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Antes Que Seja Tarde

Meu ócio sempre foi preenchido pelo cinema. Um tempo na minha agenda e eu corro para as paredes da minha casa forradas de filmes que ainda não vi mas que eu levo fé que um dia verei. Essa semana assisti Jean Charles de Henrique Goldman e morri de orgulho. Orgulho de um filme sem pretensões e decididamente genial. Orgulho de um ator chamado Luis Miranda que apareceu no meu campo de visão num projeto chamado Terça Insana e que volta agora a me encantar em dois grandes momentos que confirmam o seu talento: o monólogo 7 Conto no teatro e o filme que comento aqui.

A crise no cinema nacional passou já faz tempo. Claro que como tudo no Brasil, a nossa sétima arte também é cercada de lamúrias. Diretores e atores continuam dizendo que estão à beira da falência, mas toda vez que chego numa locadora a prateleira tá bombando de novos filmes brazucas. Mais da metade não serve prá nada, prevísiveis e sofríveis. Além disso padecemos de um problema a mais: os atores no Brasil topam qualquer mico na televisão. Novelas e mini-séries abusam de personagens ridículos e explícitos que a maioria interpreta por um lugar ao sol. Quando vão para o cinema esses mesmos atores querem parecer interessantes e potentes, aí já é tarde demais, a credibilidade e o talento já perderam a força necessária. Tudo isso não acontece em Jean Charles. Tudo prende sua atenção: roteiro afiado, fotografia da melhor qualidade, Selton Mello num de seus melhores momentos como ator.

Quando decido ver um filme nunca corro para o jornal para ler críticas ou saber o enredo. Fico literalmente no escuro. É delicioso ver um filme chegar aos meus olhos com toda a novidade necessária para realmente me envolver. Nada de influências de grandes nomes na ficha técnica ou consagrações assinadas por terceiros. Assim, quando uma película se torna fundamental na minha vida, tenho a sensação egoísta e fantasiosa de que foi feito só prá mim. Adoro. Portanto aqui no caso de Jean Charles como de costume eu não sabia que era baseado em um fato real, que o cenário era uma Londres realista e cruel e que um desfecho trágico me aguardava no final. Todos esses inesperados assuntos me deixaram profundamente emocionado e atento até o fim. Ao desligar a TV fiquei pensando porque esse filme não reverberou com a força que devia. Não foi assunto na minha roda de amigos nem ninguém me falou a frase lugar-comum quando o assunto é cinema: “você precisa ver. É o filme do ano”. Revirando minha memória, me lembrei que Jean Charles foi lançado ao mesmo tempo que uma comédia tola e fraca chamada Mulher Invisível que também trazia Selton Mello em seu elenco e que apesar de não ter importância nenhuma, foi divulgado maciçamente do Oiapoque ao Chuí. Luana Piovani semi-nua teria sido o motivo ? Pobre Brasil. Um filme como Jean Charles baseado num fato contundente como esse, em qualquer lugar do mundo seria assunto em todas as escolas, bares e afins e se tornaria um blockbuster imediato.

    Jean Charles toca em feridas que deveriam ser discutidas à exaustão nas mídias especializadas daqui. A morte inesperada de um brasileiro em Londres de forma brutal e a questão dos imigrantes do terceiro mundo sonhando com uma vida melhor, já levam o filme para o posto de essencial. Agora ele está nas locadoras. Corra para lá e não se arrependa. Nem sempre existe vida inteligente no cinema nacional. A hora é essa.

 

 

 

A Hora da Virada

Ana Carolina mudou. Prá melhor. A estréia do seu show ontem em São Paulo de frente para um Credicard Hall lotado demonstrou isso. Sua platéia também já é outra. Diante de sua rainha, mulheres enlouquecidas deram um tempo em sua histeria para novamente prestarem atenção no essencial que tanto idolatram. Ana chega ao palco em pleno vôo através de uma grua que a faz levitar sobre seus súditos cantando uma de suas esquecidas no tempo e mais belas canções, “Que Se Danem os Nós” de seu segundo álbum. Quando volta ao chão já é outra: seus marcantes cabelos cacheados e sua maquiagem pesada não estão mais lá, desfazendo um personagem que já mostrava sinais de desgaste. Claro que o preto ainda é a cor de seu figurino, mas seu rosto está mais real longe dos aparatos visuais de sempre. A banda concentrada no lado esquerdo do palco numa plataforma que os deixa distantes da intérprete, e o cenário que também acontece ao longe, deixam Ana Carolina mais exposta e por isso muito melhor. Definitivamente esse é o seu melhor roteiro de show. As canções se desencadeiam numa seqüência em que todas se justificam e se agigantam se comparadas ao passado ou ao resultado do seu mais recente álbum “Nove”. A escolha inesperada das músicas de outros autores também é certeira ao trazer para si o discurso sexual latente de “Essa Mulher” de Arnaldo Antunes e “Odeio” de Caetano Veloso, canções que se encaixam perfeitamente no perfil da compositora que traz consigo e em suas letras um perfil desafiador e sensual. A performance dos músicos em momento solo também é um dos melhores momentos do show ao trazer novos ares para a canção “Bom Dia” de Swami Jr imortalizada por Zizi Possi e que Ana consegue refazer com grande novidade. Seu já também conhecido medley de canções de sucessos apresentado de forma a parecer uma única canção, também é um dos melhores momentos quando Ana mistura seu desgastado hit “É Isso Aí” com uma de suas mais brilhantes composições “O Avesso dos Ponteiros”, novamente sobrevoando o palco sobre uma platéia agora já incorporada ao espetáculo e aplaudindo de forma civilizada e consciente o que está diante de seus olhos. A solução encontrada para “O Cristo de Madeira” de seu álbum “Dois Quartos” com forte percussão e citação de“Construção” de Chico Buarque trazem novos e fortes significados para a canção num dos momentos mais aplaudidos do show. Ao cantar “Corredores”, uma forte chuva cai do teto do teatro fazendo impactante moldura para os versos que dizem:“quem visitou os corredores da minha alma soube dos meus erros e dos nós que fiz”. Os textos escolhidos também estão entre os melhores momentos do show e muito bem encaixados no roteiro podendo aparecerem no meio das músicas de forma inesperada ou como forte prenúncio de uma próxima canção. Ao final Ana aposta no óbvio com “Rosas” uma de suas piores músicas gravadas mas com forte apelo popular. Ao estranhar a distância da turba enlouquecida, Ana chama para frente do palco seu exército que prontamente atende ao seu chamado derrubando mesas e quem mais se interponha entre eles e sua musa. Mas aí era tarde demais: Ana já tinha se revelado novamente potente e iluminada, concentrada em seu ofício ao longo de um show, que volto a dizer, aposta todas as suas fichas num repertório coeso e inteligente, trazendo novamente um olhar atento para sua carreira, que dez anos depois de um inicio de não se esquecer, um meio duvidoso e um final que parece ainda longe de se aproximar, merece as glórias que desfruta.

Toda Forma de Amor

Essa semana, ainda resgatando para um novo aparelho o repertório do meu perdido Ipod com mais de 6 mil músicas, cheguei até o rei do pop Lulu Santos. Que sua música é a biografia de todo o jovem brasileiro não é novidade. Que não existe pista de dança sem um hit seu, minha profissão de DJ já tá cansada de saber. Mas existe um dado a mais que eu confirmei vasculhando sua obra por completo: a poesia de Lulu Santos é afiada e certeira. O ritmo animado, predominante em suas canções, talvez obscureça o letrista genial que ele é. As melodias se encaixam tão perfeitamente em seus rocks e baladas que todos cantam no chuveiro, na praia e no carro sem se darem conta de seu preciosismo.

Longe de ser um segundo escalão dentro da nossa história musical, Lulu Santos ao mesmo tempo não é considerado um ícone da casa real como Caetano Veloso e Chico Buarque, que além de serem idolatrados ainda são considerados grandes compositores. Isso se deve ao fato de que música pop na cabeça da grande maioria sempre rimou com o descartável e o superficial, sendo o mercado o principal culpado fazendo sempre questão de acentuar essa falsa verdade com a cada vez mais pobre música jovem brasileira.

Lulu sempre arrastou multidões aos seus espetáculos que são transformados em grandes karaokês tamanha a força dos coro popular entoando todo o seu repertório do início ao fim. Mas a minha sensação é de que ninguém repara no brilho de suas letras. Ninguém aprecia com a devida atenção seu jogo de palavras misturando humor, inteligência , sutileza numa mistura fina e exata que o coloca sim entre os principais compositores desse país.

Indignado e louco para confirmar essa minha tese juntei um grupo de amigos e li para eles algumas frases retiradas de alguns sucessos de sua carreira. Eu estava certo: ninguém havia prestado atenção nas frases cantadas desde sempre por todos. Ficaram pensativos e com um remorso no olhar. Missão cumprida.

Agora parto para a segunda etapa e repasso aqui, para você que me lê, algumas dessas frases que confirmam o que eu disse até agora. Veja quantas letras você havia reparado que eram geniais e quantas estavam no seu inconsciente sem a devida atenção. Boa viagem.

“O amor devia ser proibido porque é uma droga pesada, e se a pessoa tá viciada ela faz qualquer coisa por um papel de afeto”

“Não há lógica que faça desandar o que o acaso decidir”

“Mesmo após um dia intenso não devemos desencostar. Vá que por acaso falte o equilibrio ?”

“Imagino que no futuro as pessoas vão ler sobre nós e vão se admirar do jeito que a gente arrumou prá não deixar de se amar”

“Eu não sei viver sem ter carinho. Eu não sei viver triste e sozinho. É a minha condição”

“Queria que tu tivesses ciúmes de mim, queria te ver armar uma cena, quebrando coisas e dizendo aqui ninguém tasca é propriedade particular”

“É duro evitar o chavão quando se vive um”

“Já faz um tempo e eu me esqueci o que era mesmo que eu te prometi: se foi compromisso e compreensão ou luxo e paixão”

“Eu subo na corda bamba sem rede de proteção que é pra fazer climinha e chamar a atenção”

“Será possivel que calar a boca é o que vai sobrar para nós aqui ?”

“Eu fiz um teste pra uma fita com um elenco de dois. Na hora de rodar a produção sequer telefonou pra me explicar que resolveram me limar”

“Eu gosto tanto de você que até prefiro esconder, como uma idéia que existe na cabeça e não tem a menor pretensão de acontecer”

“O nosso amor não consta em livros, está fora do padrão. Não é ponta de estoque em liquidação”

“Quero mais nada que me lembre o tempo que perdi com perdas de tempo como você”

“Fui teu principe e teu sapo. Fui teu gato, fui teu cão. E gostei”

“Não consigo dominar seu interesse. Já fiz de tudo que estivesse ao meu alcance. Meus poderes não funcionam em você”

“Bem que eu achei que era artificial. Bem que eu notei que as balas eram de festim. Ainda assim me machucou. Mas não faz mal. Nada é só ruim”

“Eu tenho andado bolado com o jeito que a vida está. Um filme ruim em canal e hora que ninguém vê”

“Não vai me surpreender quando a ciência revelar que numa vida a dois somente a dor se iguala à alegria”

Encontro de Dois

Dentro da música brasileira existe um casal de aristocratas que ignora a pobreza vigente lá fora e segue fazendo canções de ouro que iluminam a nossa historia musical. Francis e Olívia Hime insistem na qualidade. Insistem em fazerem discos importantes.

