seu novo álbum. Então viva a decadência das multinacionais ! Ninguém vende mais, ninguém fica rico com música, então vamos fazer o que a gente quiser !

João Bosco, como a maioria de seus contemporâneos, viu os anos noventa sob a ótica das regravações e discos ao vivo. Seus clássicos apareceram exaustivamente em regravações desnecessárias. E dá-lhe participações especiais de amigos novos e antigos para trazer novidade nenhuma. Com o inicio da brilhante parceria com seu filho Francisco Bosco (num tempo de estio de seu parceiro mais constante Aldir Blanc) as coisas começaram a melhorar, mas sempre aparecia um projeto “ao vivo”, um “acústico” que trazia de volta a sua carreira para a estagnação. Agora com seu novo álbum Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo no Chão, João retoma com vigor sua obra de onde parou. Um disco feito sem pressa, com sua voz de veludo em tom sussurrante, seu violão que vale por mil orquestras e as parcerias de ouro que incluem o já citado Francisco Bosco, Carlos Rennó e a volta daquele que nunca foi: Aldir Blanc. Um motivo de orgulho em sua discografia. Um disco que já nasce clássico.

Erasmo Carlos sempre foi mais moderno e interessante que seu parceiro Roberto. O nosso Rei tem outros motivos para viver a glória merecida, mas sempre foi de autoria de Erasmo os momentos em que a discografia de Roberto mostrou alguma novidade ou sinalizou alguma virada. Porque Erasmo é naturalmente mais inquieto e menos preso a superstições e compromissos de imagem. Nunca quis o que não fosse seu: construiu uma discografia de peso sem olhar para o que fazia o “amigo de fé”. Uma obra de ouro. E as gravadoras nunca souberam direito o que fazer com ele: davam chão para caminhar alternando com anos de geladeira. O mundo indecifrável e fechado de Roberto fez com que Erasmo fosse ídolo da turma mais jovem da música brasileira, e ele nunca disse não: gravou com todos. Deu canções inéditas para muitos. Agora sua discografia renasce novamente com o álbum Rock’N”Roll que não define mudanças. Confirma o que ela já faz há muito tempo: rock brasileiro da melhor qualidade. Suas letras ingênuas fazem dele um eterno garotão da Tijuca. O tempo não pára e no entanto Erasmo nunca envelhece.

Célia surgiu no início dos anos 70 no programa do Flávio Cavalcanti. Para desavisados eu devo estar falando em outra língua. Quem é Célia ? Quem é Flavio Cavalcanti ? Vai no Google ou continua lendo aqui.
Sempre foi no Rio de Janeiro que os tambores da arte bateram mais alto. Atores e cantores de grande expressão escolheram ali para viver, as grandes gravadoras se intalaram na cidade, e as outras grandes capitais ficaram soterradas por essa máfia que se instaurou. Apesar dos grandes festivais e o Tropicalismo terem escolhido São Paulo como ponto de partida, pouco se fala disso hoje em dia. Nos anos oitenta o rock brasileiro teve mais consistência na Paulicéia Desvairada com Julio Barroso, Titãs e a Lira Paulistana de Arrigo Barnabé, mas na hora das cartas na mesa só se fala da música jovem feita no Rio de Janeiro naquele momento. O compositor paulista ficou na mágoa e os cantores caíram no esquecimento. Chegando em São Paulo procurei por esses artistas que já habitavam o meu cubículo em Copacabana: Ná Ozzetti, Cida Moreira, Eduardo Gudin. E anos mais tarde, quando lancei meu segundo disco de remixes, chamei a paulistana Célia para dar uma canja nos shows de lançamento. E só deu ela no palco. Os mais jovens me perguntavam: "who’s that girl ?" e os mais velhos assistiam a velha chama do passado se acender novamente. Uma grande voz que parou no tempo por descuido de nossa memória. Agora Célia prepara disco novo. Numa tarde em seu apartamento no Morumbi abri meu baú e enchi sua cabeça de novos sonhos (Zeca Baleiro, Adriana Calcanhotto e Zélia Duncan) e um passado de glória sempre esquecido (Benito Di Paula). Agora é esperar pelos novos ventos que com certeza irão soprar no céu da música de São Paulo.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
O Segundo Céu
|
|
|
|
|
|