Francis Hime completa agora neste ano, 70 anos de vida como maestro, compositor e cantor e lança um álbum duplo onde apresenta letras imponentes feitas com seus parceiros mais constantes como Geraldo Carneiro e Paulo César Pinheiro e os mais recentes como Joyce e Paulinho Moska, misturado a temas instrumentais que confirmam sua exuberância como arranjador.

Para o grande público a música de Francis sempre esteve ligada à obra de Chico Buarque, principalmente nos tempos idos dos anos 70 onde a dupla iluminou o Brasil com grandes sambas e temas de amor. Mas ele sempre foi além para os ouvidos mais atentos: foi parceiro de Vinicius de Moraes e Edu Lobo, fez trilha sonora para cinema e lançou belos discos inesquecíveis. Olívia sua musa e esposa, nunca quis o posto de maior cantora do Brasil, nem o de maior vendedora de discos da história da MPB como hoje todas almejam. A música sempre foi seu ofício por paixão, destino e vocação. Inicialmente como produtora dos primeiros discos de Francis e logo em seguida como compositora delicada, cantora de voz singela e bonita presença no palco. Cresci ao lado desses dois mestres, amadurecendo o meu gosto através de suas belas canções.

Um dia, cansados das estratégias e exigências das grandes gravadoras, tiveram através de Olívia e sua sócia Kati Almeida Braga, a idéia de fundarem um selo para inicialmente difundirem seus trabalhos e de alguns amigos sem espaço nas grandes mídias. Esta gravadora passaria a se chamar Biscoito Fino que hoje abriga em seu catálogo Maria Bethânia e Chico Buarque tamanha credibilidade, respeito e carinho com que tratam seus contratados. Ali novamente o trabalho de Francis e Olívia floresceu com a força merecida: ele prosseguiu de onde parou quando desligou-se da poderosa Som Livre, e Olívia além de comandar o selo voltou a ter belas idéias musicais como o CD/DVD em homenagem à obra de Ruy Guerra.

Através de Leila Pinheiro, minha cúmplice nesse amor pela dupla , tive oportunidade de conhecê-los numa noite linda em que Francis ao piano e Olívia e Leila como solistas atravessaram a obra desse maravilhoso compositor numa pequena casa de shows aqui em São Paulo. Ao final vi a surpresa com que receberam minha adoração. Naquele instante pude declarar o quanto foram e são importantes na minha formação musical.

Francis e Olívia não correm atrás do grande sem conteúdo. Não passam na estrada das celebridades. São dois artesãos da música e dela fazem seu sustento. Muito longe do óbvio. Muito perto do eterno. Compre agora “O Tempo das Palavras” e “Imagem” de Francis Hime e entenda o que eu digo.

Brincadeira de Gente Grande

Adriana Calcanhotto volta a ser criança. Um poder negado aos meros mortais e que ela exercita pela segunda vez desde que inventou o codinome de Partimpim. Depois de lançar o álbum “Maré” feito de canções “cabeça”, no melhor sentido, mas sem nenhum apelo para o grande público, Adriana volta ao universo infantil e faz um dos grandes discos do ano. Uma ouvinte atenta a tudo e todos que fazem música dentro e fora do Brasil, ela tira de sua cartola mágica regravações à espera de seu talento para virem à tona misturadas com canções próprias de seu vasto material que pode conter uma canção inédita para Maria Bethânia e Simone ou um prelúdio para ninar gente pequena. Um genial liquidificador de estilos musicais. Bem longe do oportunismo viciante de fazer um segundo volume de um projeto apenas por ter dado certo em vendas e repercussão, Partimpim tinha mesmo que voltar. Ainda haviam canções a serem ditas.

Assim como primeiro disco, todas as faixas desse novo álbum parecem impróprias para menores se comparadas ao nosso tempo de Xuxas, Maisas e afins. Discípula de Vinicius de Moraes e Nara Leão quando o assunto é criança, Adriana sabe a importância de se educar musicalmente uma nova geração. Era emocionante durante a primeira turnê de Partimpim ouvir o coro de crianças de todas as idades na platéia cantando Ferreira Gullar, Augusto de Campos e Chico Buarque como se fossem irmãos de Claudinho & Buchecha, e que de fato são, na cabeça de seres que, ainda munidos de ingenuidade, dispensam o preconceito musical. Adriana aproveita essa liberdade e traz ouro em forma de música para essa turma. Uma atitude que o Brasil desconhece, trazendo sempre para o mercado somente produtos que transformam nossos rebentos em retardados, imitando o visual de adultos oportunistas que conseguem fácil o dinheiro de pais desatentos. Mas chega de mágoa e vamos ao disco:

1) Baile Partimcundum

Marcha prá pular eletrônica que abre os trabalhos liberando geral na letra que diz em alto e bom som :“TODO MUNDO PODE TUDO !”

2) Ringtone de Amor

Tecnologia criada para as novas gerações o ringtone nada mais é que trocar o toque tradicional de seu celular por um som pessoal e intransferível. Adriana sugere na letra e você escolhe no seu aparelho: “Um ringtone prá dizer sim / Um ringtone pra fazer trim / Um ringtone prá trazer você prá mim”.

3) Trenzinho Caipira

De olho no futuro sem esquecer o nosso passado de glória , Adriana coloca essa canção de Villa-Lobos nos trilhos do universo infantil, e, que me desculpem Edu Lobo e Maria Bethânia, primeiros intérpretes dessa canção, mas aqui encontra-se a gravação definitiva desse clássico brasileiro.

4) Alface

Concretismo é assunto que interessa e apaixona Adriana. E apesar de parecer papo de adulto e de difícil acesso, essa versão de Cid e Augusto de Campos, transforma a poesia concreta num delicioso jogo de palavras para criança nenhuma botar defeito.

5) Menino, Menina

Amor é assunto de gente grande que pode fazer sofrer e não se aprende na escola. Adriana, mestre do assunto em grandes canções, assume ares de professora e define o “grande laço” para principiantes: “O amor é o que há: começa quentinho e pode queimar”

6) Na Massa

Letra genial de Arnaldo Antunes que o carisma morno de Davi Moraes não revelava em seu primeiro disco como cantor. Aqui, Adriana ilumina e realça todos os sentidos da canção.

7) O Homem Deu Nome A Todos Animais

Bob Dylan é um poeta de respeito no mundo. Zé Ramalho é um compositor brasileiro e todos admiram. Mas quando as canções de lá foram traduzidas pelo poeta de cá todos torceram o nariz. Menos a democrata Adriana que, sem preconceito traz uma dessas versões para o disco.

.8) Alexandre

O álbum “Livro” de Caetano Veloso é um clássico. O tempo tem deixado ele cada vez melhor. Apenas uma canção naquele disco não encontrou seu lugar ao sol: “Alexandre”. Houve uma concentração de interesse em outras faixas e essa letra de métrica gigante ficou esquecida. Que bom, porque Adriana se apropria dela e traz a tona toda a sedução que os desatentos não pressentiram. Melhor faixa desse “Partimpim 2”.

9) Gatinha Manhosa

A dupla Roberto e Erasmo Carlos é assunto que Adriana domina. Sempre tem uma versão inesperada num show ou uma gravação definitiva. Esse grande sucesso da Jovem Guarda tem tudo para virar hino novamente de adultos e crianças em sua voz.

10) Bim Bom

Bossa-Nova é assunto encerrado, mas as métricas simples e rimas fáceis de algumas canções, ainda podem cair muito bem nos ouvidos de uma criança. Este clássico interpretado e escrito pelo nosso rei João Gilberto, vira olodum eletrônico nas mãos de Partimpim

11) As Borboletas

Nessa faixa Adriana faz acontecer uma parceria que o tempo real impediu de existir : Cid Campos e Vinicius de Moraes se encontram nessa faixa lúdica que encerra o disco em emoção: “Brancas, azuis, amarelas e pretas, brincam na luz as belas borboletas”.

 

E assim chego ao final do disco. De mãos dadas com Partimpim, volto ao lugar onde a criança que eu fui me espera. Um mundo de sonhos feito de álbuns inesquecíveis: Saltimbancos, Arca de Noé, Sítio do Pica Pau Amarelo.... Adriana também tem saudade e transforma isso em futuro inteligente para as novas gerações. Se você tem filho compre já. Se ainda é criança, como eu, peça para o seu pai.

 

O Amor Bateu na Porta

O amor passou aqui em casa essa semana. Deixou sua marca forte e fugiu.

Tem gente que não ama. Tem gente que é feliz assim. Eu suponho ser um desses. São tantos livros pra ler, tantos discos pra ouvir e filmes pra assistir que sempre me esqueço de alimentar a idéia de ter esse item considerado fundamental na minha dispensa. E vivo bem assim: sinto fome nas horas certas, durmo bem e sou concentrado no meu trabalho. Sim, porque amar é entrar num labirinto de emoções, perder o chão que outrora pisamos com firmeza. Um eterno canto de sereia que te leva para o alto-mar sem proteção. E não adianta fugir: quando ele bate na minha porta sempre deixo entrar. É uma troca de ar num lugar outrora mofado e sem luz. Eu me debato, me protejo mas no fim corro pro abraço. É como acordar diariamente e sentar numa montanha russa de sentimentos. Mesmo sofrendo todo o tipo de calvário que inclui ansiedade, ciúme e depressão prefiro me arriscar do que viver em preto em branco. Mesmo que esse amor dure 24 horas, uma semana, um mês ou nenhum dia. Eu fico mais bonito, mais esperto, e todo mundo que passa por mim tenta decifrar essa luz que cega os mais desavisados. Porque quando o amor chega é reveillon. Quando parte é funeral. Me encontro agora nessa fase. Jogo flores num caixão de esquecimentos. Aquela playlist do Ipod que embalou os melhores momentos, agora vira um rosário de canções tristes e sem dedicatória. Aquela cantora que parecia ser só de nós dois, volta a ser de todo mundo.

Mesmo tendo consciência do fim de todas as coisas, ver um amor acabar é padecer no paraíso de ser só: não machuca porque não fere, não tem contra-indicações porque não cura, um eterno céu azul numa cidade que não tem praia. Nesse estágio, quando um amigo liga desesperado pedindo colo por causa de um fim de caso você se sente um “superman”: dá conselhos como ninguém, mostra-se sadio e potente, sabendo estar causando inveja naquele ser tão fragilizado. E dá-lhe frases de efeito: “ele não te merece”, “parte prá outra”, “já vai tarde”. Mas quando essas verdades aparacem em nossa mesa, parece ácido jogado no rosto. Queremos fugir da constatação de que caímos novamente na doce cilada comum a todos: o amor.

Quando dou o primeiro beijo no ser amado não penso em mais nada: o passado deixa de ter importância e o futuro é um túnel que eu não deixo o carro da minha vida entrar. Importa apenas o agora. E não desperdiço nada: sou o diretor do meu próprio filme, invento um roteiro onde tudo dá certo e tudo será inesquecível. Podendo ser um longa de 3 horas ou um curta de 15 minutos. Sentir alguém do lado, um corpo pesando sobre o seu, uma língua no céu da sua boca é se encontrar com Deus seja qual for a sua religião. É subir aos céus sem rede de proteção. Tudo é lucro. E ter a consciência de que todo o amor acaba, aqui em casa funciona ao contrário: quando todos fogem por esse motivo e eu me aproximo mais. Porque amar é perder-se nas camas da ilusão, nos braços dos que não te pertencem, uma vingança dos deuses para quem se acha dono de seu destino.

Sinceramente Teu

Bem me quer. Mal me quer. Na eterna ciranda do desejo escolho o positivo e começo pelas qualidades que despertaram o meu interesse pelos dois novos albuns de Maria Bethânia.

Desde Brasileirinho, sua discografia tem mostrado predileção por temas especias. Foi assim com as águas e agora com o amor e as crenças. Projetos cuidados de perto por ela com sensibilidade e sofisticação. E a palavra sempre foi o motivo maior de sua música. Quando seu canto não alcançava a segurança que hoje desfruta, era com o teatro dos gestos e da poesia que sua obra encontrava a força necessária. E Bethânia nao decepciona nesse quesito em seu novo trabalho. Apesar de alguns compositores parecerem forçar algumas rimas para se encaixarem no desejo da intérprete (e serem brindados com sua escolha), no geral as composições estão acima da média. Outro dado positivo é que Bethânia está em seu melhor momento como cantora, encontrando os agudos que outrora nao habitavam seu canto e confirmando os graves habituais de forma cada vez mais especial. Consciente disso, ela abusa das introduções a capela, começando quase todas as faixas do disco dessa maneira.

Fora isso, surge o meu desinteresse. O violão previsivel e o piano de sempre mostram claros sinais de desgaste nos arranjos parecendo o tempo em que Bethânia foi apoiada pelas grandes orquestras do maestro Perinho Albuquerque e precisou se reinventar no album Ciclo, retornando ao formato acustico. Algumas canções de Tua e Encanteria já nascem com cara de velhas conhecidas por causa de algumas soluções musicais de Jaime Além, obscurecendo o mérito de várias letras interessantes e bem construidas.

Os dois projetos de capa tambem resultam em pouca novidade. Mostram fotos já conhecidas por seus seguidores fiéis por terem sido material de divulgação em albuns anteriores e a solução gráfica não resulta em inesperada beleza.

No entanto o eterno prazer de ouvir Maria Bethânia e aplaudir suas escolhas estão de volta. Falta apenas uma energia maior e transformadora, podendo os motivos serem sua idade fisica ou simplesmente convicções artisticas e pessoais.

Ha pouco tempo recebi o video de um show seu exibido pela televisão portuguesa nos anos 80 e passei dias me alimentando da vitalidade e loucura daquela época. Senti saudade das precariedades vocais que faziam sua presença valer mais que qualquer cantora perfeita. "Um castelo feito na lama" como diz uma das melhores faixas do disco Tua. Um tempo que decididamente acabou. Uma pena para quem a conheceu ali. Um milagre para quem a considera hoje perto da perfeição. A minha paixão vive entre essa serenidade do presente e a ausência do desatino. Entre elas a bruta flor do querer: Maria Bethânia.

Quero Acordar na Cidade que Nunca Dorme

  

Eu sempre sonho a mesma coisa ; que estou em Nova York e sou feliz. E todo o ano eu vejo isso acontecer. De todas as cidades que vi pelo mundo , decididamente foi aqui que deixei meu coraçao. E na chegada é sempre a mesma rotina: tenso na imigração, aliviado no metrô e chorando de emoção ao sair da estação e avistar o primeiro prédio.

Não tem jeito. A primeira vez a gente nunca esquece. E foi o estilista Fause Haten que me trouxe para cá em seu primeiro desfile na Fashion Week com uma trilha sonora assinada por mim. Na chegada eu jâ tinha certeza que seria para sempre. Como um mineiro que olha o mar pela primeira vez, do alto do Empire State eu tive a visão do definitivo .

A eterna nostalgia que tenho pelos anos 70 e o que não consegui viver nessa década, se realiza aqui: tenho a a sensação que vou pegar um taxi com o Robert de Niro de motorista, jantar com Andy Warhol no coração do Chelsea e depois dançar com Liza Minelli em plena Times Square ao som do meu Ipod.

Em Nova York ja perdi muitos amigos. Prometo sempre que vou levâ-los aos meus lugares escondidos e prediletos mas quando ponho os pés na cidade jâ sumi. Não consigo compartilhar essa emoção tão grande. Por isso aviso aos navegantes que me lêem aqui: não esperem me encontrar pela cidade e marcar um jantarzinho ou passear pelo Central Park, eu fujo de tudo e todos para viver o meu sonho como um errante egoista pelas ruas que eu adoro. Chego até a falar sozinho muitas vezes na ansiedade de compartilhar o que vejo e ouço, mas não dou o braço a torcer. Só abro uma excecão para dois casais de amigos brasileiros que escolheram Nova York para morar e vivem felizes para sempre.

Luciana e Henrique são o que eu chamo de casal do futuro: ela recicla lixo e ele vai para o trabalho de bicicleta. Falam baixo, recebem como ninguém e são tão educados que me dão vergonha do que aprendi em casa. Naquele apartamento ao lado da Estátua da Liberdade eu faço o meu quartel general de emoções; tenho uma bicleta gentilmente cedida por eles, e um quarto que eu morro de ciúmes e defendo dos outros hóspedes como um cão de guarda feroz. E ao final de cada dia chego em casa tão excitado que nem reparo os ouvidos cansados de meus anfitriões de tantos adjetivos e superlativos ao contar minha jornada.

João Paulo e Bela são o que eu chamo de casal seguro e natural. Ele trabalha numa loja de roupas orgânicas e ela faz comida macrobiótica. Com eles finjo não gostar de junk food e me jogo em sopas cheias de legumes e bolos de laranja sem ovo e açucar. Tem uma filha linda e tranquila que se joga nos meus braços e de quem mais sorrir pra ela. Uma doce infiel.

Foi em Nova York também que ouvi pela primeira vez um remix meu na boca do povo. Eles adoram a nossa música e ficaram encantados com o meu primeiro cd. Em pleno Soho pude constatar isso numa loja que tinha como som "Não deixe o samba morrer" de Alcione remixado por mim. E foi também aqui que fiz minha primeira grande apresentação no Brazil Foundation, jantar de gala beneficente anual em que sou o DJ todo o ano. Uma grande festa brasileira no coração da cidade que aconteceu ontem a noite.

Agora preciso parar de escrever, pegar minha bicicleta, colocar meu fone de ouvido e atravessar a ponte do Brooklin. Vou ser feliz e já volto

 

O Amor e o Poder

A moda no Brasil existe porque um dia alguém acreditou que isso fosse possível. Esse alguém se chama Paulo Borges, um visionário louco que no meio dos anos 90 fez com que as palavras estilista, stylist, maquiador, fotógrafo e até mesmo DJ virassem sinônimo de mercado de trabalho nesse país. Eu sou amigo desse brasileiro. Eu trabalho para esse grande homem.

Quando eu cheguei em São Paulo em 1993 eu não entendia nada, tocava nos clubes e tentava aprender a amar a cidade que hoje é o meu território preferido. Acuado e cheio de dúvidas, tinha como passaporte apenas o meu talento para a música e meu carisma para agregar pessoas ao meu redor. E foi assim, me vendo numa uma festa tocando música brasileira, que Paulo Borges me levou para junto de seu sonho de fazer um calendário oficial de moda no Brasil. E se assuntos como educação, política social e financeira não são levados a sério nesse país, você pode imaginar o que era, naquela época, alguém escolher viver de corte e costura, querer respeito e ter algum espaço.

A moda no Brasil, até então, sempre tinha estado perto da caricatura : Denner rivalizando com Clodovil, modelos como Monique Evans, Luiza Brunet e Xuxa vendendo nudez nas revistas masculinas e Cristina Franco fazendo comentários alegóricos num noticiário de TV. O eterno país da piada. Paulo Borges nunca acreditou nisso. Moda era tão importante para ele, que mudou o rumo de sua vida, inclinada inicialmente para a carreira de ator. Começou como assistente de uma figura fantasiosa e cheia de lendas, a produtora de moda Regina Guerreiro que dividia com ele a mesma paixão e o mesmo rigor de quem acredita que, com seriedade e profissionalismo, aqui pode não ser o terceiro mundo.

Num programa da MTV foi que avistei pela primeira vez a figura de Paulo Borges falando de um projeto chamado Phytoervas Fashion. Foi o ponto de partida: só se falava nisso na imprensa e o povo de São Paulo, sedento de novidades, recebeu o projeto de braços abertos. Até que chegou o meu dia. Uma amiga e dois convites me levaram até um galpão em Pinheiros onde o futuro da moda fincava seus primeiros alicerces. Ali pela primeira vez assisti a um desfile. Era de um estilista iniciante chamado Alexandre Herchcovitch, que misturava chifres, travestis e crucifixos em sua forte exibição. Coisa de não se esquecer. Claro que, como tudo que vem com a força do definitivo e do inesperado, uma violenta briga de egos entre patrocinador e o já centralizador Paulo levou o projeto, depois de algumas edições, para o chão. E foi aí que meu caminho cruzou com o dele. Quando a mídia apostava na diluição do sonho, quando todos que estavam ao seu lado escolheram o desprezo ou o silêncio, Paulo emergiu com a fúria dos que sobrevivem às grandes tormentas e, em menos de 6 meses, o Brasil assistia ao primeiro São Paulo Fashion Week. Foi uma loucura geral. Como sentar na primeira fila e falar do que não se sabe ? Como editar um desfile atrás do outro ? Como fazer 12 trilhas para 12 estilistas mais perdidos que eu ? Quando minhas pernas começaram a tremer, a mão firme de Paulo e seu olhar confiante me seguraram. E como um filho obediente a seu pai permaneço até hoje: não existe chamado seu que eu não atenda. O medo não me acompanha quando sua ordem me alcança. Paulo é fiel e não põe o talento de quem atende suas demandas, em dúvida. Suas certezas de vida acompanham suas decisões.

Tudo isso porque acabo de ver uma entrevista sua para Joyce Pascowitch e assisto ao pequenino sonho de outrora encontrar definitivamente o merecido respeito e orgulho de todos. Sua serenidade e inteligência ao descrever projetos para a menina de seus olhos, a moda brasileira, me comovem. Minha emoção veio aqui para esse texto. Minha gratidão vai para o telefone que agora eu pego e começo a discar o seu número. Paulo Borges é brasileiro. Um grande homem brasileiro.

Para Ler e Aplaudir

Estou sempre ávido por cultura. Percorro livrarias, entro em sebos de discos, empilho dvd"s em estantes. Por isso nunca me sinto só. Por isso a febre incessante da nossa raça por romance e sexos ocasionais nunca me atinge. A inteligência dos grandes mestres são minha companhia. Quando o filme vai chegando ao fim, o dia já amanheceu. Quando fecho meu livro, a noite já chegou.