O segundo álbum de um artista é um karma. Do bem ou do mal. Pode mudar os ventos da critica, que outrora foi do contra e agora está a favor, pode atrair desavisados de primeira viagem e que agora estão mais atentos, mas também pode causar tamanha decepção e vergonha em quem aplaudiu de forma precipitada logo no início, que uma terceira chance fica desde já descartada. Deixando essa suposta tese de lado, vamos aos fatos: a cantora Céu está lançando seu segundo álbum aqui no Brasil e no mundo que também a consagrou em seu primeiro trabalho.
Papo de cantora nova chega rápido aos meus ouvidos: quem me conhece adora me provocar com vozes que eu ainda não conheço, e eu sempre caio de gaiato nesse navio. Às vezes os meus amigos estão certos, às vezes muito errados, vítimas de euforias passageiras. Assim foi com a Céu: os rumores de seu canto chegaram cedo aqui em casa em forma de exageros: todos diziam que ela iria revolucionar quando chegasse ao mercado. E foi assim que numa noite fui até um pequeno bar na Vila Madalena aqui em São Paulo para assistir ao tal fenômeno. Fiquei frio. Num pequeno palco uma bela menina de ar blasé e falsamente desencanado, pouco me espantou. No final fui arrastado até ela que mal me disse um “oi”. Tudo bem, eu pensei. Mais uma que já vai passar. Logo em seguida fui tocar em Paris e como sempre faço, corri para a loja mais próxima para comprar todos os discos e vídeos que coubessem no limite do meu cartão de crédito. E só dava ela por lá: pôster na parede, música tocando alto, show programado para aquele mês, Céu era um surto brasileiro no coração dos franceses. Fiquei tão excitado que comprei vários por saber que a distribuição por aqui ainda era incerta. Cheguei no hotel e descarreguei no meu Ipod. Apesar, de no geral, achar as letras fracas,a sonoridade era quente e inédita para mim, e acabou sendo a trilha dessa minha viagem. Depois houve o grande estouro na mídia brasileira e virou chique nas rodas de música dizer que a cantora Céu era o máximo. E ela não quis tanto confete. Escondeu-se em São Paulo, mesmo tendo uma extensa agenda de shows, descartou o padrão globo de qualidade, e no geral deu as costas para o mainstream e a super exposição. Logo em seguida vieram mais 5.450 cantoras ambiciosas dispostas a tudo pela fama e Céu caiu no esquecimento das turminhas. Ainda bem. Sucesso é um senhor perigoso que pede respeito, já dizia Bethânia.
Agora seu segundo disco está aqui na minha mão. Não há nenhuma ruptura com o primeiro. Não foram escolhidos nomes diferentes na ficha técnica para causar espanto. Céu quer prosseguir e não gerar expectativas. Foi emocionante ouvir de novo seu canto íntegro, depois de tantas cantoras que chegaram e já passaram desde seu surgimento. Foi motivo de orgulho constatar sua inteligência ao controlar sua carreira longe das pressas que geram os equívocos passageiros. Não esperem de mim destaque para esta ou aquela faixa. Ouçam Vagarosa por inteiro. Saboreiem os acordes. Sintam cada canção. O segundo álbum de Céu veio para realinhar as órbitas dos planetas
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Keep Young & Beautiful
|
|
|
|
|
|