Há pouco tempo descobri numa sala de espera a central de informações que eu precisava: a revista Bravo!, e antes que me xinguem, assumo minha culpa: eu sei que ela existe há anos, mas sempre olhei de longe achando que poderia ser intelectual demais para minha pobre inteligéncia . Agora estou apaixonado e viciado. Acabo de fechar a edição de setembro muito bem informado e cheio de anotações de livros, cd"s e filmes para comprar. Soube mais da vida de Henri Cartier-Bresson e suas fotos. Fiquei louco de vontade de ler um livro meio esquecido do Truman Capote. Quis ouvir o disco de versões de Carlos Rennó. Fiquei curioso para ver o novo espetáculo do grupo Vertigem pelas paredes do Sesc da Avenida Paulista.

Fazer cultura no Brasil não é fácil. Faltam investidores, falta espaço para divulgar, falta público. Só chegam perto da luz os projetos comerciais. Na área musical, cópias de fórmulas desgastadas. Nos teatros, as comédias rasas. Na literatura, formatos de auto-ajuda. A verdadeira novidade fica soterrada na baixaria do fácil consumo. A Bravo! vem na contramão desses vícios e apresenta um painel cultural brasileiro de dar orgulho: espetáculos brilhantes em salas que nunca pensamos existir, filmes interessantes exibidos em cinematecas que nunca entramos, e principalmente, muitos livros para ler e pedir, onde outrora só tínhamos o desejo do previsível. Tudo isso apresentado em resenhas deliciosas e com um olhar crítico de quem sabe do que esta falando.

Bravo! : vida inteligente nas bancas do Brasil.

A Prova dos Nove

Numa noite de pré- verão de setembro no Rio, mais precisamente no dia 09/09/2009, dia de seu aniversário, Ana Carolina recebeu amigos, fãs e desconhecidos para testar seu disco mais recente na cidade. Apenas nove canções. E quando já não havia mais oxigênio no recinto, tamanha a lotação do lugar, ela surgiu no minúsculo palco com a segurança e o deboche que lhe são peculiares. Parecendo apreensiva com o silêncio que se formou com sua chegada, logo em seguida tomou conta do ambiente, trazendo para si todos os olhares: alguns de desejo, outros de adoração. Cercada de músicos poderosos como Marcelo Costa e Pedro Baby, Ana solta a voz que lhe Deus lhe deu e apresenta um repertório ainda com cara de inédito. Não para o seu fã-clube que tomou as almofadas em frente ao palco e cantou em uníssono cada uma das canções apresentadas. Ana tambem recitou textos que serviram de vinheta tematica para algumas músicas.

Aos poucos relaxando (principalmente com a entrada de sua mais nova parceira musical, a italiana Chiara Civello no palco para cantar e tocar duas canções), Ana parecia estar tendo muito prazer em estar ali perante seus suditos. Nessa noite as faixas do disco se agigantaram e confirmaram sua grandeza quando leva um disco para o palco: tudo se justifica com sua presença, tudo confirma seu talento para as grandes massas. Nessa noite eram apenas 120 pessoas. Mas com sua força ela transformou o pequeno Londra em Maracanã. Como diria Gonzaguinha : Ana Carolina é coisa mais maior de grande.

Arnaldo e Seus Meninos

Arnaldo Antunes está chegando na casa dos 50. Mas isso não significa nada para esse poeta/cantor inquieto que agora escolhe a tão mal falada jovem guarda como inspiração para seu novo disco Iê Iê Iê que acaba de chegar aqui em casa.

O que o cd tem de novo? O novo em si. Tocando com ele, os mais recentes músicos e compositores do Brasil, e uma profusão de parceiros, coisa rara num disco de Arnaldo (O Que Você Quiser é a única faixa que assina sozinho). Um projeto coletivo no melhor sentido que há.

Arnaldo, apesar de sempre ter chutado o balde das acomodações, estava um pouco preso ao formato tribalistas em seus últimos trabalhos, e mesmo que aqui existam canções em parceria com Brown e Marisa (Iê Iê Iê e Vem Cá), o disco apresenta bem mais do que isso. De seu passado ele traz Branco Mello, Paulo Miklos Sérgio Britto e Marcelo Frommer. De olho no futuro convida Betão Aguiar, Ortinho e Marcelo Jeneci. Aliás é bom falar que de tropicalismo e bossa nova o mercado já se esgotou, e essa turma que está chegando agora, felizmente, está mais para beber em Odair José e outros “perigosos” (que o poder do Rei Roberto obscureceu nos anos 70) do que em João Gilberto e Caetano Veloso. virando inesperada e necessária matéria-prima para o rock de Arnaldo que levemente flertou com o brega em seus tempos de Titãs do Iê Iê Iê.

O que eu mais gosto ? As letras. Bem construídas, inesperadas e de inspiração adolescente. Canções para ouvir com a namorada no carro, no Ipod a caminho da Faculdade, quase um “proibidão” para quem tem mais de 30, tornando o disco lindo, leve e solto como o verão. A voz de Arnaldo também mudou para melhor. Seu registro grave outrora assustador para muitos, encontra-se agora menos agressivo e mais melodioso.

Ao contrário de Nando Reis que esse ano apresentou um disco repetitivo e pouco brilhante, Arnaldo vem disposto a conquistar um público mais jovem que durante toda a sua (já extensa) carreira solo tem olhado de longe para a sua música. Quem sabe não é agora ?

Quem Te Conhece Não Esquece Jamais

O Patu Fu chegou tarde aqui em casa e não foi por sua música. Sua célula-mãe Fernanda Takai com sua doçura foi que lentamente me atraiu para a banda. Yone Sassa, uma japonesa sábia que trabalhava na MTV foi quem me disse: "você precisa ouvir o Pato Fu". E eu obedeci. Em 2002 comprei o álbum MTV ao Vivo e foi um amor “antes tarde do que nunca.” Sempre apaixonado por vozes femininas, o canto de Fernanda me prendeu nos laços da banda. E havia muito mais por ali. Letras inteligentes e a escolha de harmonias deliciosas que transformavam o pop-rock em jóia rara.

Muito se fala em Mutantes quando citam o trabalho do Pato Fu. Eu pobre de informações da banda de Rita Lee (desculpe minha ignorância) não reparo em comparações. Todo mundo que nasce por aqui sempre se parece com alguém. Marisa é Gal, Vanessa é Clara e ....Fernanda Takai é Nara ! Ninguém tinha pensado nisso quando Nélson Motta em belo insight teve a idéia de homenagear a musa da bossa nova num tributo genial orquestrado por John Ulhoa (pai do Pato Fu e da Nina) sob medida para a voz de Fernanda. O Brasil caiu de joelhos (desculpe o trocadilho infame) pelo disco. E só deu ela em 2007. Tributos nunca foram novidade no mercado de discos do Brasil, a própria Nara fez alguns durante a sua carreira. A diferença estava na escolha de repertório e na forma inesperada de regravar aqueles clássicos.

Fernanda cuida muito bem de seus amigos. Evita linhas telefônicas mas é presença constante em emails. Não deixa ninguém sem resposta. E foi assim que ela me conquistou. Quando comecei a falar de meu interesse pelo Pato Fu, recebi sua doce mensagem no meu outlook comentando e agradecendo minha nova preferência. E não nos largamos mais. Não existe tempo fechado naquela família mineira: há sempre um sorriso em nossos encontros, uma delicadeza pelo ar em nossos jantares e música, muita música em nossos assuntos.

Esta semana recebi duas jóias da dupla Takai/Ulhoa: o DVD-Tributo a Nara Leão e um outro só de raridades do Pato Fu. Escolhi a noite anterior para tanto deleite: liguei minha TV, dei play e ainda cheio de felicidade escrevo aqui minhas impressões.

O show solo de Fernanda chamado Luz Negra vai além das já conhecidas homenagens do álbum de estúdio e mistura Duran Duran com o carimbó de Belém do Pará de forma tão consistente e verdadeira que, para um desavisado, essas faixas poderiam ser também do repertório de Nara. E atenção: a regravação de Ben de Michael Jackson não é oportunismo como, com certeza, veremos muito a seguir. Fernanda já estava cantando desde a estréia do show e traz novos ares para a velha canção. Tudo no projeto exala bom gosto e encanta os olhos: cenário, luz, figurino, a banda e a própria Fernanda irmanados no desejo de fazer bonita a nossa canção.

O DVD de raridades do Pato Fu chamado Extra ! Extra! traz a banda para mais perto de seus (eu) fãs. Andamos com eles pelo palco, ouvimos gravações feitas no estúdio caseiro em BH, olhamos por dentro dos ônibus da turnê e chegamos até o Japão, onde descobrimos o país do sol nascente pela lente particular de Fernanda e John.

Uma noite deliciosa para meus olhos e meu coração. É o que eu desejo prá você que me lê agora e que, rapidamente, sairá da frente desse computador para ouvir um bom disco do Pato Fu ou sentir uma saudável saudade de Nara nos braços de Fernanda Takai. Boa viagem.

A Certeza da Beleza

Roberta Sá não é a minha preferida. Nem os críticos dizem que ela vai mudar o mundo como costumam atestar para as novas cantoras de segunda categoria que andam por ai. Mas a inteligência e a sofisticação de repertório fazem dela a promessa mais sólida da nova MPB.

Sua primeira aparição foi no infeliz “Fama” da TV Globo que além de não ter revelado ninguém ainda atrapalhou a vida de quem tinha algo a dizer. Ainda bem que desatenção a verdadeiros novos talentos e o esquecimento são características do ser brasileiro, porque quando Roberta lançou seu primeiro álbum “Braseiro” em 2005, sua participação nesse programa e seu rostinho lindo não foram o carro-chefe do seu currículo naquele momento. Nesse primeiro disco já figuravam as raizes do seu trabalho: o olhar inesperado sobre o passado (“Cicatrizes e “Valsa da Solidão”) e um presente musical bem cuidado por Pedro Luis, Rodrigo Maranhão e Marcelo Camelo (alías é dela, e não de Maria Rita, as primeiras gravações de “Casa Pré-Fabricada” e o samba “Novo Amor” de Edu Krieger). Outro bom exemplo de suas escolhas de ouro foi a retomada do compositor Lula Queiroga que andava esquecido pelo pessoal daqui. Lenine, o seu parceiro mais constante, havia encontrado lugar definitivo nos anos 90 enquanto que Queiroga estava apenas na memória das belas canções. Roberta além de tirar de uma canção dele o nome de seu segundo disco, ainda o aproximou dos novos compositores trazendo sua música para uma platéia mais jovem. Aliás, platéia é o que não falta para Roberta. A moçada carioca e os rapazes de Sampa são loucos por ela. Eu, sempre em sua platéia, atesto para todos os fins: não é uma histeria sexual e gratuita. É um grito de reconhecimento pelo que Roberta traz consigo: o samba novo. O pop de agora. O passado com nova luz.

Essa semana passou por debaixo da minha porta seu terceiro disco e primeiro DVD. Projeto ao vivo que passa sua recente trajetória a limpo. Um risco que ela corre com firmeza.

Vamos primeiro a capa. Em tempos de download, projeto gráfico pobre e sem imaginação leva o disco direto para as prateleiras empoeiradas e sem vendagem. Roberta sempre cuidou de perto desse assunto com fotos e encartes impecáveis. Segundo, seu canto está cada vez mais afiado e potente. E terceiro, ela está linda. Confundindo a sexualidade dos indecisos e confirmando o tesão dos que sabem o que querem.

“Prá Se Ter Alegria” é forte candidato a disco do ano. Mesmo sendo ao vivo. Mesmo confirmando o que ouvidos atentos já sabiam. Um caminho sutilmente perigoso que Roberta Sá atravessa com sofisticação e inteligência. Mesmo que eu já tenha dito isso no começo desse texto.

Num Samba Curto

Paulinho da Viola é um ícone da música popular brasileira. E como tal corre o risco da estagnação e das frases feitas: um compositor elegante de sambas clássicos. Foge de tudo e todos e segue fazendo o que quer na hora em que julgue necessário. Uma pausa de mil compassos.

Esta semana coloquei uma frase de uma canção sua no meu twitter e todo mundo enlouqueceu, porque samba na cabeça das pessoas é pra cantar alto e tem cara de domínio público, não é para refletir. Mas Paulinho da Viola é das antigas. Do tempo em que samba se aprendia na escola com mestres que ensinavam sofisticação e inteligência na hora de alegrar o povo.

Paulinho já trazia em seus primeiros discos uma extrema personalidade carregada de letras densas e sambas profundos como “Vinhos Finos...Cristais” e “Para Um Amor no Recife”. Em 1969 deixou o Brasil atônito ao classificar o samba político “Sinal Fechado no V Festival da Música Popular e levantou multidões no ano seguinte com a alegria de “Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida”. Outra preciosidade de Paulinho é lançar jóias raras para o futuro sem esquecer o passado: todo o disco seu traz consigo pérolas esquecidas de sambistas deixados para trás sem o devido reconhecimento.. Em seu primeiro álbum solo, junto com as inéditas, figuravam canções de Carlos Lentine, Casquinha e um Cartola que naquele ano de 1968 estava bem longe da consagração dos tempos de hoje.

No reveillon de 1996 ao ser convidado para cantar na Praia de Copacabana com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Gal Costa, Paulinho envolveu-se num escândalo sobre os cachês que cada um havia recebido para o evento. Não durou um verão. Paulinho não alimenta confusões com seu nome e se num primeiro momento os baianos, fãs de sua obra se calaram, hoje em 2009 Caetano Veloso abre seu novo show gritando em alto e bom som: Viva o Paulinho da Viola !

Depois de esquecer o meu Ipod num avião e ter de refazer com muita paciência todas as minhas playlists, cheguei ao nome de Paulinho e como sempre acontece desde que descobri sua obra, me surpreendo e me emociono. Abaixo 10 sambas que não figuram nas listas habituais de seus adoradores e que são igualmente geniais:

1. Nada de Novo (Paulinho da Viola)

2. Não Quero Você Assim (Paulinho da Viola)

3. Num Samba Curto (Paulinho da Viola)

4. Roendo as Unhas (Paulinho da Viola)

5. Orgulho (Paulinho da Viola-Capinam)

6. Cidade Submersa (Paulinho da Viola)

7. Quem Sabe (Paulinho da Viola – Elton Medeiros)

8. Toada (Paulinho da Viola)

9. Mais Que a Lei da Gravidade (Paulinho da Viola – Capinam)

10. Bebadosamba (Paulinho da Viola)

Ainda Somos os Mesmos e Vivemos

Domingo à noite na televisão brasileira. Num canal um rapaz bonitinho e de moral duvidosa ganha prêmio de um milhão. No outro perguntam por onde anda o cantor Belchior. Isso é o meu Brasil.

Belchior assim como Sérgio Sampaio e tantos outros importantes cantores e compositores, estão desaparecidos já faz muito tempo, Belchior apenas resolveu assumir isso fisicamente sumindo do campo de visão de sua família e amigos, enquanto que Sérgio Sampaio, tristemente, permaneceu de corpo presente até a sua morte tentando em vão que não o esquecessem.

Belchior veio do sertão com uma voz agreste e uma música improvável de se entender no Sul maravilha. Junto com Fagner, ele sofreu todo o tipo de preconceito pessoal e musical até a visionária Elis Regina gravar “Mucuripe” e “Como Nossos Pais” e Vanusa fazer todo o Brasil cantar “Paralelas”

Belchior foi um cronista do seu tempo. Suas letras urbanas viraram porta-voz de toda uma geração sufocada entre a ditadura e a falta de perspectivas num país miserável.

Quando a segunda fornada de cantores e compositores nordestinos como Zé Ramalho, Amelinha e Elba Ramalho chegaram ao sucesso nos anos 80, a obra de Belchior já entrava em declínio nas rádios. E ao contrário de Fagner que pegou caminhos às vezes perigosos para se adaptar ao gosto popular de cada década, Belchior teimou em manter sua dignidade autoral ficando como um quadro na parede da memória do Brasil: importante no passado e ignorado no presente. E foi assim que ele decidiu sumir. E foi assim que ele chegou até o “Fantástico” em pleno horário nobre na poderosa TV Globo. Uma ironia como tantas que já vimos por aqui. Como Collor no poder. Como milionários que não são presos. Como um rapaz latino americano ganhando um milhão de reais no canal concorrente. Isso aqui é um pouquinho de Brasil.

A Vida é Bem Mais Perigosa Que a Morte

Minha televisão fica constantemente ligada no Canal Brasil. Às vezes cometo a loucura de zapear e volto correndo para o conforto do canal 66.

Essa semana foi apresentada uma retrospectiva do cineasta Hector Babenco, diretor longe dos meus preferidos e que eu considero de filmografia irregular. Mas havia “Pixote – A Lei do Mais Fraco” que eu vi ainda muito pequeno e que pouco lembrava, a não ser a polêmica trajetória do ator Fernando Ramos da Silva que acabou em terrível tragédia na vida real e a atriz Marília Pêra encarnando uma alegórica prostituta. Nada mais.

Um colecionador nato de raridades da nossa cultura, deixei gravando e durante uma longa e acidentada viagem essa semana (ler o texto abaixo) dei o play. Um filme de não se esquecer. Como os difíceis anos da ditadura, ironicamente, fizeram bem à nossa cultura . A rigidez desse período somada às precariedades estruturais fizeram filmes clássicos, discos inesquecíveis e livros de eterna consulta em nossas estantes. Uma triste (feliz) constatação.

Hector Babenco naquele ano de 1981, realiza seu filme definitivo sem saber, como revelou no documentário “Pixote In Memoriam” que passou em seguida. Uma conjugação de fatos e coincidências extraordinárias (como encontrar o garoto que encarna o protagonista Pixote) fizeram da película um fenômeno mundial: Marilia Pêra ganhou todos os prêmios, Babenco firmou-se definitivamente como um diretor de prestígio tendo feito mais uma dezena de filmes (inclusive o“O Beijo da Mulher Aranha” e “Ironweed” com Meryl Streep e Jack Nicholson) apesar de para mim, ter perdido a mão forte que resultou em “Pixote”. Um forte exemplo disso é “Carandiru” que tocava na mesma ferida de forma asséptica e com um padrão global de qualidade que não me emocionou em nada, resultando na minha saída do cinema bem antes do final. Se você não viu “Pixote” ligue já para o Canal Brasil porque misteriosamente o filme não existe em DVD, mas vale a pena o sacrifício. Nem milhares de filme em sua locadora mais próxima valerão a experiência de rever esse orgulho nacional.

O escritor Caio Fernando Abreu foi a Clarice Lispector da minha geração. Seu jeito confessional de contar dores e angústias tomou conta da cabeça de todos os adolescentes dos anos 80 como eu, cheios de dúvidas existencialistas .

Caio era um escritor dark: sua literatura não era um doce de leite para se comer antes de dormir. Falava de sexo com o vigor de um suicida e do amor como se não houvesse amanhã. Seu livro mais comentado e mais lido foi “Morangos Mofados”, uma bíblia para seus seguidores. Agora para quem quer saber um pouco mais de Caio (já que seus livros são praticamente auto-biográficos) sua amiga-irmã Paula Dip lança “Para Sempre Teu, Caio F”, uma caixa de recordações, onde cartas e depoimentos de pessoas próximas fazem o inventário definitivo do escritor. Tudo em carne viva como ele escolheu viver. Uma montanha russa de sentimentos que serve de escola para a turma de hoje que assiste a tudo em cima do muro e escolhe viver cercada de luxos e banalidades. Caio Fernando queria mais da vida e pagou um preço alto por isso e não se arrependeu. Viveu. E morreu cedo demais. Ou quem sabe na hora certa. A superficialidade de agora com certeza não interessaria a uma pessoa como ele que sempre quis mais. Muito mais.

E vou pegar um avião em Congonhas. Na hora do check-in cadê meus documentos ? Mexo e remexo na bolsa, nada consta. E começa a novela: fazer um boletim de ocorrência para poder embarcar e a cabeça não pára de rodar: onde foi parar meu RG ?. Chego em São Paulo de volta: vou até os “achados e perdidos” do aeroporto e nada. Volto para a casa e deixo tudo de pernas pro ar e nada. Não tem jeito: a solução é enfrentar o Poupatempo da Sé no centro nervoso de São Paulo. E pasmem, tudo funciona, serviço impecável. E dá-lhe fichas para preencher e boletos para pagar. Na saída respiro fundo: e se eu voltasse de metrô ? E pasmem, tudo funciona, o metrô de São Paulo é um orgulho nacional. Volto para casa e vou prá debaixo das cobertas para esquecer tal pesadelo que é perder documentos. Acordo com o porteiro com todos os dedos na minha campainha: o motorista do táxi tinha achado tudo, passou no banco onde eu tinha conta, pegou meu endereço e bateu na minha porta. Nem tudo está perdido. E o mundo não se acabou.

 

Entre Tapas e Beijos

Todo o ano é a mesma coisa. Insistem em premiar a nossa música brasileira.

Tem prêmio que quer fazer justiça com as próprias mãos e entrega troféu para uma turma da antiga que o Brasil (felizmente ou infelizmente) já esqueceu, deixando todos na platéia sem entender nada. Tem prêmio para uma gente jovem reunida que deixa a turma com mais de 30 em casa se perguntando a cada resultado: “quem é esse ?”. Resumindo: não tem prêmio nenhum. Essa é a sensação que eu tenho cada vez que vejo esses eventos de divulgação de celebridades. Sim, porque é para isso que eles servem. Música que é bom nada.

Somos um país pluralista em todos os sentidos. Tendências e posições no ranking não nos definem. Somos um pobre país de terceira categoria e no entanto o mundo todo nos conhece. Caetano Veloso é um compositor baiano de Santo Amaro que faz turnê mundial todo o ano. Bibi Ferreira é uma grande atriz brasileira que ganhou o mundo interpretando Edith Piaf. Uma cantora em cima de um trio elétrico no calor do verão baiano pode estar vestida de Gucci ou Prada. Deliciosas confusões que fazem desse país o inominável. Por isso tanta dúvida na hora de premiar a nossa música brasileira, como, por exemplo, indicar Zé Renato e Maria Alcina para uma mesma categoria, ou cogitar o nome de Marcelo D2 para melhor cantor. A Minha cama é que sofre com isso, como aconteceu nessa semana, em que antes de dormir, fui assaltado pela reprise de um desses prêmios que além da confusão musical ainda parecia um espetáculo da emissora concorrente, copiando layouts e formatos de apresentação de um outro canal. Eu dou soco no travesseiro, jogo o lençol no chão, porque não agüento tanta gente ruim com cara de definitivo, tanta prêmio em vão para tanta gente inútil que não mexe uma peça no nosso tabuleiro musical. E o meu twitter bomba: eu grito de cá e o povo responde de lá. Tem fã que me xinga. Tem quem concorde com os meus comentários, é uma esculhambação democrática. Como o Brasil. Assim era na época dos festivais. Todo mundo estava mais preocupado em vaiar o concorrente do que aplaudir a sua música favorita. A gente não se leva a sério mesmo e tudo vira motivo de alegria e confusão, porque temos sentimentos misturados. Passamos muita dor e ao contrario do mundo lá fora que desabafa com bombas e guerras, nós por aqui temos fina ironia. O que nos faz chorar, amanhã estará nos botequins em forma de piada. Por isso esqueçam esses prêmios. Deixem a MPB em paz. Deixem os falsos emos fazerem rock brasileiro Deixa o axé usar grife. Deixa eu dizer o que penso dessa vida. Preciso demais desabafar.