Fernanda Young irrita. Ela sabe disso e tira proveito do assunto em seu programa dominical no GNT. Conheço Fernanda há muito tempo. Tipo de pessoa que já nasce sendo. Eu era caixa da boate Crepúsculo de Cubatão no Rio de Janeiro e ela já era a rainha do lugar. Chegava, magnetizava, centralizava. Nasceu musa e polêmica. Nesse tempo ela tinha apenas 16 anos e sabia tudo: entrava em qualquer assunto sem parecer uma amadora. E assim nos conhecemos. Eu, preso a milhões de limites e moralismos. Ela, livre, leve e solta. Vim para São Paulo antes dela com a certeza de que esta cidade estava fadada a nos receber para sempre pela perfeita sintonia entre os nossos interesses e o que a cidade tem pra apresentar. Típico caso da cegonha que se enganou. Éramos intensos demais para rimar apenas praia e sol. Fernanda chegou por aqui de mansinho: primeiro virou persona grata nas rodas de amigos de seu marido Alexandre Machado (importante publicitário e hoje uma das cabeças mais brilhantes da televisão brasileira, a série "Os Normais" não me deixa mentir). Em seguida, começou a lançar periodicamente seus livros sempre com ótima aceitação. Mas tudo isso era pouco e ela sempre quis muito, mesmo parecendo ser modesta como diz Caetano, e hoje é atriz, apresentadora,escritora e redatora de seriados e filmes. Um dia Fernanda me ligou e disse: vou fazer um programa no GNT e queria que você fosse meu convidado no programa piloto. Eu disse sim e estava certo: seu programa poucos meses depois entrava no ar e assim se mantém até hoje com muito sucesso e polêmica. Fernanda veio para perturbar a ordem mundial. Seu comportamento e seu visual estão bem longe de parecerem normais. Tem gente que ama. Tem gente que odeia. Muito. Nunca reações em doses homeopáticas. Essa semana fui até o programa gravar minha entrevista. Foi hilário. Foi emocionante. Rever minha amiga em estado de glória e passar a limpo o passado, o presente e o futuro. Foi mais que bom. Agora é esperar para ver. Nesse domingo 12 de Julho estaremos os dois no ar. O trampolim terá sido a nossa amizade. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Release CD "Essa Moça Tá Diferente"
|
|
|
|
|
|
Começar pela letra Z. Zé Pedro é um ser de definição quase encantada, como todos os seres que decidem assinar seus nomes pela última letra do alfabeto. A letra “Z”, no andamento dos vocábulos ocidentais, foi o último símbolo acrescentado ao alfabeto. Claro que sabemos que o nome dele vem de “José”, mas isso entrou há tempos numa escala Z do não-vale. Pra quê? Nada mais Z do que perguntar isso. Então voltamos a Zé Pedro. Z soa como zumbido, zoada, zorra, zás-trás. Z é um som fricativo e uma letra nunca normal. Ponto Z. Z de zum-zum. Z de zoom. Zé Pedro sobrevoa o país desde a fase dos chapéus malucos na tevê até alcançar hoje o posto de maior produtor de trilhas e de DJ com entrada liberada em qualquer lance criativo. Portas livres, janelas abertas, chapéus ao vento. Zé Pedro se construiu como personagem. Por detrás do Zé risonho, zilhões de voltz, válvulas, agulhas, pick-ups e fortalezas. Sua caverna é uma caixa de som cheia de cantoras. Algumas baixam. Outras ele levanta, alicia, envolve, refaz, afia, embala, engrandece. E chega de preâmbulos. Falar agora do techno-sacerdote Zé Pedro. “Mas falar o quê?”, reclamam suas divas escolhidas, pulando em seus saltos-altos ou em gravações pouco divulgadas. Ele agora volta a atacar o mulherio da MPB, lançando outro CD de remixes sobre interpretações que escolheu como integrantes de seu hinário particular. Tal qual um químico que se diverte em misturar poções de cores diferentes, Zé Pedro pega uma canção, tasca chuvas de loopings, sacode BPM nos andamentos, reveste as músicas com sonoridades jamais pensadas em suas produções originais, cria efeitos mirabolantes e finaliza com um componente mágico que ele não dá a receita a ninguém – nem mesmo se Maria Bethânia se ajoelhasse a seus pés, suplicante, soluçante. Zé Pedro cria misturações químicas, cianuretos e beijocas, balança quadris inesperados, levanta cabelos & olhos tortos & saudades. O resultado do trabalho é puro fetiche, puro feitiço: tudo começa a se mexer, tudo começa a bailar: cantoras, microfones, decotes, pistas, platéias, parentes, fãs-clubes, laquês, partituras, estantes, instrumentos, matrizes, caixas de som. Ventilador na potência máxima. Orelhas receptivas. Algo de inolvidável no ar. Ora, é o som do Zé Pedro. Dessa vez entra em campo um mix de cantoras que ninguém pensaria misturar nem em delírio. Mas ele gosta da pororoca, do zigue-zague, do contraste vociferador. Sacode a poeira com Marisa Monte, traz Elis Regina para as pistas, põe a mão nas cadeiras com Alcione, libera o compasso de Ângela Rô Rô, cutuca Maysa com eletricidade, liga a tomada de Maria Alcina no 220 , traz fôlego novo para Cássia Eller, aplica asas nas costas de Zélia Duncan, coloca Nara Leão para saracotear, rodopia com Fafá de Belém, joga Fernanda Takai na esquina do ritmo, tira Célia do sério,dá um banho de pirlimpimpim em Mart’nália e faz Beth Carvalho flutuar/festejar no espaço sideral da alegria. Em tempo: o nome do CD, “Essa Moça Tá Diferente!” faz referência a um samba antigo/ homônimo de Chico Buarque. Que, aliás, é o compositor favorito das mulheres que cantam. Assim como Zé Pedro é o (re)feitor predileto das cantantes brasileiras. Então vamos deixar que ele, o cientista da MPB, toque. E pedir que elas abram os seus gogós. Afinal, ele ama essas moças, garotas, mulheres, divas. Afinal, ele crê que as divindades da música brasileira jamais serão diluições. Afinal, ele venera estilos, levanta tumbas, bate tambor, busca tambor, tamborila. Ele é tambor. Tambor. Zé Pedro remexe. Zé Mix.
Eduardo Logullo, Maio 2009
|
|
|
|
|
|
|
|
Ando Meio Desligado (DJ Zé Pedro Mix) |
| Ney Matogrosso |
| |
download |
|
|
|
|
Na Veia da Nêga (DJ Zé Pedro Mix) |
| Luciana Mello |
| |
download |
|
|
|
|
Gatas Extraordinárias (DJ Zé Pedro Mix) |
| Cássia Eller |
| |
download |
|
|
|
|
Só Deixo Meu Coração Na Mão De Quem Pode (DJ Zé Pedro Mix) |
| Kátia B |
| |
download |
|
|
|
|
Beat Acelerado (DJ Zé Pedro Mix) |
| Metrô |
| |
download |
|
|
|
|
Escravo da Alegria (DJ Zé Pedro Mix) |
| Leila Pinheiro |
| |
download |
|
|
|