Eu só digo o que penso, só faço o que gosto e aquilo que creio

Internet não é nossa casa. Um site não é para ser lido apenas por um círculo de amigos interessados no seu trabalho. Tenho consciência disso e exercito meus textos em blogs, sites, facebooks e twitters pensando nos milhões de leitores anônimos que passam por ali. Essa semana depois de uma longa espera, muita especulação e ansiedade sobre o disco de Simone , ele chegou as minhas mãos. Foi uma decepção. Tudo ali carecia de novidade e emoção. Diante disso fiz um texto no calor da hora em que ouvi, porque como não sou crítico e meus textos estão em lugares onde minha palavra tem alguma valia, fui verdadeiro e quase cruel. Não retiro dali nenhuma palavra. Arrependimento não tem lugar na minha vida. O que eu esqueci de falar principalmente para os fãs de Simone (que claro, não vêem defeitos em sua musa única) é que também sou um deles, assim como sou um seguidor fiél de milhares de artistas que diariamente rendo tributos. Apenas não deixo a paixão me cegar. Uma grande carreira e o tempo não me impedem de analisar um disco como o de qualquer principiante. A história de um artista não pode pesar na hora de argumentar sobre um novo produto. Iniciantes e veteranos devem ter peso igual nessa hora. E por serem tão importantes na minha vida e me mostrarem os caminhos por onde sigo, sou exigente com esses mestres como um filho que exige educação dos pais.

Simone apareceu aqui em casa muito cedo seu disco “Gotas D’Agua” de 1975 até hoje figura nos meus preferidos, tendo prestado homenagem a ele no meu livro. Falando em homenagem, participei do Programa do Raul Gil dizendo pessoalmente e a cores tudo que sinto por Simone. Um depoimento espontâneo e verdadeiro. Tenho em minha casa um acervo de vídeos e raridades de sua carreira de botar inveja em fãs iniciantes. Comprei seus primeiros discos (re-editados agora em bela caixa) e ouço a todos com freqüência. Tudo isso para dizer aos fãs de Simone que eu sou um deles na multidão. Ao ouvir este seu novo e fraco disco fico triste mas não recolho o seu passado musical e o coloco na lixeira. Coloco no meu coração e no meu Ipod e não desisto de esperar por novos álbuns porque não sou saudosista. Simone está viva e potente para fazer muitos discos ainda. Este para mim não rolou mas outros virão. E eu espero.

 

 

O tempo não pára e no entanto ele nunca envelhece

    Eu sei que já faz alguns dias que a palestra de Maria Bethânia na Casa do Saber aconteceu. Mas o que se passou naqueles 50 minutos me fez pensar muito antes de começar esse texto.

    Por que Bethânia mantém o essencial há mais de 40 anos e é sempre nova ? Por que tanta gente sobe e desce no trem das canções e ela permanece no comando da viagem ? Tudo isso passou pela minha cabeça naquele curto espaço de tempo em que, sentado ao lado de 80 pessoas numa minúscula sala de aula, assisti Bethânia encantar, cantar e declamar a nossa poesia que, infelizmente, não se aprende mais na escola.

   Bethânia lamenta nossa pobreza cultural. Aplaude nossos mestres da literatura e da canção popular. Inventa um palco e um cenário num lugar improvável para mostrar que sua vitalidade aos 63 anos causa inveja aos menores de idade do Brasil. Seu irmão Caetano Veloso, suas amigas Renata Sorrah e Regina Casé, sua diretora Bia Lessa e eu um anônimo e eterno seguidor, somos todos iguais nessa noite: estamos ali para ver uma artista que é a pedra de rumo em nossa vidas.

    Bethânia chega mansa e reverente ao seu ofício com um caderno repleto de anotações e faz a casualidade de um bate-papo virar um pronunciamento oficial sobre a nossa historia cultural. Mistura trechos de canções que traduzem em som as palavras de Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Fernando Pessoa e seus heterônimos e até um improvável Fausto Fawcett, com a viola caipira de Jaime Além que está sentado ao pé de sua musa num sarau desprovido de pretensões e formalidades.

    Penso durante esse tempo em que ela está ali na minha frente, que sua vida particular nunca foi informada ao mundo. De Bethânia só se sabe no palco. De Bethânia não se quer saber nada mais do que ela representa em cena. Ela nos ensinou assim Uma professora também de ética e respeito. O doce mistério de sua vida também é arte que ela cuida de perto.

   E assim como entrou, Bethânia passa por entre seus “alunos” e da porta ouvimos seu grito de guerra: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz...”. Na saída, cada um pega o seu táxi em silêncio, como convém ao vermos um deus e um poeta, e voltamos para a casa repletos de arte e saciados de sua presença. A beleza de sermos um eterno aprendiz de Maria Bethânia.

Um Museu de Velhas Novidades

 

Simone está de volta. Ou não. Essa é a sensação que seu disco novo traz. Arranjos medrosos com cara de clássicos e Simone cantando todas as músicas da mesma maneira, transformando o disco numa faixa só. Essa eterna sensação de que cantoras como ela e Gal Costa, que chafurdaram nos perigos do rio brega nos anos 80, poderão um dia voltar a nos surpreender já dançou há muito tempo. Mesmo que as esperanças de um fã não morram jamais não adianta: o sonho acabou. Gal a cada tentativa de novidade ou não encara o projeto completamente fazendo shows preguiçosos e pela metade,  ou insiste em regravações com cara de bossa nova parecendo  arrepender-se das transgressões que cometeu, querendo virar João Gilberto de saias como no início de sua carreira.

    Simone assim como Gal , foi guiada por mestres imponentes no início de sua trajetória: Herminio Bello de Carvalho, Milton Nascimento e Sueli Costa que deram ao seu repertório um aval de eterno. Infelizmente hoje esses nomes não sustentam sua história, porque dona de seu nariz e desobediente no mau sentido, Simone agora segue somente sua intuição, não conseguindo  repetir o brilhantismo de outrora. Apesar, de neste novo disco, figurarem grandes compositores da MPB, o disco nao diz nada. Uma ficha técnica de ouro com cara de lata barata. Simone parece ter medo de alcançar as notas, e os arranjos parecem querer dizer que agora o pesadelo passou, que a qualidade em sua careira discográfica voltou dessa vez para ficar. Uma preguiça total. Envelhecer é fato. 

Cada Vez Que Eu Fujo, Eu Me Aproximo Mais

    Esse texto não é sobre o disco "Nove" de Ana Carolina. Esse texto é sobre a força e o carisma de um artista, independente do ser crítico ou do gosto de cada um. 

    Cantora aqui em casa chega cedo. Até mesmo antes de gravar noticias chegam ao meu ouvido e eu pego o primeiro trem bala para ir ao encontro de uma delas. As vezes é uma rota de colisão: um acidente de percurso. As vezes  é a glória do saber querer, um explode coração. E Ana Carolina foi assim: naquele ano seu primeiro disco assombrou a todos e iluminou a minha casa. Era um disco irregular, apesar de hoje os críticos o considerarem um clássico e ficarem eternamente comparando com os posteriores. Ali já estavam sua voz potente, as composiçoes próprias de estilo vingativo e um visual vermelho em todos os sentidos. Arrebatou o Brasil imediatamente. Atravessei a sua vida no segundo disco quando já estava totalmente abduzido pelo seu canto. 

    Mas esse texto nao é sobre talento. É um texto sobre a amizade. Sobre admiração mútua. Essa semana fui para o Rio de Janeiro e escolhi sua casa como abrigo. Ali passamos horas indescritiveis de alegria e emoção. Ouvimos músicas (nunca as nossas), rimos madrugadas inteiras, discutimos arte e amor  como dois irmãos que somos. Dias inesquecíveis onde matamos nossa saudade. 

   Eu não uso linhas telefônicas com Ana. Tampouco ela me procura com frequência. Não existem emails.  Skype uma vez e foi com a câmera desligada (eu juro ! ). Mas somos ligados num acordo intimo. Como a mão direita e esquerda.    

   Ana Carolina é uma artista de sucesso . E esse bem suceder ela divide com todos ao seu redor. Que bom que eu estou ali. Numa platéia espremido na turba enfurecida ou no sossego do seu lar. Coisa boa é poder se estar ao lado de gente vitoriosa. Levanta o astral e faz bem a saûde. 

Uma Dama Indigna

    Quinta feira à noite. A Rua Augusta ferve de prostitutas, buzinas e carros. O lado underground de São Paulo que não morre jamais. Ali, dentro de um escuro antro de jovens chamado Studio SP, uma musa da antiga Lira Paulistana mantém-se de pé , cheia de integridade e sofisticação. seu nome é Cida Moreira.

   Sentados em poucas mesas,  eu avisto contemporâneos de sua geração e pelas arquibancadas uma turma que estava bem longe de nascer quando seu canto rascante invadiu o Brasil. Não importa: para eles Cida é a rainha daquele lugar. Aplaudem freneticamente e invadem o palco para beijar a sua mão, como Hélio Flanders, isso mesmo, o vocalista da nova banda do momento Vanguart, que esta ali para render tributo a loucura imutável de Cida Moreira.

   Ela pode tudo e sabe disso: atravessa o cancioneiro mundial e brasileiro com a propriedade do definitivo. Recria o "Vapor Barato" de Waly Salomão com a renovação necessária que Rappa nenhum jamais conseguirá. Arrasta as correntes da "Canção Desnaturada" de Chico Buarque, ilumina um antigo Stevie Wonder, fica bêbada e incoveniente para reler uma Winehouse, lava a alma de Janis ao som de "Summertime" e alimenta seu alter-ego Tom Waits com um imponente piano de cauda que nessa noite aparece disfarçado de teclado mas que não interfere em nada na força de sua interpretação.

  Cida Moreira está em casa ali: nunca quis a segurança das velhas divas, ainda quer o risco das novas platéias, corre o risco da desatenção, mas nunca o da estagnação. Comporta-se em cena como uma garota rebelde que desconhece sua verdadeira idade. Por isso seu canto ainda fere ouvidos desatentos. Por isso sua prescença em cena é alimento vivo para quem quer viver de arte e procura inspiração. Cida é um livro para esses curiosos. Procure por ela nas boas casas do ramo. Ou nas piores. A boa música não escolhe lugar.

 

 

Carta Aberta a Rafael Cortez

Meu Caro Rafael,

Realmente a gente não se conhece e escrever carta é coisa da antiga. Mas só você vai entender os motivos desse texto, porque eu sei que no peito desse humorista bate uma Nara Leão.

Essa semana só deu ela aqui em casa. Na área da literatura, a já definitiva biografia de Cássio Cavalcante “Nara Leão - A Musa dos Trópicos”. Na televisão abri meus arquivos e assisti todos os clipes e especiais que ela fez para a televisão. Mas foi o meu Ipod descuidado no modo shuffle que deu a partida nisso tudo. Depois do aparelinho passar duas vezes pela discografia de Nara, eu pressenti os sinais e me debrucei (novamente) profundamente em sua obra. É Rafael, você tem razão: Nara Leão é a maior . Sua inteligência musical, seu olhar sobre o Brasil, suas descobertas de novos compositores são de grande valia para essa enxurrada de gente nova (?) que quer ocupar novos tronos na academia da música popular. Nara nunca quis o poder. Queria cantar e discutir um país através de suas escolhas musicais. Pensou em parar e parou. Continuou quando achou necessário seu discurso. Parou de novo. E nessas voltas sempre foi brilhante, inesperada, atual e necessária.

Quem hoje seria musa de um movimento e ao gravar seu primeiro disco escolheria outro caminho? A pré-musa da bossa nova (sim, porque nem nome esse estilo tinha ainda e Nara já estava nele) pressentiu o cansaço e o desgaste do banquinho e violão e foi para o morro buscar novos compositores, causando polêmica que ela respondeu a altura. Sim, porque Nara não levava desaforo para casa. Arranhava com fúria a sua imagem de boa menina se fosse preciso. E os militares ficaram de olho nela. Nara não se intimidou. Sua discografia no período da ditadura atestam isso. Ao mesmo tempo acendeu uma vela no breu ao abraçar o Tropicalismo de Caetano e Gil e com seu jeito tímido ajudou na afirmação desse movimento nada discreto e corajoso.

E os anos 70, Rafael ? Nara lança um disco infantil anos-luz de Xuxas e Partimpins e grava um tributo a Roberto Carlos quinze anos antes de Maria Bethânia vender um milhão.

E os anos 80 ? O rock comendo solto no Brasil e ela cantando Fagner, João Donato e Martinho da Vila. Naquele momento essas escolhas poderiam soar desconexas, mas agora ao abrir as duas belas caixas (obra de arte) que contém toda a sua discografia, todas as suas profecias se confirmaram.

Ao fazer agora meu terceiro disco de remixes com quatorze cantoras brasileiras, eu não poderia deixar Nara de fora do meu projeto. Respirei fundo e mandei um email para sua filha Isabel Diegues falando de minhas (más ?) intenções. Fui autorizado e sua gravação de “Mal Me Quer” virou música para dançar. Motivo de orgulho para mim ousar tocar em sua pequena voz de ouro.

Então é isso, Rafael. Volto para as pistas e você para o seu programa. E Nara Leão na cabeça. E no coração.

 

Cantar e Compor Não é A Mesma Coisa

Nessa balaiada de novas cantoras que o mercado tá soltando e o my space tá bombando, 90% por cento delas querem ser compositoras. Todas sofríveis. Um dia conversando com Marina Lima ela me disse que não acredita em gente que faz 30 músicas por mês. Uma boa canção demora um tempo para nascer, isso se você tiver realmente o dom, porque hoje em dia de olho nos direitos autorais, todas querem cantar e compor achando que esses dois milagres da natureza nascem para qualquer um. Quero evitar nomes aqui para não ferir leitores tietes dessas equivocadas mulheres/cantoras/compositoras mas só nesse mês saíram três discos femininos ruins de doer. Todas envoltas em promessas de definitivas e poderosas, mas no fundo pobres copiadoras de formatos vencedores ou já gastos. Todas querem ser Marisa, Adriana, Cássia, Ana, Vanessa e quem mais tiver dado certo. Todas falando de amor da forma mais previsível e desgastada possível, usando de falsa simplicidade, de arranjos “cool” e com cara de desencanada, mas o que está por trás é muita ambição e clonagem. Como diria Caetano Veloso “Por que será que fazem sempre tantas canções de amor ?”, é muito ciúme, muita queixa, muito ai, muita saudade, muito coração, abusando de um santo nome em vão. Que saudade das grandes intérpretes brasileiras: Elis Regina nunca quis ser compositora. Gal Costa imortalizou grandes canções. Maria Bethânia mantém até hoje um repertório irretocável, todas elas sem precisar pegar na caneta da composição. Essas meninas de hoje precisam aprender a só ser. Uma cara bonitinha ou uma atitude masculina num corpo feminino não fazem o milagre da música acontecer. Cantar é mais do que sonhar. É ter o coração daquilo.

MPB, João Bosco, Erasmo, Célia e o cacete !

 

A decretada falência das gravadoras começam a render bons frutos para a velha guarda da MPB: João Bosco lança um grande disco de inéditas, Erasmo Carlos volta para o trono do Rock’n’Roll e a paulista Célia promete oxigênio em seu novo álbum. Então viva a decadência das multinacionais ! Ninguém vende mais , ninguém fica rico com música, pensaram eles. Então vamos fazer o que a gente quiser !

João Bosco como a maioria de seus contemporâneos viu os anos 90 sob a ótica das regravações e discos ao vivo. Seus clássicos apareceram exaustivamente em regravações desnecessárias. E dá-lhe participações especiais de amigos novos e antigos para trazer novidade nenhuma. Com o inicio da brilhante parceria com seu filho Francisco Bosco (num tempo de estio de seu parceiro mais constante Aldir Blanc) as coisas começaram a melhorar, mas sempre aparecia um projeto “ao vivo”, um “acústico” que trazia de volta a sua carreira para a estagnação. Agora com seu novo álbum “Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo no Chão”, João retoma com vigor sua obra de onde parou. Um disco feito sem pressa, com sua voz de veludo em tom sussurrante, seu violão que vale por mil orquestras e as parcerias de ouro que incluem o já citado Francisco Bosco, Carlos Rennó e a volta daquele que nunca foi: Aldir Blanc. Um motivo de orgulho em sua discografia. Um disco que já nasce clássico.

Erasmo Carlos sempre foi mais moderno e interessante que seu parceiro Roberto. O nosso Rei tem outros motivos para a sua glória merecida, mas sempre foi de autoria de Erasmo os momentos em que a discografia de Roberto mostrou alguma novidade ou sinalizou alguma virada. Porque Erasmo é naturalmente mais inquieto e menos preso a superstições e compromissos de imagem. Nunca quis o que não fosse seu: construiu uma discografia de peso sem olhar para o que fazia o “amigo de fé” Roberto. Uma obra de ouro. As gravadoras nunca souberam direito o que fazer com ele: davam chão para ele caminhar alternando com anos de geladeira. O mundo indecifrável e fechado de Roberto fez com que Erasmo fosse ídolo da galera mais jovem, e ele nunca disse não: gravou com todos. Deu canções inéditas para muitos. Agora sua discografia renasce novamente com seu novo álbum “Rock’N”Roll”. Não define mudanças. Confirma o que faz há tempos: música roqueira brasileira. Suas letras ingênuas fazem dele um eterno garotão da Tijuca. O tempo não passou. O tempo não para e Erasmo ainda está por aí.

Célia surgiu no início dos anos 70 no programa do Flávio Cavalcanti. Para desavisados eu devo estar falando grego. Quem é Célia ? Quem é Flavio Cavalcanti ? Vai no Google ou continua lendo aqui. Sempre foi no Rio de Janeiro que os tambores da arte bateram mais alto. Atores e cantores de grande expressão escolheram essa cidade para viver, as grandes gravadoras tiveram seu sítio ali, e as outras grandes capitais ficaram soterradas por essa máfia que se instaurou. Apesar dos grandes festivais e o Tropicalismo terem escolhido São Paulo como ponto inicial, pouco se fala disso. Nos anos 80 o rock Brasil teve mais consistência na Paulicéia Desvairada com Julio Barroso, Titãs e a Lira Paulistana de Arrigo Barnabé. Mas na hora das cartas na mesa só se fala do rock carioca. O compositor paulista ficou na mágoa. Os cantores ficaram no esquecimento. Chegando por aqui procurei por esses artistas que habitavam meu kitinete em Copacabana , quando conseguia com muito esforço, achar um disco deles. Célia, Cida Moreira, Eduardo Gudin são alguns desses que estou falando. No lançamento do meu disco de remixes só deu Célia. Os mais jovens me perguntavam: who’s that girl ? Os mais velhos acendiam a velha chama e não acreditavam no que viam no palco. Uma grande voz que parou no tempo por descuido de nossa memória. Agora Célia prepara um disco novo. Numa tarde em seu apartamento no Morumbi abri meu baú e enchi sua cabeça de novos sonhos (Pedro Luís, Adriana Calcanhotto e Zélia Duncan) e um passado de glória sempre esquecido (Leci Brandão, Benito Di Paula e Odair José). Agora é esperar pelos novos ventos em seu disco novo.

O Segundo Céu

O segundo álbum de um artista é um karma. Do bem ou do mal. Pode mudar os ventos da critica que outrora foram do contra, virarem a seu favor, pode atrair desavisados do primeiro disco, mas também pode causar tamanha decepção e vergonha em quem aplaudiu de forma precipitada, que uma terceira chance fica desde já descartada. Deixando essa suposta tese de lado, vamos aos fatos: a cantora Céu está lançando seu segundo trabalho aqui no Brasil e no mundo que também a consagrou em seu primeiro álbum.
   Papo de cantora nova chega rápido aos meus ouvidos: quem me conhece adora me provocar com vozes que eu ainda não conheço, e eu sempre caio de gaiato nesse navio. Às vezes os meus amigos estão certos, às vezes muito errados, vítimas de euforias passageiras. Assim foi com a Céu: os rumores de seu canto chegaram cedo aqui em casa em forma de exageros: todos diziam que ela ia mudar tudo quando chegasse  ao mercado. E foi assim que numa noite fui até um pequeno bar na Vila Madalena aqui em São Paulo para assistir ao tal fenômeno. Fiquei frio. Num pequeno palco uma bela menina de ar blasé e falsamente desencanado, pouco me espantou. No final fui arrastado até ela que mal me disse um “oi”. Tudo bem, eu pensei.  Mais uma que já vai passar. Logo em seguida fui tocar em Paris e como sempre faço, corri para a megastore mais próxima para comprar todos os cd’s e dvd’s que coubessem no limite do meu cartão de crédito. E só dava ela por lá: pôster na parede, disco tocando, show programado para aquele mês, Céu era um surto brasileiro no coração dos franceses. Fiquei tão excitado que comprei vários para trazer porque sabia que a distribuição por aqui ainda era incerta. Cheguei no hotel e descarreguei no Ipod. Apesar de no geral achar as letras fracas,a sonoridade era muito quente e inédita prá mim, e acabou sendo a trilha da minha viagem. Depois houve o grande estouro na mídia daqui e virou coisa chique nas rodas de música dizer que a Céu era o máximo. E ela não quis tanto confete. Escondeu-se em São Paulo, mesmo tendo uma extensa agenda de shows, descartou o padrão globo de qualidade, e no geral deu as costas para o mainstream e a super exposição. Logo em seguida vieram mais 5.450 cantoras ambiciosas e dispostas a tudo pela fama e Céu caiu no esquecimento das turminhas. Ainda bem. Sucesso é um senhor perigoso que pede respeito e uma certa distância, já dizia Bethânia.
    Agora seu segundo disco está aqui na minha mão. Não há nenhuma ruptura com o primeiro. Não foram escolhidos nomes diferentes na ficha técnica para causar espanto. Céu quer prosseguir e não gerar expectativas. Foi emocionante ouvir de novo seu canto íntegro, depois de tantas cantoras que chegaram e já passaram desde seu surgimento. Foi motivo de orgulho constatar sua inteligência ao controlar sua carreira longe das pressas que geram os equívocos passageiros. Não esperem de mim destaque para esta ou aquela faixa. Ouçam “Vagarosa” por inteiro. Saboreiem os acordes. Sintam cada canção. O segundo álbum de Céu veio para realinhar as órbitas dos planetas.

Keep Young & Beautiful

    Fernanda Young irrita. Ela sabe disso e tira proveito do assunto em seu programa dominical no GNT.
    Conheço Fernanda há muito tempo. Tipo de pessoa que já nasce sendo. Eu era caixa da boate Crepúsculo de Cubatão no Rio de Janeiro e ela já era a rainha do lugar. Chegava, magnetizava, centralizava. Nasceu musa e polêmica. Nesse tempo ela tinha apenas 16 anos e sabia tudo: entrava em qualquer assunto sem parecer uma amadora. E assim nos conhecemos. Eu, preso a milhões de limites e moralismos. Ela, livre, leve e solta.
    Vim para São Paulo antes dela com a certeza de que esta cidade estava fadada a nos receber para sempre pela perfeita sintonia entre os nossos interesses e o que a cidade tem pra apresentar. Típico caso da cegonha que se enganou. Éramos intensos demais para rimar apenas praia e sol.
    Fernanda chegou por aqui de mansinho:  primeiro virou persona grata nas rodas de amigos de seu marido Alexandre Machado (importante publicitário e hoje uma das cabeças mais brilhantes da televisão brasileira, a série "Os Normais" não me deixa mentir). Em seguida, começou a lançar periodicamente seus livros sempre com ótima aceitação. Mas tudo isso era pouco e ela sempre quis muito, mesmo parecendo ser modesta como diz Caetano, e hoje é atriz, apresentadora,escritora e redatora de seriados e filmes.
    Um dia Fernanda me ligou e disse: vou fazer um programa no GNT e queria que você fosse meu convidado no programa piloto. Eu disse sim e estava certo: seu programa poucos meses depois entrava no ar e assim se mantém até hoje com muito sucesso e polêmica.
    Fernanda veio para perturbar a ordem mundial. Seu comportamento e seu visual estão bem longe de parecerem normais. Tem gente que ama. Tem gente que odeia. Muito. Nunca reações em doses homeopáticas. Essa semana fui até o programa gravar minha entrevista. Foi hilário. Foi emocionante. Rever minha amiga em estado de glória e passar a limpo o passado, o presente e o futuro. Foi mais que bom. Agora é esperar para ver. Nesse domingo 12 de Julho estaremos os dois no ar. O trampolim terá sido a nossa amizade.

A Bendita Música de Zélia Duncan

 

Esse texto não é sobre música, Nem sobre Zélia Duncan. É sobre escolhas.

Nesse domingo peguei um avião para o Rio de Janeiro atravessei a ponte e cheguei até Niterói para a estréia do novo show de Zélia Duncan. Uma escolha.

Já disse aqui que um artista não é feito só de talento. Outros ingredientes são necessários para uma feijoada completa: a turma que o cerca, o figurino que escolhe para entrar em cena, e acima de tudo onde coloca o seu foco de interesse. Zélia, como eu, desde muito cedo, escolheu a musica brasileira como sua principal paixão. Muito antes de querer ser uma cantora. Muito antes de querer estar onde chegou. Sua escolha foi movida não pelos motivos de muita gente hoje em dia: querer ser artista , querer estar na mídia. Era uma necessidade como respirar. Um inevitável caminho.E assim tem sido. Uma carreira que demorou para decolar (sim porque Zélia já estava na estrada desde 1981 quando seu primeiro grande sucesso ganhou as rádios em 1994) mas que não parou mais de render belos frutos. Inicialmente apenas uma intérprete, Zélia começou a sentir o bendito desejo de compor e nunca mais parou. Seu segundo disco (sim, porque houve um primeiro massacrado por equívocos de gravadora e produtor) apontava a estrada por onde sua música caminha até hoje: a canção pop, a influência do estilo folk e o olhar novo sobre a velha MPB (quem se lembraria, senão ela de "Lá Vou Eu", uma Rita Lee escondida no baú do tempo ?).

Mas esse texto não é uma biografia. É uma celebração de alguém como ela apaixonado por boa música. Alguém como ela que sabe o valor que o canto tem.

Palco não é uma trincheira para guerra de vaidades. Fazer um disco não garante dinheiro a mais ninguém . Mas fazer o que ? É disso que o coração de Zélia se alimenta. Foi essa arte que ela escolheu para sobreviver. e pelo sabor do gesto ela continua a surpreender e emocionar como nessa vibrante noite de domingo em que eu na plateia e ela em seu merecido lugar de cena, fomos tomados pelo choro. Minhas lágrimas de reconhecimento. Suas lágrimas de agradecimento. Tudo pela musica popular brasileira. Duas escolhas.

Ana Beatriz Nogueira, uma atriz brasileira que chegou ao estrelato pelas mãos do cinema, atua na televisão e nunca esquece do teatro, dirige Zélia nesse show. Uma escolha. Um acerto. Ana Beatriz acende novamente em Zélia a chama de ser atriz, abafada logo no inicio de sua carreira e que agora somada ao seu canto fazem a sutil diferença desse show.

Cercada por quatro competentes músicos (pra que mais?), a emocionante luz de Aurélio de Simoni e a bela cenografia de Analu Prestes, Zélia vai na contramão dos vampiros: escolhe grandes nomes aparentemente improváveis para um show de música e acerta em todos. Não quer para si, vitoriosos do bairro vizinho, não olha para o lado para se dar bem, copiando sucessos alheios. Uma escolha.

E nessa noite passou de tudo por aquele palco. Uma mistura fina e improvável até as luzes se apagarem e ela entrar no palco para justificar tudo isso com inteligência, sofisticação e propriedade. De Itamar Assumpção a Tom Zé. De Alex Baupain a Evinha chegando até Roberto Carlos, mostrando que para cantar o Rei não precisa se estar num grande Teatro Municipal. O de Niterói pode servir e ser mais emocionante. Uma escolha.

Release CD "Essa Moça Tá Diferente"

Começar pela letra Z.
Zé Pedro é um ser de definição quase encantada, como todos os seres que decidem assinar seus nomes pela última letra do alfabeto.
A letra “Z”, no andamento dos vocábulos ocidentais, foi o último símbolo acrescentado ao alfabeto.
Claro que sabemos que o nome dele vem de “José”, mas isso entrou há tempos numa escala Z do não-vale.
Pra quê? Nada mais Z do que perguntar isso.
Então voltamos a Zé Pedro.
Z soa como zumbido, zoada, zorra, zás-trás.
Z é um som fricativo e uma letra nunca normal.
Ponto Z.
Z de zum-zum.
Z de zoom.
 
Zé Pedro sobrevoa o país desde a fase dos chapéus malucos na tevê até alcançar hoje o posto de maior produtor de trilhas e de DJ com entrada liberada em qualquer lance criativo. Portas livres, janelas abertas, chapéus ao vento.
 
Zé Pedro se construiu como personagem. Por detrás do Zé risonho, zilhões de voltz, válvulas, agulhas, pick-ups e fortalezas. Sua caverna é uma caixa de som cheia de cantoras. Algumas baixam. Outras ele levanta, alicia, envolve, refaz, afia, embala, engrandece. E chega de preâmbulos.
 
Falar agora do techno-sacerdote Zé Pedro.  “Mas falar o quê?”, reclamam suas divas escolhidas, pulando em seus saltos-altos ou em gravações pouco divulgadas. Ele agora volta a atacar o mulherio da MPB, lançando outro CD de remixes sobre interpretações que escolheu como integrantes de seu hinário particular. Tal qual um químico que se diverte em misturar poções de cores diferentes, Zé Pedro pega uma canção, tasca chuvas de loopings, sacode BPM nos andamentos, reveste as músicas com sonoridades jamais pensadas em suas produções originais, cria efeitos mirabolantes e finaliza com um componente mágico que ele não dá a receita a ninguém – nem mesmo se Maria Bethânia se ajoelhasse a seus pés, suplicante, soluçante. Zé Pedro cria misturações químicas, cianuretos e beijocas, balança quadris inesperados, levanta cabelos & olhos tortos & saudades.
 
O resultado do trabalho é puro fetiche, puro feitiço: tudo começa a se mexer, tudo começa a bailar: cantoras, microfones, decotes, pistas, platéias, parentes, fãs-clubes, laquês, partituras, estantes, instrumentos, matrizes, caixas de som. Ventilador na potência máxima. Orelhas receptivas. Algo de inolvidável no ar. Ora, é o som do Zé Pedro.
 
Dessa vez entra em campo um mix de cantoras que ninguém pensaria misturar nem em delírio. Mas ele gosta da pororoca, do zigue-zague, do contraste vociferador. Sacode a poeira com Marisa Monte, traz Elis Regina para as pistas, põe a mão nas cadeiras com Alcione, libera o compasso de Ângela Rô Rô, cutuca Maysa com eletricidade, liga a tomada de Maria Alcina no 220 , traz fôlego novo para Cássia Eller, aplica asas nas costas de Zélia Duncan, coloca Nara Leão para saracotear, rodopia com Fafá de Belém, joga Fernanda Takai na esquina do ritmo, tira Célia do sério,dá um banho de pirlimpimpim em Mart’nália e faz Beth Carvalho flutuar/festejar no espaço sideral da alegria.
 
Em tempo: o nome do CD, “Essa Moça Tá Diferente!” faz referência a um samba antigo/ homônimo de Chico Buarque. Que, aliás, é o compositor favorito das mulheres que cantam. Assim como Zé Pedro é o (re)feitor predileto das cantantes brasileiras. Então vamos deixar que ele, o cientista da MPB, toque. E pedir que elas abram os seus gogós.
Afinal, ele ama essas moças, garotas, mulheres, divas.
Afinal, ele crê que as divindades da música brasileira jamais serão diluições.
Afinal, ele venera estilos, levanta tumbas, bate tambor, busca tambor, tamborila.
Ele é tambor.
Tambor.
Zé Pedro remexe.
Zé Mix.

Eduardo Logullo, Maio 2009

 

Remixes DOWNLOADS
Ando Meio Desligado (DJ Zé Pedro Mix)
Ney Matogrosso
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Na Veia da Nêga (DJ Zé Pedro Mix)
Luciana Mello
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Esperando na Janela (DJ Zé Pedro Mix)
Gilberto Gil
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Gatas Extraordinárias (DJ Zé Pedro Mix)
Cássia Eller
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Nossa Canção (DJ Zé Pedro Mix)
Vanessa da Mata
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Só Deixo Meu Coração Na Mão De Quem Pode (DJ Zé Pedro Mix)
Kátia B
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